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"abertura" é o começo de meu livro A sociedade contra
o social – o alto custo da vida pública no Brasil, em que exponho as
convicções mais recentes que tenho sobre a filosofia política.
Lembro que meus dois primeiros livros importantes trataram do filósofo
inglês Thomas Hobbes; aqui, neste livro que fui escrevendo ao longo de dez
anos, dei uma guinada: comecei a pensar a cultura política brasileira à
luz da filosofia. Para
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Abertura: O
Brasil e a filosofia política A
filosofia política raras vezes, ao longo da história, esteve desligada
da política imediata ou próxima. Não é o que imaginamos
no Brasil, onde nutrimos uma visão meio empertigada da filosofia, afastada
dos problemas de nosso dia a dia. Mas penso que faz parte da condição
subdesenvolvida, ou melhor, da aceitação de um papel subalterno
no jogo político mundial, a idéia de uma excessiva solenidade dos
textos e mesmo das grandes obras. Enquanto não rompermos com este esquema
respeitoso, submisso, em relação aos clássicos - ou às
duas ou três línguas européias, e aos quatro ou cinco países
do Atlântico Norte que oligopolizam a reflexão dita de ponta -, não
iremos além da dependência, e de uma dependência, mais que
tudo, introjetada, escolhida e acatada por nós. Provavelmente
isso decorra de um equívoco em relação ao termo "clássicos".
Acostumados que estamos a olhar de longe os centros de produção
econômica e intelectual, tudo se torna grandioso, único, apartado
do cotidiano. Mas basta ver de perto os clássicos, de ontem ou de hoje,
para perceber que as circunstâncias sempre detiveram importante papel em
sua produção. Isso vale em particular para a filosofia política:
dificilmente ela nascerá de fora da política, ou pelo menos da atenção
a ela. É verdade que muito autor, como Maquiavel banido de Florença
ou Hobbes refugiado na França, escreveu sobre a política quando
estava impedido de praticá-la. Mais ainda: escreveu sobre a política
porque estava impedido – sobretudo Maquiavel – de praticá-la. Mas
mesmo assim sua reflexão brotava de uma ação, pelo menos,
sonhada. Sem a ação no horizonte, não há filosofia
política. Daí que não tenha cabimento nossa tendência,
quase subserviente, a imaginar que a filosofia só ocorre quando o pensador
assume a cátedra e pontifica. Ora,
a posição de pontífice convém mal à filosofia.
Esta só tem sentido, pelo menos no que diz respeito à pergunta sobre
a ação - e portanto à ética e à política
-, quando assume um tom crítico, o que, em nosso tempo, significa
demolidor e mesmo subversivo. Assim,
se os conceitos, idéias e suspeitas, que nascem da filosofia política,
têm alguma serventia, esta está em serem postos a funcionar. Um dos
modos disso é fazê-los pensar uma sociedade – no caso, a brasileira.
Estou persuadido de que o deslanche entre nós da filosofia política
– que é uma das áreas da filosofia em que temos gente bem capacitada
trabalhando – dependerá em boa medida de sabermos priorizar questões
com as quais sintamos um compromisso forte, desse que nos agarra pelo estômago,
e não apenas um vínculo frouxo, estritamente contemplativo. A filosofia
política precisa assim explicitar muito bem seu elo com o mundo
da ação, com tudo o que este possui de frágil, duvidoso,
efêmero. Basta,
aliás, ver que ainda hoje consumimos obras que nos vêm do mundo capitalista
avançado, e que partem de um problema ou episódio específico
de lá; mas nem por isso têm, esses livros, menor valor; o curioso
é que são repetidos por aqui, e até se explica, a nossos
concidadãos que os leiam, o contexto preciso em que nasceram. Deixo claro
que essa origem não amesquinha tais obras; mas raras vezes nos atrevemos
a começar, também, de algo tão frágil, local ou datado.
As circunstâncias do mundo desenvolvido, por débeis que sejam, ainda
expressam a nossos olhos uma dignidade, mais que isso, uma necessidade,
de que nossa vida, social ou política, parece desprovida. Em outras palavras,
continuamos achando que o universal pertence ao I Mundo, e que estamos confinados
no particular. Pouco importam os inúmeros trabalhos que, nestas décadas,
a começar pelo Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade,
mostraram como nossa condição de esguelha, de viés, de través
pode permitir uma leitura pelo menos original: em filosofia, continuamos reféns
de alguma dependência1.
A ambição deste livro estará atendida se contribuir para
deslanchar uma reflexão, uma produção neste rumo.
NOTAS 1
Creio que é desnecessário
dizer que não defendo nenhum fechamento sobre si, nenhuma patriotada cultural.
Tudo o que é bom deve ser incorporado, venha de onde vier. O que critico
é o viés subalterno, a subserviência. 
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