| | | | O Prefácio
a O Problema da Obediência em Thomas Hobbes, Thamy Pogrebinschi,
Bauru, SP, EDUSC, 2003. | | Um
filósofo que tinha religião No
final do capítulo 15 do Leviatã, Thomas Hobbes diz que as
leis de natureza que ele andou expondo – e que determinam o advento da vida social
– não são propriamente leis, mas "apenas conclusões
ou teoremas relativos ao que contribui para a conservação e defesa
de cada um, ao passo que a lei, em sentido próprio, é a palavra
daquele que tem direito de mando sobre outros". Muitos comentadores do filósofo
exultam com essa passagem. Ela permite laicizar o poder. Ela permite, mais que
isso, afirmar que não existe lei sem Estado – e que a obrigação
de cumprir as quase vinte leis que Hobbes andou enunciando é da ordem da
prudência, não da ética ou da moral. Não há
moral antes do Estado, dizem eles, e para confirmá-lo eles se valem do
cap. 13 do mesmo livro, no qual Hobbes observa que não há bem nem
mal, justo nem injusto, se não houver um poder comum capaz de manter a
todos em respeito. Tudo parece razoavelmente consistente, a um leitor que não
exija muito. Porque
o problema é que essa citação está truncada! Hobbes
não termina o parágrafo – nem o capítulo – com ela, mas acrescenta
uma frase que, esta, quase nunca é citada pelos defensores da interpretação
que acabamos de mencionar: "No entanto, se considerarmos os mesmos teoremas
como transmitidos pela palavra de Deus, que tem direito de mando sobre todas as
coisas, nesse caso serão propriamente chamados leis". Como
entender estas últimas, e tão omitidas, palavras? Aliás,
há duas coisas a entender aqui. A primeira é por que tantos comentadores
simplesmente omitem uma expressão tão clara, tão forte ("serão
propriamente chamados leis"). Seria mais honesto citar o texto por inteiro,
e depois disso procurar explicá-lo – por exemplo, reduzindo o alcance da
conclusão. Mas por que nem mesmo a mencionar? Assim, a primeira dúvida
diz respeito aos comentadores, à fortuna crítica de Hobbes, ao modo
pelo qual se constituiu uma imagem dele que desconsidera sua religião.
Essa imagem chegou ao ponto de dizê-lo ateu, naquela que foi uma leitura
bastante corrente do século XVII ao XIX. Hoje, há talvez um eco
dessa leitura na idéia, razoavelmente difundida, de que a teoria da obrigação
hobbesiana afirmaria uma obrigação fraca, apenas prudente, não
ética. Deixo claro que respeito essa leitura. Em nossos dias, praticamente
se abandonou a tese – sempre feita, naqueles tempos, em termos acusatórios
– de que Hobbes não acreditaria em Deus. Mas manteve-se uma sua conclusão
prática, o corolário de que não haveria obrigação
forte na ausência do Estado. O
que Thamy Pogrebinschi faz, nas páginas que se seguem, é enfrentar
a sério este problema. Ela se recusa a omitir a frase final. Posso não
concordar com suas teses, mas devo reconhecer o seu duplo mérito: não
só o de haver estudado com atenção este ponto, como o de
ter formulado hipóteses para resolvê-lo. A autora recorda os estudos
de Taylor, Warrender e Hood – os três, pouco conhecidos entre nós
–, que formularam, com variantes, a idéia de que a obrigação
hobbesiana é forte, tendo teor ético e base religiosa. Discutirei,
aqui, a base religiosa. Não teria sentido eu tentar resumir o que o leitor
lerá, melhor, ao longo do livro, ou seja, tudo o que diz respeito à
obrigação ética. A
questão não é se Hobbes, indivíduo, acreditava ou
não em Deus ou na versão anglicana do cristianismo. O que importa
saber é o papel que ele atribui a Deus e à religião em sua
filosofia. Ora, já de começo se nota que um bom terço das
suas grandes obras políticas trata da religião. As leis de natureza
são, depois de provadas pelo uso da razão, confirmadas pelo recurso
às Escrituras. Mais importante que tudo isso, ele desenvolve, em toda a
terceira parte do Leviatã, uma interpretação bastante
interessante do cristianismo. E dedica a quarta parte a uma crítica em
regra da instituição religiosa, tal como a Igreja Católica
Romana a constituiu, enquanto aparato de poder que ameaça o soberano. Não
é pouca coisa, isso. Mas poucos leram ou lêem essas passagens. Costuma-se
partir de um pressuposto, o de que Hobbes contribui decisivamente para se ter
um soberano leigo, e por isso se omite tudo aquilo que possa – não digo
contrariar – pelo menos complicar essa imagem esquemática. E o fato
é que a teologia hobbesiana soa muito estranha. Nosso filósofo nega
que a alma seja imortal, por exemplo. Nega que ela exista separada do corpo. Diz
que ela é um sopro, e que se extingue quando morremos. Seremos todos ressuscitados
para o Juízo Final, e então os justos terão a vida eterna
(como dádiva de Deus, não como recompensa por eventuais boas ações),
enquanto os maus sofrerão uma segunda e definitiva morte. Não há
inferno, portanto, a não ser como o lugar – ou o tempo – desta última
morte dos condenados. E não há vida eterna de sofrimentos, só
de beatitude. Que Hobbes
não reconhecesse o purgatório não constituiria problema,
já que esse lugar intermediário entre céu e inferno só
existe para os católicos; os protestantes jamais acreditaram nele. O problema
está em ele suprimir o inferno como residência permanente no Além.
Além disso, Hobbes mantém uma polêmica bastante ácida
com o bispo de Derry, na Irlanda, o anglicano Bramhall, no correr da qual diz
ao prelado que não acredita no livre arbítrio; o poder de Deus é
tão grande que todos os nossos atos estão pré-determinados
por Ele desde sempre (pré-determinados, não predestinados, expressão
que não lembro nunca ter lido em Hobbes). Entre outras exclamações
de cólera, o bispo acusa-o de tirar a justiça do céu (porque
ninguém será salvo por merecimento próprio, mas apenas porque
Deus o escolheu) e – pior que isso, diz ele – de extinguir o inferno. Soa
estranha essa doutrina, mas nada nela é incompatível com o que sabemos
das teologias em disputa no século 17. Overton, por exemplo, líder
leveller, publicou durante a Guerra Civil Inglesa um interessante opúsculo
intitulado A mortalidade do homem, sustentando teses praticamente idênticas
às de Hobbes no tocante à alma. D. P. Walker escreveu, há
poucas décadas, um livro fascinante sobre o declínio do inferno
no século 17 inglês. Quanto ao livre arbítrio, ele estava
longe de ser consensual. O que acontecia era que as idéias mais assustadoras
os filósofos as guardavam para seus correspondentes mais chegados. Assim,
quanto a termos ou não livre arbítrio, em público Hobbes
responde a essa questão de maneira um tanto obscura, no começo do
capítulo 21 do Leviatã. Para os leigos, portanto, umas frases algo
vagas. Ele se abre, porém, no debate privado com Bramhall, para o qual
foi convidado por um amigo comum. Só assim se entende a raiva que Hobbes
sentirá quando o bispo mandar imprimir as cartas que trocaram. Hobbes pensava
que estavam discutindo entre pensadores, em sigilo, ambos conscientes dos perigos
que haveria em colocar matéria tão explosiva ao alcance de qualquer
um. Mas Bramhall sentiu que lidava com um homem perigoso, desses que as ditaduras
do século 20 chamariam de "subversivos", e considerou que era
seu dever divulgar-lhe as idéias, para expô-lo à execração
pública ou, talvez, a coisa pior, quem sabe, à execução
como herege. Essa
comédia de erros, cada um entendendo mal as intenções do
outro, não nos deve impedir de notar que Hobbes dizia coisas viáveis
para teólogos cristãos pouco dogmáticos. Pois é nesse
tempo que o espírito crítico que Lorenzo Valla, duzentos anos antes,
aplicara à Doação de Constantino desabrocha para a leitura
da Bíblia, e temos então Hobbes, Espinosa e o padre Richard Simon
estudando as Escrituras com o melhor instrumental teórico a seu alcance.
Daí se segue, no caso de nosso pensador, uma teologia sui generis,
que nos causa estranheza, hoje, mas que é plenamente consistente – como
procurei mostrar em Ao leitor sem medo. Se
a teologia hobbesiana merece ser levada a sério, como acredito ter provado,
por que não o papel de Deus em sua teoria política, tema deste livro
de Thamy Pogrebinschi? É claro que aqui haveria muito a discutir. Podem
alguns, por exemplo, argumentar que a comprovação das leis de natureza
pela referência a passagens bíblicas não passaria de um artifício
de Hobbes, para que fossem mais bem aceitas; mas, mesmo que assim fossem as coisas,
não dá para sustentar que a própria existência de Deus
e a validade atribuída à religião fossem uma burla dirigida
à censura (e isso por duas razões: primeira, que Hobbes não
muda as idéias a esse respeito sequer no período sem censura à
imprensa, que é o da guerra civil propriamente dita; segunda, que quem
passou por regimes ditatoriais sabe que esses muitas vezes suprimem a expressão
das idéias que as pessoas de fato têm, mas raramente ou quase nunca
as levam a dizer aquilo em que não acreditam). Mais que isso, Hobbes
afirma que um poder irresistível, como o de Deus, é o único
que pode baixar leis sem necessitar do consentimento dos súditos (veja-se
o final da segunda parte do Leviatã). Esta curta observação
é importante, porque permite contrastar Deus, que legisla sem precisar
de nós, com os soberanos deste mundo, que podem legislar sem nossa aprovação
a cada lei, mas cujo poder decorre de que em algum momento, imaginado pelo menos,
tenha sido aceito pelos súditos o seu princípio. Deus tem um papel
no sistema teórico hobbesiano. E não é casual ou pouco importante
que o soberano seja chamado de "Deus mortal", como, aliás, Thamy
analisará. Disse
que não concordo necessariamente com as leituras de Thamy Pogrebinschi.
E acrescento que eu concordar, ou não, importa relativamente pouco, porque
o decisivo não é que estejamos de acordo, mas que o trabalho tenha
qualidade – e isso ele tem. Um dos pontos de que discordo é que meu Hobbes,
se posso assim dizer, é mais leigo que o dela. Considero relevante – e
engraçado – o exame que o filósofo faz dos milagres e dos profetas
(estes últimos incluem as pessoas que falam coisas sem nexo, como os distraídos
e talvez os perturbados da cabeça). Na linha por sinal da maior parte dos
teólogos protestantes, ele afirma que não há mais milagres;
e dispensa a necessidade de profetas, já que a seu ver estes somente poderiam
confirmar o que já foi revelado, mas jamais revelar qualquer matéria
nova. Esse exemplo ilustra um processo de laicização do mundo, de
seu desencantamento, que parece diretamente saído de Max Weber. Também
não estou convencido de que a obrigação em Hobbes, que é
o principal tema deste inteligente livro, seja tão decisivamente ética.
Não tomei posição sobre o caráter central da obrigação
hobbesiana em meus livros, e ainda não tenho certezas a seu respeito. Mas
o importante é que nenhuma leitura da obrigação será
adequada se não levar em conta a frase inteira que termina o mencionado
capítulo 15 do Leviatã. A interpretação dela
como sendo apenas prudente me parece, portanto, exagerada – mas talvez tampouco
seja ela tão religiosa quanto quer nossa autora . Porém, como disse
acima, minha concordancia com o conteudo das ideias de Thamy Pogrebinschi importa
pouco. Seu livro é um bom arrazoado sobre um tema tão relevante
e pouco conhecido fora dos circuitos de especialistas. Ele traz um aporte importante
à ainda pequena bibliografia brasileira sobre Hobbes. E por isso tem de
ser lido e discutido. | | |