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O
Brasil norte-americano Na
última crônica, comentei que os Estados Unidos vêem a cultura
sobretudo como mercadoria, promovendo o entretenimento, a diversão – enquanto
os europeus a entendem como um direito humano fundamental, no qual é importante
o papel do setor público, contribuindo para formar a cidadania e a liberdade
de escolha. Hoje quero desenvolver essa diferença a propósito da
TV paga, que aumentou a quantidade de programas mas nem por isso deu perfil mais
pluralista à telinha. A
maioria esmagadora dos novos canais difunde o estilo norte-americano de vida.
Às vezes isso chega às raias do ridículo – por exemplo, com
piadas incompreensíveis, citando personagens bem conhecidas naquele país,
mas que para nós nada significam, ou questões provincianas dos Estados
Unidos, tratadas como se tivessem alcance universal. E isso para não falar
nos erros de tradução, inúmeros. Ouvi
outro dia, num documentário sobre o filme A Montanha dos Gorilas,
que na África havia muita "fita vermelha". Percebi que se referiam
a "red tape", que quer dizer papelório, carimbos, em suma, burocracia.
Isso lembra uma expressão que durou muito tempo nas legendas de filmes
importados, que era "xispeteó". Significava algo excelente, muito
bom, vindo (o que é bem curioso) de XPTO, que é uma das formas pelas
quais os primeiros cristãos escreviam o nome de Cristo. O problema é
que essa expressão foi corrente na gíria brasileira em 1930 e 40,
mas os tradutores radicados em Hollywood a usaram até os anos 70, desligados
que estavam da evolução de nossa língua. Há,
sim, o ridículo nessa transposição automática do American
way of life. Vejam as avós norte-americanas. Elas geralmente aparecem
com excesso de maquiagem e de jóias, mostrando-se frias ou até hostis
a suas filhas e netos. Isso causa repulsa ou pelo menos chacota num país
como o nosso, em que a relação da avó com o neto costuma
ser muito forte, constituindo um canal de intenso prazer para ambas as partes.
Mas
o problema não está no ridículo e sim no que é tentador.
E o entretenimento norte-americano é cativante, até porque nos últimos
cinqüenta anos ele formatou os corações e mentes, mundo afora,
numa espécie de adolescência expandida. A Disneylândia e seus
desdobramentos tomaram conta do imaginário mundial. (Lembram o soldado
nazista do Resgate do Soldado Ryan, salvando ao vida ao gritar que adora
Mickey Mouse?). Macdonald’s e sitcoms conquistaram públicos. O problema
é que junto com isso vêm valores que não são discutidos,
mas absorvidos acriticamente. Inclusive
alguns gestos. Já comentei que o gesto obsceno brasileiro, que consiste
em arredondar o polegar e o indicador, está sendo substituído por
seu parente norte-americano, o dedo médio apontado em riste. Mais que isso,
toda uma substituição de formas culturais ocorre sem a percebermos.
A tecnologia prevalece sobre o conteúdo, assim como (na dramaturgia televisiva)
os efeitos especiais ameaçam ganhar do jogo do ator, as imagens (no telejornalismo)
roubam espaço das análises, e por aí vai. Se
pelo menos tivéssemos acesso equivalente a canais de outras proveniências!
Mas a BBC inglesa, a RAI italiana, a DW alemã, a NHK japonesa, a TVE espanhola,
a ART árabe, todas elas passam sem legenda ou dublagem, ficando reservadas
a quem domina línguas estrangeiras. Contamos nos dedos os canais não-norte-americanos
que dublam e editam sua programação – basicamente, alguns da Globosat,
o Eurochannel, a TV-5 da francofonia, o Films&Arts quase inglês. É
pouco. A TV aberta fechou ainda mais nossa dependência cultural dos Estados
Unidos. (26
de agosto de 2001) | | |