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O
afeto autoritário Tenho
defendido as novelas. Contra a opinião de muitos colegas da Universidade,
sustento que elas têm papel positivo na transmissão de certos ideais,
em especial o da igualdade da mulher em relação ao homem e o da
condenação do preconceito de raça. É
claro que a TV é menos profunda ou pioneira que os grupos feministas ou
de consciência indígena ou negra – mas só ela pode levar uma
idéia, um nome de livro, um comportamento a 50 ou 60 milhões de
pessoas.
Mas, justamente porque defendo o que é positivo nas novelas, devo criticar
o afeto autoritário que nelas se vê. Penso no despotismo do patrão
sobre os empregados, e da patroa sobre a doméstica negra. Um personagem
como Pedro (José Mayer) em Laços de família não
respeita as pessoas – e no entanto é, globalmente falando, mais simpático
que antipático. A TV ainda tolera condutas que socialmente se tornaram
inaceitáveis. Uma
novela precisa ter personagens de várias classes sociais. Se não
tiver pobres, classe média e ricos, não atingirá todos os
públicos. E a comunicação entre essas classes se dá
sobretudo pelo amor. Isso faz parte das regras do gênero e não vou
contestá-las aqui. O
problema, porém, é que no contato entre os ricos e os pobres desponta
um autoritarismo que acabamos aceitando, os espectadores, graças a um enredo
que faz das personagens despóticas figuras agradáveis, humanas,
quase positivas. Por
que essa simpatia, ou tolerância, com os mini-déspotas do dia a dia?
Nossa sociedade nunca liquidou seu legado autoritário. Quando se aboliu
a escravidão, não houve um projeto de cidadania para os negros.
Ao contrário, tudo servia de pretexto para reprimi-los – por exemplo, a
capoeira, os cultos afro-brasileiros, que eram caso de polícia. Nosso
know how de relações sociais ainda tem um quê da escravatura.
Aceitamos muitas vezes que o elemento descontraído, simpático, afetuoso
venha junto com uma centelha de autoritarismo. Lembremos como Lima Duarte se especializou
em fazer clones de Sinhozinho Malta – o fazendeiro de Roque Santeiro (1985-86),
que simbolizava todo o entulho da ditadura militar sobrevivendo no regime civil. Mesmo
quando a TV valoriza a mulher perante o homem, seu limite de atuação
é a sociedade de consumo. Nossa televisão é muito mais consumista
que as européias. Quem tem vale mais do que aquele que não tem.
E por isso o patrão muitas vezes trata mal o empregado. Isso
é tão comum que às vezes nem se percebe. Sugestão:
prestem atenção no modo como as pessoas são servidas à
mesa, nas novelas. Verifiquem se agradecem à empregada, se dizem por favor.
É mais provável que lhe dirijam alguma palavra atravessada – e que
isso acabe passando, não digo como bom, mas como natural ou comum. O
Brasil vai melhorar do autoritarismo quando esse tipo de conduta não for
mais aceito, quando não suscitar mais sorriso, sequer amarelo, mas causar
repulsa ou pelo menos estranheza. Quando não nos reconhecermos mais, ou
não reconhecermos mais nosso país, no recorte que trata os mais
pobres como desprovidos de direitos, e até mesmo do direito elementar de
ouvir, sempre, por favor e obrigado. Isso
é pouco? Não acho. Há vários modos de ajustar contas
com um passado detestável. Um deles é mexer nos pequenos gestos,
percebendo que nossos valores não são coisa muito abstrata, mas
se exprimem em nosso modo de guiar o carro ou de tratar a pessoa do lado. O mesmo
vale para a TV – e, quando ela não agir bem, devemos cobrar isso dela.
Melhorar o país dá trabalho. Isso inclui reclamar pelo que achamos
justo. (17
de dezembro de 2000) |