| | | | | |
Os
pressupostos da assimilação da TV à propaganda [No
governo passado] que o Executivo Federal insistiu, desde 1997, numa auto-regulamentação
da TV nos moldes do Conar. (O Presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a sugerir
que a imprensa como um todo criasse o seu Conar1).
Se descartamos a hipótese de que tal sugestão vise precisamente
a impedir qualquer regulação da área, podemos pelo menos
questionar a assimilação assim operada da TV à propaganda.
Estranhamos essa atitude. Não
discutamos então por que o Governo tem utilizado esse modelo, mas
o que ele implica ou pressupõe. Não debatamos intenções,
mas efeitos. Ora, o que essa assimilação da TV à propaganda
necessariamente implica é uma desconsideração do caráter
público da televisão, de seu papel cultural, e – com isso
– sua redução a uma mercadoria. A ênfase no aspecto comercial
da TV assim prejudica sua dimensão como meio de comunicação,
e com isso a importância de seu papel no debate das questões sociais
e em especial no que possa haver de democrático na cultura. Em
suma, a sugestão, que vem basicamente do Ministério da Justiça,
de um modelo Conar para a auto-regulamentação da TV vai no contra-pé
da questão que aqui discutimos, cultura e democracia. Ela supõe
que a cultura de massas seja parte da indústria do entretenimento. Seu
pressuposto é que o áudio-visual constitui uma mercadoria, e portanto
deve ser regulado pelo mercado. Daí, aliás, a contradição
nessa abordagem, porque o problema enunciado pelo Ministério da
Justiça é o dos excessos da TV em face da cidadania e da ética,
enquanto a solução aventada é a do auto-controle pelo
mesmo mercado, que lucra infringindo direitos humanos reconhecidos por nosso país.
Discordamos,
pois, dessa proposta. Se a comunicação de massas é concessão
pública, cabe a ela uma responsabilidade na promoção da cidadania,
por ela entendendo tanto a capacitação da sociedade para discutir
seus rumos (a questão política por excelência) quanto o municiamento
da pessoa com elementos culturais de qualidade, que lhe permitam fazer suas escolhas
com a melhor informação e formação (a questão
da individuação). Para nenhuma dessas metas, o modelo Conar parece
adequado, quanto mais suficiente. NOTAS 1
"O presidente Fernando Henrique Cardoso é favorável à
auto-regulamentação da imprensa, nos moldes do que é feito
hoje na atividade publicitária. FHC se declarou contrário à
adoção de uma legislação punitiva e afirmou que quer
o Estado longe desse controle, que deve ser feito pela sociedade", relata
o repórter William França, que prossegue: "‘A legislação
rigorosa pode ser inibidora do exercício da crítica’, disse FHC,
por intermédio de seu porta-voz, Sergio Amaral. (...) Amaral disse que
o governo tem o setor publicitário como exemplo bem-sucedido de auto-regulamentação.
O controle nesse setor fica a cargo do Conar (Conselho Nacional de Auto-Regulamentação
Publicitária). ‘O Conar tem funcionado, tem preservado sobretudo a categoria
publicitária, e tem estabelecido limites, referências e normas para
a competição. E é sobretudo eficiente e rápido’, disse
o porta-voz’." Folha de S. Paulo, 30 de outubro de 1997, p. 1-6. | | |