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Este
trecho faz parte do livro A República
(Publifolha, 2001). | | Pai
e filhos No
Salão de 1789, em Paris, o pintor Jacques Louis David (1748-1825) expõe
seu quadro Os Litores Levam ao Cônsul Brutus os Corpos de seus Filhos,
que hoje está no Museu do Louvre. Todo espectador culto entende de imediato
o sentido da obra. Refere-se a um episódio de Roma antiga, depois de expulso
o último rei e proclamada a República. Brutus era um dos dois cônsules
eleitos anualmente e que exerciam, em conjunto, o poder executivo. Seus filhos,
porém, conspiraram para restaurar a dinastia dos Tarqüínios
– uma dinastia etrusca, portanto de origem externa à cidade – e foram presos.
O próprio pai
os condena à morte. Na sua função pública, não
poderia agir de outro modo. No quadro, vemos ao fundo os cadáveres, com
as mulheres soltando todo o desespero, toda a dor pela morte dos rapazes. No primeiro
plano, o cônsul, em silêncio, meditando – e na sua forma discreta,
máscula, condensada, sentindo imensa dor. Este
quadro diz muito sobre a República, e isso meses antes da Revolução
Francesa e alguns anos antes que a França adotasse essa forma de governo.
Muitos comentam a influência que terá tido a jovem República
dos Estados Unidos da América sobre a francesa: afinal, a independência
norte-americana contou com apoio financeiro e militar da França. E Thomas
Jefferson, que redigiu a Declaração de Independência das treze
colônias, foi embaixador de seu país em Paris, de 1785 até
o início da Revolução. Mas
pensemos um pouco. Os homens da Revolução Francesa eram cultos,
estudados, assim como, aliás, os da Americana. Conheciam a tradição
clássica. O que levariam mais em conta, a experiência recente e ainda
pouco testada de um punhado de colonos numa terra distante – ou séculos
de sucesso num dos maiores centros da civilização européia?
Roma e o neoclássico estavam em voga, naquele fim do século 18. O
que nos diz o quadro de David? Antes de mais nada, que o bem público se
sobrepõe ao privado. Essa frase, que geralmente tomamos por mero lugar-comum,
tem nos valores da República um claro significado: devemos sacrificar as
vantagens e até os afetos pessoais ao bem comum. O pai executa o filho,
como o filho eventualmente mataria o pai, em nome da Cidade. O custo dessa ação
não é negado nem mesmo ocultado. Ninguém ignora a dor de
Brutus – seria tão fácil apresentá-lo como um político
desumano, que ao poder sacrifica o amor! – mas ele não podia agir decentemente
de outro modo. A República
tem custo alto, mas é justo pagá-lo. Para sairmos, porém,
da facilidade com que estas palavras são ditas, vamos a um episódio
mais recente, também gerador de vasta iconografia, e que enche de horror
quem o conhece. É o caso do pequeno Pavel Morozov, um adolescente russo
que denunciou o próprio pai ao poder soviético, no começo
dos anos 30, por esconder cereais. O pai foi condenado a uma longa pena num campo
de concentração, onde provavelmente morreu; já o garoto acabou
assassinado na vila em que vivia. Pois Pavel foi instituído como o grande
herói do Konsomol, a organização da juventude comunista,
e estátuas em sua honra se espalharam por toda a União Soviética A
estátua do pequeno Pavel, que reinava sobre o parque Morozov, em Moscou,
foi derrubada pelo povo da capital em meio às manifestações
contra o golpe de 21 de agosto de 1991, que tentara depor Gorbatchev. O
verdadeiro inimigo da República: a corrupção Qual
a sua idéia de corrupção? É quase certo que você
fale em desvio, por um administrador desonesto, do dinheiro público. É
a idéia que se firmou hoje em dia. Mas, antes disso, a corrupção
era termo mais abrangente, designando a degradação dos costumes
em geral. Como a corrupção
veio a se confinar no furto do bem comum? Talvez seja porque, numa sociedade capitalista,
o bem e o mal, a legalidade e o crime acabam referidos à propriedade. Por
analogia à propriedade privada, o bem comum é entendido como propriedade
coletiva – e até como bem condominial, aquele do qual cada um tem uma parcela,
uma cota, uma ação. Mas
o bem comum é diferente, por natureza, do bem privado. No estatuto de uma
sociedade é obrigatório incluir o destino a dar aos bens, caso ela
se dissolva. Se constituo uma firma com um sócio, caso a fechemos repartiremos
os bens que pertencem a ela. Mas isso é impossível, tratando-se
da coisa pública. Há certos "bens" que só ela produz,
e que não podem ser divididos: virtudes, direitos e uma socialização
que não só respeita o outro como enriquece, humanamente, a nós
mesmos. Pensar o mau
político como corrupto e, portanto, como ladrão simplifica demais
as coisas. É sinal de que não se entende o que é a vida em
sociedade. O corrupto não furta apenas: ao desviar dinheiro, ele mata gente.
Mais que isso, ele elimina a confiança de um no outro, que talvez seja
o maior bem público. A indignação hoje tão difundida
com a corrupção, no Brasil, tem esse vício enorme: reduzindo
tudo a roubo (do "nosso dinheiro"), a mídia ignora – e faz ignorar
– o que é a confiança, o que é o elo social, o que é
a vida republicana. República
e democracia A
idéia deste livro e de seu irmão gêmeo, Democracia,
nasceu de uma observação: é cada vez mais difícil
manter a idéia de que exista um povo, um demos, para usar a palavra
grega, inteiro e íntegro. Aliás, a democracia moderna nasce com
uma visão romântica do povo, que se expressaria por uma identidade
nacional marcada em sentimentos fortes, e depois se orienta para a esquerda adotando
uma visão marxista – que identifica o povo com os trabalhadores,
os explorados e seus aliados. Nos dois casos, nem todo o mundo é povo.
Há também o anti-povo, que pode ser o estrangeirado, no primeiro
caso, ou o explorador de classe, no segundo. Mas o problema é que essas
duas concepções de povo deixaram de ser funcionais. A economia está
complexa demais para distinguirmos nela os trabalhadores, e a cultura, rica demais
para identificarmos uma cultura nacional pura. As
características do povo migraram, do povo como um todo, brasileiro, francês
ou o que for, para o que podemos chamar de sub-povos – grupos menores,
porém mais intensos em suas relações. Podem ser os sem-terra,
que guardam a caracterização marxista, pois se definem pelo lugar
na economia, mas igualmente os militantes negros, feministas ou gays. Esses
grupos assumem traços que eram tradicionalmente os do povo. Mal restaram
os laços fortes que, no modelo romântico ou marxista, uniam os membros
do povo como um todo. Numa sociedade complexa, é dificil eu sempre amar
o compatriota ou o companheiro de classe. Mas essa intensidade afetiva migrou
para os elos entre membros de grupos menores e mobilizados. Aqui
é preciso falar – sem sectarismo – da política brasileira. O partido
que mais aposta em vínculos fortes ou sociabilidades aquecidas é
o PT. Sua prática é das mais democráticas. Mas, com sua ênfase
em agrupamentos que não são o povo como um todo – e isso porque
não há mais povo como um todo – ele se presta à crítica
de favorecer interesses particulares, que seus adversários chamam de corporativistas. Veja-se
o paradoxo. A prática democrática subsiste, mas ela não diz
mais respeito ao demos como um todo. Ela sobrevive, intensificada, em grupos
menores, e por isso mesmo pode voltar-se contra outras partes do povo.
O que a direita fez, sobretudo na presidência Collor, foi jogar essas parcelas
desmobilizadas contra os grupos organizados, aqueles em que o PT melhor navega. Mas
há outra crítica, mais séria e pertinente que a da direita.
É a que se encarna entre nós no PSDB. O discurso dele é republicano.
Basta ver que ele critica o PT porque esse último favoreceria interesses
de grupos. É o que o PSDB chama de corporativismo – a defesa de uma corporação,
em detrimento do interesse comum, a ênfase no meio (no caso, o funcionalismo
público) mais que no fim (o povo, o público como um todo). O discurso
do PSDB é o mais consistente que temos na defesa da res publica. Aqui,
porém, também há um custo. Defendendo a coisa pública,
o PSDB formula uma questão fundamental – mas ao mesmo tempo se vê
condenado a atacar as práticas mais democráticas que há em
nossa sociedade, que mobilizam os grupos à esquerda. Ou seja, nossos republicanos
se vêem obrigados a criticar a democracia. E enquanto isso nossos democráticos
não conseguem ter uma visão abrangente da coisa pública,
estando limitados a práticas importantes, mas que ficam na organização
de grupos parciais. É o que desespera a minoria de marxistas dentro do
PT, que obviamente deseja uma visão totalizante da sociedade, mas se vê
condenada a uma dura alternativa: ou totaliza, mas não enxerga a sociedade
de hoje, ou leva em conta a sociedade atual, e aí vai-se embora a totalização
que Marx elaborou no século 19. | | |