| | | | | |
O
riso precisa ser idiota? Dez,
quinze anos atrás, o humor na TV – melhor dizendo, o humor na emissora
líder em audiência e em gosto, a Globo – entrou em crise. Havia três
formas principais de fazer rir, uma com Chico Anysio, outra com Jô Soares
e a terceira – que então nascia – com o grupo do Casseta e Planeta, que
foi fazer a TV-Pirata. Chico Anysio envelheceu, mantendo um humor assentado em
tipos e estereótipos, e perdeu o destaque. Hoje seria improvável
um episódio que presenciei há vinte anos, quando fui jantar na casa
de importante intelectual paulista, que a certa altura se ausentou para ver Chico
Anysio: ele adorava os seus tipos. Jô
Soares, embora estivesse na ribalta também há muito tempo, renovou-se.
Mas no fim dos anos 80 ele estava em crise. Penso, mesmo, que foi ele quem melhor
percebeu a necessidade – e as dificuldades – de se renovar. Seu programa de humor
tinha duas vertentes principais. Uma era a da crítica política,
que gerou personagens esplêndidas ao longo do infindável ocaso de
nosso dinossauro, a ditadura militar. Ele criou o porta-voz esverdeado, paródia
do porta-voz do general Figueiredo; o ministro Sardinha, da Agricultura ("meu
negócio são números"), alusão a Delfim Neto;
o paranóico, que sempre achava que o queriam enredar em posições
contra o regime. Mas seu melhor papel foi o general do "tubo", um militar
que passa em coma os seis anos da presidência de Figueiredo. Ao saber que
o país tinha mudado, o general mandava tirar o tubo que o mantinha vivo
– até ouvir algo que o alegrasse, tipo ACM é ministro, Sarney é
presidente etc. ("deixa o tubo!", terminava a cena, querendo dizer:
nada mudou no Brasil). A
outra vertente de Jô Soares era uma comédia de costumes marcada pelo
preconceito contra mulheres e gays, que seriam, elas e eles, fúteis.
A soma das duas vertentes garantia para o cômico um público enorme,
tanto culto quanto vulgar – mas, no final dos anos 80, estava ficando impossível
a coexistência entre os dois registros. É como se a crítica
política resultasse na TV-Pirata, enquanto a censura à dissidência
comportamental ficava com Chico Anysio. Que lugar restava a Jô Soares, nossa
mais brilhante individualidade cômica, nesse quadro? Provavelmente
foi essa a razão última (mais forte que a pequena crônica
das TVs) para ele sair da comédia e ingressar no talk show – claro,
temperando-o de graça cômica. E foram esses os anos de glória
e originalidade dos Piratas. Só que também eles acabaram aderindo
ao estereótipo – é certo que em tom irônico, rindo do negro
mas com uma piscadinha de olhos, como a dizer que sabiam que isso era errado,
preconceituoso. Foi o seu jeito de agradar aos dois públicos, o vulgar
e o culto (a piada para o vulgo, a piscada para o culto). De todo modo o humor
Pirata decaiu, e hoje o riso televisivo tem raros momentos de inteligência.
Parece que o impasse sentido por Jô Soares em tempos da Nova República,
longe de se superar, apenas acentuou seu caráter implacável. Por
que isso? Concordo plenamente que – na maior parte dos programas – a TV é
entretenimento, que exige leveza e despretensão. Nada de policiar as piadas!
O inquietante, porém, é que as pessoas se descontraiam ouvindo o
que há de pior no preconceito. Faz vinte e cinco anos que as novelas
defendem a igualdade dos sexos – mas o humor ainda passa a idéia de que
as mulheres são fúteis gastadoras do dinheiro de seus maridos. Será
a dramaturgia mais democrática, mais inteligente que o riso? Parece ser
esse o fato, mas por que? O riso não precisa ser idiota. (13
de agosto de 2000) | | |