| | | | O Prefácio
a A cidade e as cenas- A crítica de Rousseau ao teatro, de Cláudio
Boeira Garcia, Ijuí: Editora da UNIJUI, 1999. | | Prefácio A
principal qualidade desta tese, que ora se converte em livro, está numa
distinção que pode parecer simples, mas é extraordinariamente
eficaz na leitura de Rousseau. Cláudio Boeira Garcia distingue, criteriosamente,
desigualdade e diferença. Toda a obra de Rousseau tem, como um de seus
fios condutores, a crítica à desigualdade. Quando o filósofo
esposa a causa dos simples, dos inocentes, daqueles que se colocam num grau zero
da cultura e da civilização (e é esse grau zero que ele chama
de "natureza" e ao qual atribui algo que oscila entre uma panacéia para
resolver todos os males de que sofremos e um metro para compreendê-los —
em seus momentos, digamos, otimistas, acreditando que dê para curar o homem
de seu mal, embora com maior freqüência considere que tudo o que podemos
é minorar-lhe a infelicidade), repito, quando o filósofo se põe
na resoluta defesa da natureza contra a desnaturação, do grau (e
do grau zero) contra a degradação, o que ele faz é criticar
a desigualdade. Talvez nenhum filósofo, salvo Tomás Morus, se tenha
empenhado tanto, antes de Rousseau, em censurar os danos que produz a desigualdade. Mas
a crítica à desigualdade jamais se efetua em nome de um padrão
único, de uma norma a clonar os seres. Ao contrário: se Rousseau
não mede sua condenação à desigualdade, tampouco regateia
a simpatia pela diferença. A desigualdade está presa à
propriedade privada, ao engano, à exploração do homem pelo
homem, que sempre procede de uma esperteza inicial, de uma deslealdade (o primeiro
espertalhão que disse isto é meu e encontrou gente simples
o bastante para dar-lhe crédito..., como está dito no Discurso
sobre a desigualdade). Já a diferença significa o espaço
próprio de cada um, a identidade não achatada, a recusa de um mundo
degradado pela propriedade e pela aparência. Assim, como se vê, a
busca do grau ou, como acima dizia, de um grau zero, de modo algum significa uma
padronização, uma estandardização dos humanos em geral.
O grau zero, ou seja, a destituição de tudo o que é factício,
constitui justamente a possibilidade de aproximar cada um do que é, de
por isso mesmo acentuar a diferença. Por isso exalta nosso filósofo
as diferenças nacionais, e mostra enorme prazer em redigir projetos para
esse fim do mundo que é a Córsega disputada pelos franceses, ou
a Polônia retalhada pela cobiça das potências da Europa Oriental:
os menores, os perseguidos despertam sua simpatia. E é essa a diferença
que conta. Talvez
isto nos permita divagar um pouco sobre a atualidade de Rousseau. Sabemos que
o estudo dos filósofos requer, sempre, especial atenção ao
que eles efetivamente disseram, e que projetar neles nossas idéias, teimas
e tiques não é a melhor maneira de nos expormos ao que, por parte
deles, possa causar-nos impacto, àquilo que nos haverá de revolucionar.
Mas, feita esta importante ressalva, notamos que certos pensadores se revestem
de surpreendente atualidade: entre eles, Rousseau. A crítica que ele efetua
à cultura e à civilização pode muitas vezes servir,
com modestas mudanças, a um discurso de nossos dias preocupado com a indústria
cultural, ou com a estandardização das condutas, ou com o controle
das consciências e dos corações. E é neste ponto que,
criticando as cidades enquanto palco, pela representação deformadora
que nelas se dá, Rousseau elabora uma defesa da diferença como arma
política. A diferença não é mera porta de entrada
para um quadro, meio cartesiano, do mundo, de algum theatrum mundi que
permitiria expor uma taxinomia do social e do político. Ela não
se apresenta como neutra. Não há quadro neutro das diferenças.
Defender a diferença é negar toda e qualquer neutralidade. É
tomar partido. E o partido que as diferenças apontam é o dos de
baixo, dos oprimidos — não por acaso, corsos e polacos, selvagens e inocentes.
Finalmente,
é difícil tratar deste trabalho sem falar em seu autor, e difícil
já porque — ao se comentar Rousseau — não é fácil,
nem desejável, esquivar um tom pessoal. Cláudio não se limitou
a colocar o melhor de si neste trabalho, vivendo-o, entusiasmando-se, sofrendo
também por ele; eu diria mais: Cláudio, compositor, músico,
cantor, deve ter visto nessa apologia da diferença contra a desigualdade
uma preocupação aparentada com a sua, desde, pelo menos, o tempo
em que foi um dos Tapes, do conjunto musical que tanto realizou por uma cultura
de resistência à ditadura, no Rio Grande do Sul dos anos 70. Afirmar
a diferença tem tudo a ver com proclamar o lugar que é o da cultura.
A diferença, entre os oprimidos, depende essencialmente de se afirmar sua
cultura. Isto significa, por sua vez, duas coisas: por um lado, recuperar e destacar
o que é cultura própria, desde hábitos até canções;
por outro, enunciar o desejo e o direito de se aprimorar conhecendo o que não
recebemos como nosso, aprendendo longe de nós o que pode expandir nossa
consciência, nossa identidade. A primeira destas coisas tem muito a ver
com Rousseau. A segunda, se não é do filósofo de Genebra,
é muito de Cláudio, por sua abertura ao diálogo, sua disposição
de escutar. Ninguém fala — ou canta bem — se não souber ouvir. E
afirmar a diferença não é confinar-se: é expandir-se,
é fazer seu o mundo. Sete
Praias, novembro de 1998. | | |