| | | | O Prefácio
a Noites Nômades - espaço e subjetividade nas culturas jovens
contem-porâneas, de Maria Isabel Mendes de Almeida e Katia Tracy. Rio
de Janeiro, editora Rocco, 2003. | | O
passarinho de Godard Dentre
as inúmeras mudanças que nossa sociedade conheceu nas últimas
décadas, uma das mais significativas talvez tenha sido a substituição
de um eixo vertical por um horizontal, nas mais variadas relações
humanas. Era vertical a compreensão da sociedade, hierarquizada; ora, ainda
que nossa sociedade continue tomada por poderes os mais diversos, e em alguns
países bastante sólidos, fortes, até prepotentes, o fato
é que eles perderam o peso que já tiveram. Em
outras palavras, cada vez mais o poder hierárquico se revela, não
bem poder, mas prepotência, não mais poder, mas força: cada
dia ele perde um pouco de sua legitimidade. E com isso os pobres, embora possam
continuar sendo pobres, não introjetam mais, como fizeram no passado, sua
subordinação. A sociedade – não a sociedade "real",
se é que ela existe, mas a sociedade tal como a concebemos em nossos sonhos,
em nossas ilusões, em nossos projetos – foi-se tornando horizontal. As
posições podem se trocar. Há sinais de distinção
social, sim, mas eles ficaram mais fracos. Há
uns anos, Marcelo Coelho comentava, espantado, um anúncio oferecendo fitas
para aprender inglês – mas não com o acento da elite britânica,
nem mesmo com o das classes dirigentes dos Estados Unidos, e sim com o dos negros
norte-americanos: tornava-se padrão o que antes era exceção,
norma o que fora desdenhado. A feijoada, emblema entre nós do prato dos
escravos anexado pela culinária dos senhores, era uma certa exceção;
parece que nas mais variadas culturas há comidas que se fazem com sobras,
e que portanto representam uma cozinha dos dominados, dos pobres, mas que a partir
de um certo momento se vê incrementada, refinada e apropriada pelos ricos
– a olla podrida, a bouillabaisse, e muitos mais; mas ainda assim
a maior parte dos produtos requintados vem (ou, o que é mais importante,
acreditamos que venha) dos de cima, não dos de baixo. Ora, esse
quadro mudou; a norma fraca parece tornar-se forte: cada vez mais, os ricos vão
a bailes funk; até um valor que sempre representou a distinção
cultural e sobretudo social – a fala culta – perde muito de sua importância. O
que tem isso a ver com o livro que Maria Isabel Mendes de Almeida e Kátia
Maria de Almeida Tracy nos oferecem? É que a verticalidade proíbe
o nomadismo – ou, melhor dizendo, é que o nômade contesta as hierarquias.
Tem-se observado, mais e mais, que no meio do que existe de mais urbano desponta
algo que parecia, desde muito tempo, liquidado – o que lembra um filme de Godard,
dos anos 1980, em que se comentava a crescente implantação de um
passarinho nas metrópoles, uma avezinha que sempre vivera no campo (como
sói acontecer) mas que, década após década, meticulosamente,
ao longo do século XX foi ocupando as urbes européias, uma a uma.
O nomadismo em cidades enormes faz lembrar o passarinho de Godard – e por várias
razões. A primeira
delas é que não cabe mais pensar na história, nem pensar
a história, como um fio contínuo, sem retorno. Todas as lógicas
que desde o século XVIII o pensamento social constituiu, para tornar a
história uma disciplina científica, supuseram que ela tivesse um
fio condutor. E geralmente, a esse fio, deram-se nomes de sabor positivista, variações
em torno das idéias de progresso e de razão. Ora, tudo isso faliu.
Que numa grande cidade se restaure o que é mais velho que o sedentarismo
agrícola – que, nela, renasça o nomadismo – é apenas um sinal
a mais de que os fios condutores deixaram de nos conduzir. Em vez do fio de Ariadne,
talvez se mostre mais criativo o emaranhado. A
segunda é que também as categorias sobre as quais se forjaram as
ciências sociais se tornaram duvidosas. Uma oposição básica,
de teor weberiano, recortou – igualmente usando várias denominações
– o emocional e o racional: e mais uma vez, aqui, o nomadismo soou arcaico. O
nomadismo podia ser tentador: ao longo de todo o último período
colonialista – aquele que começou depois da independência da América
Latina, com a exploração intensa da África e da Ásia
– foram muitos os europeus que se deixaram fascinar pelo deserto e por seus migrantes,
Lawrence se tornando da Arábia, oficiais franceses sonhando com o Saara,
gente branquela deslumbrada por tuaregues. Mas esse fascínio soava como
um último grito diante de culturas moribundas, como uma compensação
tardia por uma morte anunciada. O que surpreende, e constitui novidade,é
que o nomadismo saia da agonia para reviver, que deixe de constituir exceção
para se tornar praxe – ou melhor, talvez se possa dizer: o que surpreende é
que a exceção se torne práxis. E
a terceira razão, ou conseqüência, é que tenha falido
uma grande referência vertical, a do pai freudiano. Um dos maiores pensadores
do século XX, Freud foi capaz de mostrar conflito na relação
pai-filho, que antes era entendida como devendo ser de amor puro e desinteressado;
ele assim deu o remate a um processo que principiou talvez com Maquiavel, exigindo
que entendêssemos as coisas como são, e não como deveriam
ser. Esse, o grande feito de Freud. Foi muito emancipador que não precisássemos
mais esconder nossos maus sentimentos. Mas, nas últimas décadas,
o que têm procurado os melhores psicanalistas se não libertar as
descobertas freudianas (a começar pelo inconsciente) da hipoteca vitoriana,
do pai autoritário, da família nuclear? E isso porque essas figuras
cada vez significam menos, em nossa sociedade. As autoras terminam o capítulo
V lembrando, na esteira de Guy Debord, que "os homens se parecem mais com
seus tempos que com seus pais", mas nem sempre foi assim; nem sempre foi
tão assim quanto hoje em dia; porque cada vez mais as relações
– horizontais – com os pares e com os tempos atuais prevalecem sobre as ligações
– verticais – com as origens, com os antecedentes, com o pai, a mãe e a
história. Viver
isto não é fácil, e entendo que traga desconforto a muitos
e desesperança a alguns. Como Maria Isabel e Kátia lidaram, entre
outras coisas, com a Internet, também recorrerei a um exemplo dela. Quase
todo mês recebo algum e-mail, dirigido coletivamente, criticando os tempos
atuais. Um deles, curiosa coincidência, que li pela mesma data em que recebi
estes originais, se intitulava "Tipo assim", que é exatamente
o nome de um subtítulo do presente livro. E tratava, também, dos
jovens do Rio de Janeiro e de sua linguagem, digamos, tipo assim. Mas esse
e-mail e os outros de que falo apontam sempre, na juventude ou nos tempos atuais,
uma carência ou declínio, se comparados a épocas que teriam
sido melhores. Ou é porque nos programas de televisão há
neurônios de menos e hormônios de mais, ou é porque os mais
moços já nem sabem o que é máquina de escrever ou
disco vinil, ou é que surge violência em excesso, ou ainda sexo em
exagero e sem amor, ou... Podem até, esses meus conhecidos (ou, mais freqüentemente,
desconhecidos) de meia idade, ter razão na crítica que fazem1.
De todo modo, é curioso que pela Internet não passeie só
o nomadismo, mas também circule o medo aos tempos presentes, a nostalgia
de um passado mitificado, a sêde do sedentarismo, da cadeira, talvez da
cátedra. É curioso que um meio tão nômade, porque corta
as origens e nos emancipa das raízes, também sirva para proclamar
a necessidade ou o desejo de regras. Mas vá lá; que a forma contrarie
o conteúdo, que a mídia conteste o discurso, ocorre. O
problema, mesmo, é que esses e-mails condenam rápido demais. Algumas
de suas críticas, aliás, logo se revelam simplesmente erradas: foi
o caso, há poucos anos, de uma telenovela que começava com muitas
mortes e por isso foi acusada de banalizar o mal – até que se percebeu
que o autor dela pretendia, justamente, criticar a violência em nossa
sociedade. A questão é, na verdade, dupla. Primeiro, surge uma espécie
de condenação ou indignação automática, quase
um kit que se aciona imediatamente. Censurar o que se faz hoje se torna então
uma reação quase behaviorista de defesa de uma geração
mais velha diante do novo. Formalmente, não há maior diferença
entre essa condenação das novidades e as que as gerações
anteriores fizeram; a diferença, claro, está nas justificativas,
porque antes se criticava o novo em nome do conservadorismo religioso e moral,
e hoje isso se faz em nome da cultura, do marxismo ou mesmo da escola de Frankfurt.
A diferença não é desprezível, mas a semelhança
tampouco deve ser ignorada. E com isso, segundo ponto, se desconhece o que realmente
está acontecendo, aqui e agora. Podemos ser severos com os tempos presentes,
ou com quaisquer outros, mas devemos pelo menos entendê-los. E
é esse, para terminar, o mérito deste livro. Tratando de fenômenos
cuja compreensão não é fácil – e que é dificultada,
em vez de ser facilitada, por sua extrema visibilidade, por sua ressonância
quase on line na mídia – as autoras em nenhum momento vestem a capa
moralista. Seria muito fácil descrever tudo o que mostram, do ficar a uma
nova versão da língua portuguesa, mediante os dispositivos da carência:
os jovens não amam, não conferem duração
a seus namoros, não constroem frases com sujeito e predicado; seria
fácil, mas não permitiria entender este mundo que elas apresentam
e analisam. Não há conhecimento sem uma certa neutralidade axiológica,
sem uma certa suspensão dos valores e em especial dos preconceitos. Um
novo mundo está diante de nós, e não sabemos em que dará;
lembro que Foucault dizia, quando Deleuze lançou, com Guattari, o Anti-Édipo,
que esse livro se destinava a quem na época era criança. Uma nova
sensibilidade surgia no horizonte, perceberam os dois autores e esse leitor. É
dessa sensibilidade em mudança que o presente livro trata. Sete
Praias, fevereiro de 2003. NOTA 1
O engraçado é que alguns desses e-mails são assinados por
identidades fictícias. Recebi um deles, condenando a banalização
do sexo na TV, que era assinado por um professor da USP. Procurei por ele no site
da Universidade, e não existia. Não se trata, aqui, de voltar
o dispositivo moralista contra alguém que o utilizou, de desqualificar
um discurso porque seria mentiroso: mas de mostrar que mesmo o crítico
das máscaras ou da inverdade enverga um disfarce. | | |