| | | | | | Nova
York, o metrô e a psicanálise Veja-se
Manhattan. Toda a parte propriamente moderna da ilha está quadriculada
por ruas, que a recortam no sentido leste-oeste, e avenidas, que a percorrem de
sul a norte. Ruas e avenidas são numeradas, estas em números ordinais,
aquelas em cardinais. Contudo, a parte mais antiga, no sul da ilha, marcando a
ocupação inicial da mesma – que terminava na Rua da Paliçada
ou, na língua dos nativos atuais, Wall Street –, não segue essa
divisão quadriculada. O antigo assim escapa ao empreendimento de pôr
ordem no mundo, característico dos Estados Unidos, em que é predominante
ruas e avenidas se numerarem, serem retas e perpendiculares. É até
curioso que esse antigo espaço irregular sirva hoje de sede ao capital,
à especulação, como se quisesse, por um lado, contrastar
com a ordem que impõem os senhores financeiros do mundo, por outro, ilustrar
metaforicamente a desordem, o caos dos negócios. Vamos
a outro ponto. Se
quisermos percorrer Nova York, que é como os não-residentes chamam
essa comprida Manhattan, iremos de ônibus, que seguem itinerários
simplicíssimos (ao longo das avenidas num eixo vertical, ou cortando a
ilha horizontalmente nas ruas mais largas), de imediata e fácil decifração
– ou de metrô. E aqui está o problema: embora haja uma lógica
nos itinerários das linhas de metrô, esta é bastante misteriosa.
Umas linhas têm por nome letras, outras, números; a mesma linha inclui
trens expressos e locais, e estes podem alternar conforme as horas; em suma: ao
contrário do metrô de Paris, e dos de quase todos os lugares do mundo,
cuja lógica rapidamente se compreende, escancarando-se no mapa, em Manhattan
raras pessoas explicarão a você a lógica geral do funcionamento
dos transportes subterrâneos. O que lhe poderão dizer, e dirão,
é apenas que linhas e itinerários você deve tomar para chegar
a um lugar que elas freqüentam. Disso,
poderíamos retirar uma lição interessante sobre como o capitalismo,
em sua sede máxima, funciona confinando cada um em seu trajeto individual,
barrando-lhe o acesso – mesmo apenas mental (apenas? o mental pode ser apenas?)
– a outros trajetos, aos caminhos e vias dos outros, que é o que poderíamos
chamar de lógica de funcionamento geral do sistema, ou, se quisermos retomar
a grandiloqüência do fim da Idade Média, de "máquina
do mundo". Mas este
ponto não me contenta como explicação, embora o ache correto.
Há que acrescentar outro elemento: o metrô percorre os subsolos da
cidade. O metrô, lá onde ele mais passageiros pega, lá onde
ele mais circula, lá onde ele concentra sua necessidade, está debaixo
da terra. Seu lugar é o ínfero, o inferno dos gregos, ou o que desde
Freud chamamos ora de inconsciente, ora de id. Se o ego nova-iorquino está
nas ruas e avenidas modernas, que quadriculam a cidade como um planejamento bem
feito para quem está na superfície das coisas, o seu id está
num metrô que funciona, sim, que está mais limpo que antigamente,
que recuperou o policiamento, mas cujos trajetos não exibem a mesma luminosidade,
a mesma evidência da luz do sol, e, sobretudo, cujas conexões e horários
se demora a compreender, e é quase impossível – ou pelo menos raríssimo
– entender no seu conjunto. | | |