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A
pornografia leve de nossos canais
Os
canais pornográficos – ou "adultos", como dizem os norte-americanos
– se difundiram entre nós. Mas é curioso: há uma hierarquia
na nudez das mulheres. Assistam à TV Playboy, por exemplo, a mais famosa.
Só por muita distração do canal é que vocês
verão um pênis ou uma penetração. E isso porque ela
não faz pornô hard, apenas soft. Aliás,
por volta de 1999 a propaganda da TV Playboy visava o casal e não apenas
o homem. Uma mulher recomendava à amiga, enquanto malhava na academia,
que assinasse o canal, como ela (e o marido) faziam. Sempre havia, portanto, um
homem assistindo às mulheres nuas, só que acompanhado de sua parceira.
Não seria um canal de masturbação masculina, uma espécie
de calendário de borracharia com upgrade, porém um incentivo
à erotização do casamento moderno. Mas essa é a ideologia
do canal, não necessariamente o que ele faz. Regra
básica: quanto mais bela e famosa a mulher, por exemplo uma Pamela Anderson
ou uma Jenny McCarthy, menor a chance de ela sequer simular um ato sexual. As
mulheres que estrelaram algum número da revista usam lingeries provocantes,
obviamente aparecem nuas – mas tudo isso sob uma luz meio artística, meio
sacralizante. Os dois adjetivos merecem aspas: o "artístico"
está num estereótipo de bom gosto (quase kitsch) do nu feminino,
enquanto o "sacralizado" está no fato de que essas mulheres ("nossas
deusas", diz a Playboy impressa) são admiradas, não
possuídas. Quando muito, num programa de trinta ou sessenta minutos com
uma das deusas profanas, haverá uma cena de sexo apenas insinuada. É
provável que a cena seja mostrada como um sonho, um devaneio. Ou seja,
em vez de ser a mulher tomada por um homem, é ela quem tem a fantasia com
ele. Ela controla a situação. O
jogo é complexo. O homem continua sendo o alvo por excelência do
canal. Mesmo a propaganda do "canal casal" supõe que a mulher,
como espectadora, se acrescente ao marido – não que ela assine, sozinha,
a emissora. Mas, por outro lado, quanto mais bela a mulher atriz, a mulher que
vemos, menos ela será dominada. Seria um desdouro, uma diminuição
ela aparecer fazendo sexo. Já ela ter fantasias não é problema.
Aliás, a idéia é essa: um canal para você fantasiar.
Cenas
mesmo de sexo, na TV Playboy, só ocorrem em filmes. Mas esses têm
um padrão Playboy de qualidade. Não se mostra o pênis, nem
a intimidade dos órgãos femininos (não há o pornô
"ginecológico" da Penthouse), menos ainda um ato sexual,
digamos, convincente. Somente a sua simulação. E as atrizes desses
filmes raramente são bonitas. Não posariam para a revista. Lembrem
a velha distinção: no pornô soft o ato sexual era simulado,
no pornô hard seria real. Uma distinção muito ingênua,
porque antes mesmo de se difundir a virtualidade da informática já
era difícil triar, nas fotografias ou filmes, o que era encenado e o que
seria autêntico. Mas, aqui, essa distinção se aplica, desde
que lembremos que se aplica somente como mito. As mulheres realmente belas são
inatingíveis, intangíveis, em suma, são in. As que
fazem folia – para usar o belo termo que o português medieval empregava
para o sexo –, as que folgam, as que brincam, não são
as nossas deusas. Por
que essa hierarquia? O que se faz com isso é um pornô respeitável,
que poderia – diz a propaganda – ser curtido pelo casal (quem sabe, no futuro,
em família?). Aliás, por isso mesmo se fala em canais adultos, não
em canais pornográficos. Isso lembra uma história de um amigo que
esteve no norte da Tailândia, numa cidade que é a capital mundial
do fake. Pois o dono de uma loja que vendia imitações de
Louis Vuitton e Seiko lhe disse, com toda a seriedade: "Eu sou o único
que vende imitações genuínas. Todos os outros vendem
artigos falsificados". Há então o falso falso, e o falso
genuíno. Da mesma forma, parece que há o pornô pornográfico
e o pornô respeitável. Para quê? Muitos
perguntam o que distingue o erotismo da pornografia. Há várias conceituações,
sendo que me soa simpática aquela que diz que a pornografia tem um lado
mandatório, de mandar as pessoas a copiarem (Deleuze). Mas a distinção
que me parece mais correta é a seguinte: a pornografia é o erotismo
dos outros. Pornografia é termo pejorativo, erotismo é positivo.
Pouca coisa é, em si, pornográfica ou erótica. Depende.
Daí, talvez, que os canais de mulher nua se queiram integrar na área
respeitável da sociedade. Daí, também, que difundam seu estilo
para outros canais. No
começo de 2003 assim apareceu, no cabo, uma Fashion TV. É
uma espécie de canal E! voltado para o mundo da moda. Mostra roupas
e modelos. Mas um de seus principais ingredientes é que as modelos sejam
belas e semi-nuas. Fazem especiais com elas. Insistem em seu glamour. O curioso
é recebermos, no Brasil, uma programação latino-americana
falada em espanhol e concentrada na Argentina, México, Colômbia –
sendo que tanto a língua quanto a cultura de nossos vizinhos infelizmente
não angariam muita simpatia junto ao público desses programas. (Quem
mais admira nossos irmãos hispano-americanos são os meios intelectuais,
que dificilmente priorizarão esse canal). E
é quase indecente mostrar essa alegria desbragada de modelos argentinas
num sonho, nada brasileiro, que é passear em Punta Del Este. A Argentina
vive hoje talvez a maior crise de sua história, e enquanto isso se fala
em festas e fashion. Mas festas não bastam para vender o canal.
Ele tem um produto essencial, que é a semi-nudez. Um
comercial da Fashion TV é esclarecedor. Apresenta-se como a transmissão,
ao vivo, de um assalto com reféns em Buenos Aires. O diferencial é
que ele se dá numa sex shop, com o refém exibido pela janela,
via satélite, enquanto segura um objeto pornô. Aí percebemos
que se trata de um anúncio – e vem a moral da história: compre seus
artigos sexuais por telefone ou pela Internet, em vez de correr o risco de ser
mostrado ao mundo todo em suas compras pouco ortodoxas. É
fabuloso esse anúncio. Começa misturando real e ficção.
Diz ser ao vivo, mas é uma gravação, uma propaganda. Se fosse
mesmo de verdade, seria exibido algumas vezes ao longo de um dia, e só.
Como é ficção, reaparece constantemente. Não perde
seu efeito com isso, porque é engraçado. Mas é também
curioso que do pornô se extraia uma lição, melhor dizendo,
uma moral da história. Do
que tradicionalmente seria imoral se retira uma moral, mas uma moral leve, sem
muito rigor, apenas prudente. Ela diz: seja cauteloso, não exiba seus desejos,
mantenha-os na esfera da sua privacidade. É uma espécie de alegoria
da recepção do canal. Mostrando-se
esse anúncio, confessa-se que o canal é – por trás de todo
o discurso sobre modas e desfiles – pornô light. Seu público
quer ver roupas, e mulheres sem roupa. Mas pode fazê-lo de casa. E, sobretudo,
pode fazê-lo com o pretexto das roupas. Exibi-las serve de justificativa
para tirá-las. Nossa
moral da história, para concluir: nada contra a nudez, nem contra a pornografia
– a não ser, claro, que seja de menores ou exposta a crianças. Mas
poderiam a nudez e a pornografia passar com menos desculpas? Poderiam os seus
canais se preocupar menos em ser respeitáveis? (Julho
de 2003) | | |