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Este
texto originalmente uma palestra na reunião da Associação
Nacional de Pós-Graduação em Filosofia, de 2002 está
na íntegra em A Universidade e a Vida Atual - Fellini não via
filmes (Rio de Janeiro: Campus, 2003). Para comprar este livro clique
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| | Erros
e desafios da Filosofia no Brasil, hoje Para
tratar do tema que me propus aqui, posso começar pela conversa que tive
com meus alunos há poucos dias, ao terminar o primeiro semestre de 2002,
atrasado na USP devido à greve dos alunos de nossa Faculdade. Disse-lhes
minha estranheza: nos primeiros quinze anos em que lecionei no curso de Filosofia
da USP, isto é, de 1976 até 1990, mais ou menos, em cada classe
eu sempre tive pelo menos um ou dois alunos excepcionais, que me entregavam trabalhos
criativos nas idéias e até na forma. Recordo Eliane Robert Moraes,
que depois fez mestrado e doutorado comigo e é uma crítica respeitada,
e Sonia Salzstein, hoje reconhecida na área de artes plásticas.
Outra aluna, Eliana Gidra, certa vez me entregou uma redação de
fim de curso tratava-se de Ética e Filosofia Política, notem bem
meditada em torno de Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll.
Uma das páginas de sua redação, cada uma das quais constituía
um pequeno capítulo, se construía como o rabo, em ziguezague, do
coelho. Pois de dez ou mais anos para cá não recebo nenhum trabalho
assim, e me recuso a acreditar que os atuais alunos sejam piores. Têm até
mais informação. Provavelmente, o que acontece é que se impôs
um molde de leitura filosófica que os dissuade de qualquer aventura própria,
de qualquer viagem intelectual. A questão é saber quanto custa esse
molde, e se vale a pena. Ou
poderia começar pelo programa desta reunião, a décima da
Anpof1.
Vejo inúmeros grupos de trabalho, discutindo geralmente questões
bem específicas; há apenas quatro atividades plenárias, todas
elas mesas redondas. Dessas, duas tratam do dinheiro para a pesquisa, e duas homenageiam
colegas mortos, meu amigo Gerd Bornheim e o padre Vaz. Com todo o respeito a esses
dois pensadores, parece que só nos reunimos, e isso num congresso
de filosofia (isto é, num espaço e tempo cuja essência deveria
consistir no estar-juntos, na associação, ainda que efêmera,
ainda que sobretudo efêmera), para falar do dinheiro ou da morte,
do lucro ou do luto. Talvez se trate de duas formas de morte, de dois modos de
nos recusarmos a pensar as questões que hoje se colocam para a filosofia,
no Brasil. O nosso estar-juntos, a nossa ágora, a nossa associação
para usar de termos que estão no centro de pelo menos um dos setores
da filosofia, a filosofia política ficam assim limitados. Não
é, só, que não sejam debatidos: é que nem mesmo
ocorrem. Não é que não sejam discutidos: é que
não se discute. O que falta não é o objeto direto, o que
se discute, é o próprio verbo, discutir. Quer
dizer que nada mais temos a discutir, para o futuro, se não o dinheiro?
E, fora o dinheiro, tudo o de que podemos falar em conjunto é para evocar
o passado perdido, prantear alguns mestres? Criar, portanto, orfandades que nem
sequer respondem a antigas filiações, as quais podem nunca ter existido?
Será que em nossa prática associativa o futuro é só
dinheiro, é só interesse, é política só no
sentido mais pobre e a filosofia, como aqui a praticamos, é só
o luto, só aquilo que já foi feito, em suma, só história
da filosofia, mas história no sentido infecundo, no sentido mais sofrido,
o daquilo cujo valor só apreciamos após a morte, de um luto inconsciente
e nunca terminado? Esta
é a questão: tudo isso parece constituir um enorme desperdício
gente bem formada, talvez com a melhor formação acadêmica
em humanas do Brasil, pelo menos em termos de rigor, mas que disso extrai menos
do que poderia, em termos de efetiva discussão, de real originalidade das
idéias. Aliás, um problema que tenho visto na área de filosofia,
no Brasil, é esse: debatemos mais autores do que idéias. Estas últimas,
quando chegam a ser discutidas, o são com referência a alguns nomes.
É como se fosse uma dependência, uma adicção: as idéias
estariam não, a abordagem que aqui se faz das idéias estaria
viciada em nomes próprios, mortos, distantes de nós. Não
haveria idéias sem nomes próprios. O nome próprio passa a
ser proprietário das idéias. Não haveria nomes comuns sem
nomes próprios. Comum, aqui, não designa apenas o vulgar, o que
é menos do que o próprio: designa o coletivo, o que nos une,
o que é comum a nós, o que poderia em certos casos ser mais que
o próprio. Podemos
até falar horas a fio sobre a importância do social e até
do socialismo: mera digressão. Pois, em nossa prática, pouco lugar
damos ao que é, ao que nos é, comum. Não temos um espaço
livre e público em que as idéias migrem soltas, para desenhar novas
configurações; ficam enclausuradas, presas. Isso inibe o pensamento
filosófico entre nós. NOTAS 1
Este texto procura manter a oralidade do original, que foi uma palestra na reunião
da Associação Nacional de Pós-Graduação em
Filosofia (Anpof), em S. Paulo, em fins de setembro de 2002. 
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