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Ética
e política 2: a política concentrada na corrupção A
moral política na TV: a questão da corrupção Se
a discussão ética se reduz à questão sexual, a discussão
política se reduz à corrupção. (É a sua maneira
de subordinar-se a uma moralidade elementar, de senso comum, fraca). Raro é
o assunto político a ser debatido em público fora dessa agenda.
Aliás, embora haja vários programas de televisão em que diversas
tendências políticas se expressam, uma cultura do debate político
é relativamente rara entre nós, uma vez que ainda não se
entende bem que seja normal haver divergências. Estas geralmente são
expostas como desvios, não como alternativas legítimas. Daí,
talvez, o peso da corrupção como tema, que permite um recorte claríssimo
entre o certo e o errado. Curiosamente, daí também procede que seja
um tema de facílima manipulação: basta lembrar que o candidato
a presidente que mais insistiu no combate à corrupção, desde
que voltou a haver eleições livres, acabou justamente condenado
à perda do cargo, pelo Senado Federal, acusado desse crime. O
problema aqui é que se criminaliza – ao menos potencialmente – a
divergência, ao ser ela concebida como desvio com o qual somente se
lida mediante a punição. O resultado é que não se
consolida uma cultura política – democrática por excelência
– do debate e da divergência, mas idealmente se postula, quase sempre,
um consenso, estranhando-se enormemente a discordância. O comum é
efetuar uma caricatura da posição oposta. Daí também
que, nos ataques aos defensores dos direitos humanos, esses mal tenham a oportunidade
de comparecer ou de falar. No caso das políticas públicas, entre
as quais avulta a privatização, isso implica que as emissoras, comprometidas
com a sua defesa, mal dêem espaço a quem se opõe a ela – e,
pior que isso, até mesmo neguem a racionalidade dos críticos
da privatização. Campanhas
contra a corrupção Exemplos
dessas grandes causas, apresentadas como consensos, foram três campanhas:
contra o presidente Fernando Collor, na reta final de seu governo, em 1992; contra
a Igreja Universal – essa segunda campanha, praticamente só conduzida pela
Globo – em meados da década de 90; e, em 2000, contra o então prefeito
Pitta, de São Paulo. Há
uma nobreza, nas grandes causas; elas se impõem a todos, como deveres;
não comportam muita discussão, a não ser a denúncia
e as providências que se seguem. Contudo, embora possam constituir uma faxina
necessária, não ajudam, por si, a democratização da
sociedade – e justamente porque a seu respeito cabe pouca controvérsia.
Elas convertem a política em atividade judicial e mesmo policial. Submetem
a escolha, que é a grande questão política, a critérios
prévios de certo e errado. Assim, dispensam o cidadão de analisar
alternativas igualmente legítimas. E desse ponto de vista a própria
emepeização da política, a que aludíamos, não
é positiva – porque reduz a política a uma aplicação
de medidas legais, esquecendo que a política está em certa medida
acima ou antes da lei, já que no seu âmbito se escolhe
qual lei deve reger-nos. O
problema de se constituir a corrupção como o grande problema político
é que ela não é um problema político, mas moral:
com ela se esquece o caráter constituinte da política, assim
reduzida a uma simples aplicação de valores, de preferência
válidos eternamente. | | |