| | | | O Prefácio
a Sade – a Felicidade Libertina, de Eliane Robert Moraes, Rio de Janeiro:
Imago, 1994. | | Prefácio Estudando
uma obra complexa como a de Sade, o especialista pode ver-se tentado a encontrar
seu sentido, sua coerência. Não é o que faz Eliane Robert
Moraes nesse livro, e este me parece ser o seu grande mérito. Se ela buscasse
pôr ordem numa produção tão vasta e por vezes desencontrada,
na qual fica difícil conhecer qual a parte da obra, qual o quinhão
da vida, certamente acabaria perdendo o sabor do caos com que Sade acolhe seu
leitor: a desordem é, nele, importante. Algo de bastante fundamental na
literatura e na arte começa a acontecer em seu tempo, que podemos resumir
em duas características. Primeira, a vida, que antes se apagava e desfazia
ante a obra, vai-se tornando quase tão relevante quanto esta, em artistas
que certamente, como hoje, não passam de uma minoria, mas mesmo assim significativa.
Faz parte, portanto, da obra sadiana a sua vida irrequieta, à beira do
crime e da reclusão - como fazem parte da biografia de Sade seus livros;
mais tarde, também será impossível falar de Gauguin sem a
ruptura que ele efetua com o mundo bem-pensante e sua partida para Taiti, ou de
Van Gogh sem a orelha cortada e o suicídio, ou de Toulouse-Lautrec sem
o aleijão. Tudo isso podem ser anedotas, mas elas assumem uma importância
de que não temos paralelo nos autores da era chamada clássica, ou
talvez barroca; corrigindo: até o século XVIII a biografia pode
em certos casos ser importante para conhecer o autor, mas ela é apenas
explicativa (como no caso do jansenismo de Pascal e Racine), ao passo que em autores
mais recentes ela adquire uma densidade quase comparável à da obra.
Ou, melhor dizendo: ela é inquietante como a obra. E esta é, seguramente,
a segunda característica que descortinamos desde Sade. A presença
da vida na obra, e por vezes da obra na vida, não é de ordem neutra.
Não se limita a esclarecer, a sanar pontos obscuros. Ao contrário,
amplia até a desmedida o obscuro, o perturbador. Traz o espectro da loucura
ou, pelo menos, o dos limites fraturados da razão. É o caso dos
pintores que mencionei, como também o de Nietzsche ou o dos grandes teatrólogos
escandinavos de fins do século XIX. Em suma, a vida entra em cena na obra
como um elemento quase destruidor, que aparece para trazer a guerra e não
a paz, para embaralhar e não para ordenar. Se
estas observações valem para a grande novidade que Sade nos proporciona
- talvez o primeiro grande escritor de ficção a instaurar relações
assim novas entre seus escritos e seu vivido - , compreende-se que não
seja muito adequado lê-lo no intento de dar-lhe sistema. Uma tal tática
terá sua utilidade, mas receio que jamais alcance o vigor de uma estratégia;
que jamais consiga dar conta do que, nesse autor, é essencial. E por isso
considerei muito feliz - enquanto acompanhava, como orientador, ou deveria dizer,
como leitor, o belo mestrado em Filosofia que resultou neste livro - ela tomar
o partido de recusar a leitura totalizante ou sistemática, para enfrentar
a vasta obra sadiana quase como uma guerrilheira, elegendo cinco temas fundamentais
- duas atividades e três lugares - e retraçando o que neles é
essencial. O leitor
logo verá o percurso de Eliane: principiando pela viagem (a saída
de si, percurso horizontal), ela passa por uma construção que é
clausura (o castelo), para assim revelar que tudo é rito, é cerimônia
construída - que a própria viagem e sua estase, o castelo, são
cenário. Daí que o capítulo sobre o teatro se situe a meio
caminho, como que dando uma chave para o tema. E a partir daí pode Eliane
montar as duas grandes encenações do discurso, os dois lugares em
que se teatraliza o logos filosófico: primeiro, o banquete, ocasião
em que a boca recebe alimento e exala palavras; segundo, o "boudoir", como o castelo
um local, porém íntimo, fechado, e que é o lar da filosofia.
Nestes dois lugares discursivos, o principal tema das falas é o prazer,
o da mesa, o da cama. De um trajeto no qual recorreu à análise literária,
à história das idéias e até à antropologia,
Eliane pode assim culminar em alguns grandes temas filosóficos, os da ética
(o Mal), da estética (a construção da obra de arte), da política
(os despotismos em que se associam paixão e poder) e do conhecimento (qual
é o papel do filósofo). Talvez
o que mais convenha salientar aqui, porém, são alguns pressupostos
que Eliane utilizou para propor esta leitura, cuidadosa e cativante. Mais que
pressupostos, trata-se talvez de opções bem conscientes. Primeiro,
uma extrema atenção à imagem, à materialidade do significante.
É uma perspectiva que podemos dizer oposta à da transcendência.
Um autor como Sade, tão peremptório em seu materialismo, provoca
alguns de seus leitores, os de vocação mais espiritual, a procurar
descobrir o que está por trás das imagens, como se ele estivesse,
em sua blasfêmia mesma, tentando balbuciar uma carência do espírito.
Pois a leitura que Eliane efetua é, já por seu modo mesmo, antagônica
a essa. O que ela ressalta num banquete, por exemplo, são os alimentos,
numerosos, bons, sensuais. O próprio significado que eles tenham se deve
buscar, antes de mais nada, neles enquanto significantes. Não se salta
a matéria, não se passa impunemente por ela. Segundo
ponto, uma grande atenção ao elemento cênico. Não apenas
porque Eliane, num capítulo, que já afirmei nevrálgico, tratará
do teatro em Sade: mas porque a própria base de sua leitura está
numa idéia de cenários em movimento. Tudo o que ela afirma das imagens
em Sade se sustenta em sua teatralização, conceito, por sinal, admiravelmente
apropriado às formas sociais do Antigo Regime. Podemos resumir a teatralização
em dois elementos. O primeiro é que, se não se chega a proclamar
um primado do significante sobre o significado, seguramente se exclui qualquer
apagamento daquele em favor de uma suposta soberania deste segundo. Melhor dizendo:
a atenção ao teatral exige igual atenção às
formas. Para se usar uma distinção velha e imprecisa, mas ainda
assim útil, elas são fundamentais para se conhecer o conteúdo.
Já o segundo
traço da teatralização reside no movimento que ela imprime
às formas. Com efeito, não se trata apenas de formas, mas de cenários
ou entrechos: e o fato de estarmos diante de um movimento indica muito bem o caráter
produtor, ou produtivo, que é essencial à teatralização.
Dizendo de outro modo, a teatralização é tudo menos uma falsidade,
e é muito mais que um entretenimento. Trata-se de um procedimento no qual
extrema atenção se dá ao engate entre forma e conteúdo,
significante e significado, operação e espírito. Ora, é
justamente esse ponto de encontro - esse ponto de produção - que
permite a Eliane mostrar como um mundo, o sadiano, se produz nestas cinco formas
que analisa. Tomemos
então uma destas formas, a que abre o livro: a da viagem. Eliane parte
de Sade para pensar a própria história, o tempo mesmo no qual o
autor escreve - e não o contrário. Isto ela faz, antes de mais nada,
testando em todas as direções o acontecimento viagem. As riquezas
do significante se vão, assim, explicitando, e se iluminam umas às
outras. Por exemplo: a viagem é mobilidade, definição quase
acaciana, quase uma tautologia; mas disto se pode implicar que seja, também,
descoberta. Ela se faz, para os franceses do século XVIII, sobretudo no
rumo da Itália. E se reveste de especial sentido para Sade, uma vez ele
preso. Aqui temos, pois, uma definição (abordagem filosófica),
uma recordação dos itinerários (ponto de vista histórico),
uma contraposição entre o autor preso e suas personagens itinerantes
(viés biográfico). Torna-se possível agora, a Eliane ou a
seus leitores, continuar testando essas diferenças e seus confrontos. O
viés biográfico é o da compensação: quanto
mais preso na realidade está o nosso autor, mais solto se lança
no imaginário. O ponto de vista histórico é o do contexto:
a obra se ilumina estudando-se seu entorno como um elemento que concorre para
explicá-la. Já a abordagem filosófica parte de uma tautologia:
viagem é movimento, portanto, na boa tradição do pensamento
europeu, como Eliane recorda em alusão aos portugueses da Renascença,
a vida consiste em viajar. O
essencial, todavia, está em fazer funcionarem esses - e outros - registros:
em exceder, assim, os seus limites. Caso se contentasse com apenas um deles, a
obra de Eliane padeceria de suas limitações: ficaria presa, por
exemplo, a uma duvidosa relação da vida com a obra segundo o esquema
da compensação ficcional das frustrações vividas,
ou a uma explicação algo contestável do texto por seu entorno,
ou contexto. A multiplicação dos pontos de vista praticada por Eliane
deve então ser entendida como um modo de exceder essas limitações
- não pelo recurso a uma simples justaposição de procedimentos
nos quais um equilibrasse as deficiências do outro, ou a um excesso barroco
de quantidades que sonhassem efetuar um salto qualitativo; mas valendo-se de um
olhar que, por ser o do prisma, procura dissolver a unidade do objeto, trabalhando-o
em suas várias e mesmo antagônicas potencialidades. Ainda
assim, do conjunto extraem-se resultados: não nos perdemos na dispersão.
O recurso ao prisma é meio, não fim, deste livro. Por isso, termino
salientando duas conclusões que aprecio particularmente no trabalho de
Eliane. A primeira consiste no percurso iniciático. Aqui, a autora faz
excelente uso da intersecção entre a antropologia e as religiões
para, jogando com idéias correlatas aos ritos de passagem e de iniciação,
trabalhar em vários níveis a noção de uma mudança.
A obra de Sade multiplica pontes, abismos, claustros, ilhas - lugares quer de
passagem, quer de encerramento, mas que portam, todos, o sentido de uma transformação
em curso, figurada pela translação espacial, e com frequência
também o sentido de uma concentração que adensa as experiências
novas reveladas no texto. Mas, ao mesmo tempo que na própria obra lemos
esses trajetos, sucede também em nós, leitores, alguma sorte de
passagem, de iniciação. O texto de Sade, apresentado por Eliane
na boa, ainda que recente, tradição de um século que deu
ao marquês uma popularidade e simpatia antes desconhecidas, não mais
se arrasta na repetição ou monotonia de que tanto foi acusado: torna-se
o veículo de uma novidade, de uma revelação leiga. Aqui,
a segunda conclusão. Apostando no materialismo de Sade, Eliane Robert Moraes
pode então libertá-lo da imagem assustadora que dele construíram
os séculos XVIII e XIX. Não, é certo, para compor um marquês
bem-pensante, por exemplo, o apóstolo precoce e incompreendido da liberdade
sexual. Negar-lhe a identificação com o Mal não significa
reduzi-lo a um casto e quem sabe castrado anjo de presépio. Mas era preciso
afastar os preconceitos, sair do plano do bem e do mal, para apreender o vigor
sensual de uma obra como a de Sade. Dizendo de outro modo, é a perspectiva
resolutamente materialista de Eliane que abre caminho para uma leitura que fará
mais justiça ao erotismo sadiano do que as leituras assustadas do passado.
Para a ficção do marquês expor toda a sua sensualidade, era
pois necessário esposar os ritmos de seu pensamento; sem o materialismo,
que é de sua filosofia, não será legível o erotismo,
que é de sua fantasia. Um repertório de alguns temas seletos assim
se mostra especialmente rico para se ingressar no pensamento e na ficção
de Sade. E, para terminar numa nota pessoal, minha impressão de leitor
que teve o privilégio de acompanhar a escrita deste livro: raras vezes,
acredito, o prazer que se tem em ler deverá tanto ao prazer que teve a
autora em escrever. Sete
Praias, março de 1994. | | |