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Este
trecho é o começo de minha entrevista neste livro, organizado por
Leny Cordeiro e José Geraldo Couto, e que também contou com o psicanalista
Jurandir Freire Costa, o historiador José Murilo de Carvalho e o antropólogo
Roberto DaMatta. Para comprar este livro clique
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| | Quatro
autores em busca do Brasil Professor
titular de filosofia na Universidade de São Paulo, Renato Janine Ribeiro
vem desenvolvendo, nas últimas décadas, reflexões originais
sobre uma notável variedade de assuntos, entre os quais se destacam as
relações entre a política e as paixões humanas, numa
visada ampla em que a filosofia borra suas fronteiras com a história, a
antropologia, a psicanálise e a crítica estética. Autor de
Ao leitor sem medo – Hobbes escrevendo contra seu tempo, A etiqueta
no Antigo Regime, A última razão dos reis e A sociedade
contra o social, Janine expõe nesta entrevista o momento atual de seu
inquieto pensamento, que está em permanente processo de autoquestionamento
e revisão. Quinhentos
anos depois do Descobrimento, o Brasil parece ainda ter dificuldade em lidar com
seu passado. A cada novo governo, a cada novo plano ou nova moeda, é como
se se tratasse de começar do zero, de criar o país a partir de suas
potencialidades e enterrar (sem compreendê-los) o passado e suas mazelas.
O real (o plano e a moeda), que você abordou num ensaio recente, seria apenas
a nova manifestação dessa nossa tendência cíclica,
ou há agora uma mudança de qualidade na relação do
projeto com o país? Qual seria essa mudança? Faz
alguns anos que imagino o que seria submeter um país, nosso país,
a uma espécie de psicanálise, e isso porque parto da hipótese
de que boa parte de nossos problemas, sobretudo os sociais, provém do fato
de jamais o Brasil ter ajustado contas com alguns fatores de sua história,
a começar por duas experiências terríveis, que são
a colonização e a escravidão. Estas são as duas formas
talvez mais radicais de heteronomia, nas quais uma nação – seja
no sentido mais moderno de um Estado, seja no sentido mais antropológico
de uma etnia, um grupo – se vê submetida a uma dominação quase
absoluta, em que todo o seu poder de decisão é abolido e as pessoas
são até reduzidas ao estado de coisa. Pois o Brasil nasce disso,
e jamais acertou contas com tais experiências, que ficam em algum substrato
nosso, como traumas. Daí
que me tenha parecido, sobretudo no começo da década de 1990, quando
parecia divisar-se para o Brasil um rumo político de centro-esquerda –
mediante uma grande coligação, com que alguns sonhávamos,
dos social-democratas com o PT, em suma, mediante a união de todos os que
se preocupavam com a ética dos meios e com a justiça social enquanto
fim – que uma das chaves para tanto consistia em acabar com o que havia de autoritarismo
em nossos costumes. O
conceito de costumes, forte na teoria política do Iluminismo, abre espaço
tanto para uma antropologia política quanto para o que poderíamos
chamar uma psicanálise política. Esta última poderia passar
pela idéia de trauma, que, bem sei, foi sendo excluída ou minimizada
nas leituras mais recentes do legado de Freud, mas que me parecia servir para
pensar a ligação que o Brasil mantém com um afeto autoritário.
Será por acaso que os mais hábeis, dentre os nossos políticos,
em lidar com o afeto são os mais conservadores? O
Estado moderno, o Estado de direito, os direitos humanos, a forma republicana
de governo, a democracia, tudo isso que fomos aprendendo a admirar como ícones
da modernidade e sinais de uma vida melhor, inclusive eticamente, têm em
comum serem extremamente racionais. Ora, podemos ter um arcabouço racional
para nossas relações sociais e políticas, mas o que garantirá
nossa adesão a elas, nossa constante participação, é
um fator que escapa à razão e é de ordem afetiva. Por que,
então, esse afeto acaba sendo mais bem manejado por aqueles que não
têm compromisso com este rol de valores positivos, "civilizados",
e sim pelos que repõem o autoritarismo, o patrimonialismo, a corrupção?
Provavelmente é porque nosso coração foi formatado por séculos
de colônia e escravidão. Esta
é, então, uma primeira hipótese, que me moveu desde os inícios
dos anos 90 a pensar sobre o Brasil, a escrever em jornais e revistas a seu respeito,
a utilizar os conceitos com que eu trabalhava – público, privado, representação
política e teatral, direito e força, república, democracia
como forma política e como forma de sociabilidade – para discutir nossa
política e sociedade. A sociedade contra o social, que concluí
há poucos meses, é o arremate desse empenho. A convicção,
aqui, é de que as ferramentas teóricas da filosofia política
devem servir para pensar a vida de todos os dias, e, mais que isso, que elas devem
ser aprimoradas no trato desse cotidiano. Contudo,
se de início o que me ocorria era discutir o trauma e a necessidade de
ajustar contas com ele, o pressuposto desse ponto de vista era que o Brasil precisava
ser civilizado. O recorte que eu supunha era, remotamente, o mesmo que dividia
avanço de atraso, Primeiro e Terceiro Mundos, progresso e retrocesso. Claro
que a distinção, aqui, não era economicista, mas passava
pela cidadania, que existe lá melhor do que cá. Mas tal recorte
não se justifica nem do ponto de vista teórico nem do objeto tratado.
Do viés teórico, ele é muito simplório. E do ponto
de vista do objeto, que no caso é a sociedade brasileira, ela tem riquezas
que não cabem no molde do "atraso". Que
riquezas são essas? Comentarei
só uma dessas riquezas, que repartimos com boa parte do assim chamado mundo
atrasado: uma presença maior dos afetos. A política bem-sucedida,
a do Atlântico Norte, somente foi possível mediante o que chamo de
um enregelamento dos afetos. Tanto que é comum os povos do Primeiro Mundo
irem se deleitar, em suas férias, naqueles lugares em que um prazer de
viver se conjuga com a falta de cidadania, de democracia. Mas será coincidência
essa dupla equação dolorosa, isto é, cidadania sem paixão,
afetos sem direitos? Se
os afetos continuam quentes nos países tropicais, e neles coincidem com
certo autoritarismo político, é preciso notar que a mesma identificação
afeto/autoritarismo é praticada pelos europeus ocidentais e americanos
do norte, só que com a conseqüência de que excluíram
os afetos positivos – amor, veemência passional – do campo de suas relações
sociais. Se eles conseguiram reduzir a injustiça social e ampliar o campo
dos direitos, foi, porém, mantendo a mesma idéia de que o afeto
forte é autoritário. Ou seja, se quisermos romper esse vínculo
e abrir o espaço humano para um afeto que não seja autoritário,
mas democrático, o Primeiro Mundo não está nada à
nossa frente. Talvez até esteja atrás, porque se resignou à
perda do afeto. O grande desafio que temos diante de nós é este:
como construir um afeto forte que seja democrático? Daí que em meu
último livro, que me custou quase dez anos, eu tenha partido de um projeto
civilizatório do país, para chegar a uma pergunta que retoma várias
de Gilberto Freyre e de Roberto DaMatta, ainda que eu tenha maior simpatia pela
esquerda do que esta teve por Freyre e do que Roberto sente por ela. Uma
palavra só, sobre meu amigo DaMatta, que compartilha o presente livro conosco:
ele é um dos maiores responsáveis por uma valorização
do Brasil em seu lado afetivo, e por mostrar que este não é um elemento
apenas da vida privada, um resto irrelevante (ou "de férias")
ante a seriedade das questões como o Estado de direito, a democracia etc.
Ele mostra que a política está aí, no vivido, e que neste
o nosso papel é altamente positivo. Mas a situação não
é fácil, e ele não escapa a um conflito que é real
– em última análise, a contradição íntima entre
afetos e autoritarismo, entre amor forte e forte repressão. Daí
que, enquanto em seus livros, que constituem sua contribuição realmente
original, ele valoriza esse elemento inovador que nos vem das relações
pessoais e pode melhorar a vida em geral, em seus artigos de jornal ele com maior
freqüência retome a tópica da cidadania que nos falta e que
precisamos adquirir – por exemplo, quando denuncia os políticos. Não
é aqui que está sua maior contribuição. Mas não
estou criticando um amigo, a quem admiro: estou somente sublinhando a dificuldade.
Só que
esta dificuldade não é apenas brasileira. É mundial. Nos
países pobres, ela acaba se expressando como atraso, que precisaria ser
superado, mas isso somente porque a perspectiva oscila entre o hiper-economicismo
e uma visão da política como apenas um conjunto de instituições.
Compramos o discurso norte-atlântico, do sucesso deles e do nosso fracasso.
Como se o enregelamento dos afetos fosse um sucesso! É por isso, aliás,
que abri mão do projeto civilizatório, a fim de pensar o que viria
por outros caminhos. 
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