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Ética
e política 1: a política concentrada na corrupção A
discussão do sexo e da política na TV Um
dos eixos mais explícitos da discussão sobre a TV, no Brasil, é
o do sexo. A questão moral, quando é debatida no tocante à
televisão, geralmente se centra na exposição dos genitais.
Atualmente, o assunto parece mais ou menos resolvido na prática: em que
pesem protestos sempre recorrentes, está praticamente impossível
a censura às imagens de nudez na televisão. Elas consagraram-se
nos costumes, sobretudo, mas não só, no carnaval. Pode-se e mesmo
deve-se questionar se a exibição da sexualidade corresponde a uma
desejável emancipação dos costumes, ou antes à conversão
do corpo em mercadoria – em outras palavras, se quem triunfou foi Wilhelm Reich
ou Hugh Hefner. Mas o fato é que quase todo o debate sobre a sexualidade
na TV, melhor dizendo, quase toda a crítica à exibição
do sexo na tela, se deu em termos moralistas e não nos de uma abordagem
que unisse a defesa da emancipação sexual, o respeito à intimidade
e a valorização do amor. Ora,
ao mesmo tempo que se super-discute o sexo, subdiscute-se a política. Muito
pouco se debate, na televisão, em termos de opções políticas
e sociais. Há no Brasil uma enorme valorização do enfoque
moral, que no caso da sexualidade geralmente produz um discurso (mas não
uma prática) moralista, e uma depreciação dos debates, relevantes
para uma democracia, sobre as diferentes opções de sociedade que
ante nós se colocam. Assim, por exemplo, um debate sistemático entre
neoliberalismo, socialismo e terceira via raras vezes vem à luz, já
que os canais de televisão geralmente defendem as posições
mais próximas às do poder político e econômico. Redução
da questão moral à da ética sexual O
primeiro ponto assim a frisar é que não só a política
é subordinada à moral, mas que a moralidade é reduzida à
sexualidade. A crítica aos excessos televisivos se concentra na exibição
do nu feminino e na referência a relações sexuais pré-
ou extra-conjugais. Contudo, parece bastante difícil que a TV mude de atitude
nesse tocante, de modo que aqui temos uma reivindicação moralista
que provavelmente se esgotará em si mesma. De
todo modo, devemos enfatizar a necessidade de distinguir o que é emancipação
sexual, enquanto direito cada vez mais reivindicado no âmbito social, e
o que é abusivo – como por exemplo a precoce sexualização
das crianças 1
– e merece ser criticado. A
emancipação sexual na TV Há
quase trinta anos a rede Globo promove o reexame das relações homem-mulher.
É evidente que os movimentos feministas, por definição minoritários
na sociedade, foram quem iniciou esse questionamento, já nos anos 60, mas
na década seguinte a rede Globo assumiu a causa, e não a abandonou.
A novela Dancing Days, de Gilberto Braga, já questionava – em 1979
– os papéis tradicionais dos dois sexos. Mais que isso, uma assessoria,
formal ou informal (ignoro-o), desde muito tempo procurou ajudar as novelas, principal
peça da dramaturgia televisiva e portanto dotada de enorme impacto sobre
os costumes, a mudar estes últimos, com o intuito de reduzir o sofrimento
psíquico e aumentar a felicidade dos espectadores. Penso que a proximidade
de vários atores da Globo em relação ao psicanalista Eduardo
Mascarenhas deva ter cumprido importante papel nesse rumo. Lembro
uma passagem de Dancing Days: o pai – vivido por Cláudio Correia
e Castro – finalmente aceitava que o filho mais novo (Lauro Corona) não
seguisse a carreira prevista para ele. Querendo encorajá-lo, o pai dizia
ao menino que, mesmo que se tornasse lixeiro, procurasse ser o melhor lixeiro
do mundo. Nesse momento, o irmão mais velho (Antonio Fagundes) reagia,
exigindo que o pai cessasse uma pressão excessiva: que o irmão,
como qualquer pessoa, fosse simplesmente o que quisesse ser, sem ter de carregar
o peso do perfeccionismo paterno. O discurso era evidentemente de divã,
e inovador, porque o pai dizia o lugar comum bem-pensante da época, – mas
sua transposição televisiva estava bem feita e atestava o empenho
de romper uma moralidade tradicional. Outro empenho nesse rumo foi o de fazer
homem chorar na televisão. NOTAS 1
Assim, nos últimos anos, a "dança da garrafa", altamente
erótica e difundida pela TV, tem sido imitada por meninas de três
ou quatro anos, com beneplácito dos próprios pais e incentivo das
emissoras. | | |