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O
artigo aqui parcialmente reproduzido faz parte do livro A Universidade e a
Vida Atual - Fellini não via filmes (Rio de Janeiro: Campus, 2003),
e já saiu, em versão levemente distinta, na revista Avaliação,
de Campinas, número 4 (14), p. 5-16, 1999, publicada pelo prof. Helgio
Trindade. Para comprar este livro clique
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As
Humanas e sua aplicação prática: proposta
para uma nova leitura da política científica e do desen-volvimento
(1997) 1 Para
a discussão do papel que possam ter, no rumo do desenvolvimento econômico
e social, as ciências e tecnologias (ou, simplificando, a C&T), é
preciso lembrar que uma sociedade não é só o negativo do
Estado; que, por isso mesmo, sociedade não é mercado. Nada temos
contra ele, mas o tecido social – em especial ali onde ele se esgarça,
em sinal de vida – inclui movimentos sociais, descontentamentos, ira, entusiasmo,
animação. Como entender o papel do conhecimento acadêmico
de melhor qualidade, sem ter em mente uma sociedade na qual as pessoas não
sejam apenas mercado mas, também e sobretudo, público? Esta,
a nossa questão. E seu objetivo principal será, considerando a diferença
entre as ciências humanas e as outras ciências, discutir qual a aplicação
prática dos saberes que lidam com o ser humano. 6 É
evidente que há um equívoco quando se confunde o mercado com a sociedade,
porque, nesta última, além do mercado há os movimentos sociais,
enquanto atores, e mesmo enquanto bens há certos bens públicos dos
quais já Adam Smith dizia que o mercado não se encarregaria, por
si só, de fornecer. Essa confusão entre sociedade e mercado acaba
reduzindo toda uma teoria política, invocada para proclamar a necessidade
da prestação de contas da pesquisa à sociedade que a financia,
a uma mera justificação para que o capital se aproprie de bens que
foram pagos, sim, pela sociedade como um todo, e portanto, mais pelo trabalho
do que pelo capital. Esta
é uma crítica política a essa posição.
Mas não basta: devemos também efetuar uma crítica filosófica
a seus conceitos, afirmando que temos aqui a aplicação de critérios
da tecnologia "tradicional" (aquela que parte da separação
sujeito/objeto e opera sobre a matéria não-humana1)
à ciência como um todo. Esses critérios são os que
fazem o previsível resultado prático da pesquisa determiná-la,
e o possível aplicador dela na prática – um agente no mercado –
compartilhar sua decisão. Isso é equivocado do ponto de vista do
funcionamento da pesquisa que resulta em tecnologia – a qual tem uma dose de imprevisível
que não se pode negar. Mas não se contrapõe a ela na medida
em que postula uma visão parecida das relações de conhecimento,
isto é, do recorte sujeito/objeto. Por
isso, é fundamental lembrar que há uma segunda via para pensar o
papel dos beneficiários da pesquisa, no caso, claramente seus beneficiários
sociais. Trata-se daquela que trilham, já, embora nem sempre de
maneira consciente e explícita, as ciências do homem. O ponto de
partida será, sim, essa nova concepção do conhecimento científico,
que inclui os destinatários dos resultados da pesquisa entre os sujeitos
que de algum modo determinam as direções bastante genéricas
à pesquisa (e que o fazem sobretudo na medida em que a pesquisa necessita
ser custeada socialmente, e portanto a legitimidade da alocação
de fundos se constitui em questão sócio-política). Ora, sustentaremos
que a presença do beneficiário social da pesquisa, no caso dos estudos
que têm o homem tanto como sujeito quanto como objeto, não
é casual ou fortuita, mas pertence à essência mesma dessa
postura. NOTAS 1
Ou, ainda, sobre a matéria humana, mas considerando-a como não-humana,
isto é, não dotada da capacidade de refletir e portanto de retro-agir.
É refletindo, e re-agindo, que o objeto se reverte em sujeito. 
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