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Artigo publicado na revista Cult,
em dezembro de 2004.
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Um
pensador da ética
Num dia de dezembro
de 1513, um homem escreve a um amigo. Está no campo, banido.
Foi preso e torturado. Mas não se queixa. Conta que passa
o dia com os camponeses, gritando, jogando. À noite, porém,
troca de roupa. Veste os melhores trajes. Lê os autores antigos
e, espanto!, dialoga com eles. Ouve suas opiniões, suas idéias.
(Essa passagem é sempre citada, quando se quer explicar a
Renascença). Quase no final, informa que gastou algumas semanas
escrevendo um livrinho, De principatibus (Dos principados),
"onde me aprofundo tanto quanto posso nas cogitações
desse tema...".
Gastou nisso umas
poucas semanas, que definirão para a posteridade o seu nome
– Nicolau Maquiavel ou, em italiano, Niccolò Machiavelli.
A elas Maquiavel deverá a glória: seu nome gerará
um adjetivo que todos conhecem. De uns trinta grandes filósofos,
apenas dois – ele e Platão – chegaram a tanto. Mesmo quem
nunca os leu tem noção do que é amor platônico
ou ação maquiavélica. Não
importa que nós, professores de filosofia, provemos que os
adjetivos convêm mal aos dois filósofos. Eles pegaram.
O renome de Maquiavel é maior que ele próprio.
Mas é um mau
renome, uma má fama, infâmia. O Príncipe
foi lido, bem cedo, como um livro de conselhos aos governantes,
para quem os fins justificariam os meios (essa frase, aliás,
não é de Maquiavel). Ele defenderia o despotismo
e a amoralidade dos príncipes. Há aqui, porém,
um problema. Maquiavel escreveu O Príncipe de um jato
só, enquanto se dedicou vários anos a outro projeto
– os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio,
um longo comentário ao historiador de Roma antiga.
Ora, os Discursos
são uma obra republicana. E, se Maquiavel foi torturado
a mando dos Médici, que acabavam de retomar Florença,
isso se deveu a ter sido ele um dos líderes da República
florentina. O Maquiavel mais extenso é republicano – e sobre
ele temos um livro notável de Newton Bignotto, Maquiavel
republicano (1991). Mas talvez o autor d’O Príncipe
seja o Maquiavel mais intenso: essas semanas no campo emancipam
a política da moral cristã.
Daí, questões
sérias. Rousseau, dois séculos e meio depois d’O
Príncipe (isto é, a meio caminho entre Maquiavel
e nós), sugere: tudo seria uma enorme paródia. Republicano
da gema, nosso autor teria contado – como a sério – todo
o mal que os reis fazem, para fazer-nos odiá-los. Há
um enigma Maquiavel. Ainda maior, porque O Príncipe é
talvez a obra filosófica que parece mais fácil de
ler. Nenhuma dificuldade para entender cada linha ou página.
Só para saber o que, afinal, ele quis dizer.
Maquiavel começa
distinguindo repúblicas e monarquias: falará delas.
Dos reinos, uns são antigos e outros novos: só tratará
dos novos. E, destes, uns foram conquistados por armas próprias
e outros, com armas alheias e graças à fortuna (no
sentido de sorte) – interessam-lhe estes. Como um novo governante,
que não se beneficia da opinião favorável que
a idade dá a um regime, pode conseguir ser aceito por seu
povo? eis a questão. Isto é: como passar da força
bruta ou da violência ao poder, que depende do consentimento
dos dominados.
E com isso Maquiavel
é um dos raros pensadores da política a pensar, não
só o exercício, mas a tomada, do poder – não
a continuidade, mas a novidade. Não é fortuito que
o marxista italiano Antonio Gramsci tenha escrito sobre ele: Maquiavel
pode ser revolucionário.
Todo governante procura
"conservar o [seu] estado". Quer dizer seu estado
de governante, a condição de quem manda. Mas daí
brota outro sentido, que surge com Maquiavel: o Estado que
o príncipe governa. E como o conservará? Não
há receituário. Aqui está o erro de quem lê,
n’O Príncipe, regras a aplicar. Pois o que ele destaca
na política (ou aquilo a que seus leitores recentes se mostram
mais atentos) é justamente o que exige argúcia e invenção!
Diz ele que deseja
escrever coisa que preste, útil; por isso não tratará
do Estado como deve ser mas como é; nada melhor, para que
o governante planeje bem suas ações. A ação
deliberada, planejada, eficaz se dá no plano do que ele chama
de virtù e que nada tem a ver com a virtude, no sentido
cristão ou moral. Mas ninguém realiza todos os seus
planos. Metade dos resultados de nossas ações, diz,
se deve à virtù, metade à fortuna.
Uma forte convicção
medieval era que o governante deveria seguir a moral cristã.
Era essa a chave do bem governar. Mas Maquiavel mostra, usando a
história e a experiência, que sempre venceu quem pensou
mais no êxito do que na moral ou na salvação
da alma. Nem por isso devemos ser cruéis de propósito:
ele recomenda praticar o bem sempre que possível, o mal quando
necessário.
Só que o governante
não tem garantia de sucesso. Este sempre é incerto.
Um homem privado pode, se respeitar leis e regras, vencer na vida;
vive no quadro de um sistema que premia e pune; mas um governante,
que não tem rede a protegê-lo, não tem segurança
disso.
Lembremos o ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso. Ele falou muito na ética da responsabilidade,
conceito que Max Weber cunhou para dar conta do que Maquiavel iniciara.
Teríamos por um lado a ética de princípios
ou valores, e por outro a que leva em conta os efeitos previsíveis
da ação. O homem privado poderia dar-se ao luxo de
seguir os princípios, em sua pureza.
Já o homem
público precisa pautar-se pela ética da responsabilidade,
insistia FHC, citando Weber (teve a cautela de não citar
Maquiavel). Esse foi um ponto de debate no governo passado, com
parte da oposição atacando o presidente em nome de
um discurso moral. Subentendia-se que a ética da responsabilidade
fosse uma ética com desconto, uma ética enfraquecida,
até mesmo uma não-ética. Mas ela não
é isso.
Se o subtexto de
FHC era Maquiavel, não era amoral. A melhor bibliografia
atual repudia a imagem de um Maquiavel anti-ético. Destaquemos
o livro de Claude Lefort, comentado adiante, que precisaria ser
traduzido. Ou o livro utilíssimo de Quentin Skinner, Maquiavel,
infelizmente esgotado (Brasiliense), ou ainda duas passagens de
seu Fundações do pensamento político moderno
(Companhia das Letras).
Dois brilhantes textos
mais curtos valorizam a ética de Maquiavel. Isaiah Berlin,
em "A originalidade de Maquiavel" (in Estudos sobre
a humanidade, Companhia das Letras), diz que na obra dele não
se opõem a ética e uma política sem ética
– mas duas éticas. Uma é cristã, preza a salvação
da alma. Outra – a do Príncipe – é pagã
e valoriza a pólis, a cidade, este mundo.
Mas o grande pequeno
artigo é a "Nota sobre Maquiavel", de Merleau-Ponty
(in Signos, Martins Fontes). Diz ele que uma bondade "incapaz
de dureza" (a ética dos princípios) não
é verdadeira, nem sequer para o indivíduo – e que
O Príncipe encarna "algumas das condições
de todo humanismo sério" e, mais que isso, "a regra
de uma verdadeira moral". Esta exige levarmos em conta as conseqüências
prováveis de nossos atos. De nada vale ficar nas boas intenções.
Maquiavel terá lançado as bases da ética de
nossos tempos. Merleau-Ponty assim efetua uma enorme reviravolta,
que faz o filósofo mais mal falado de todos – e cujo prenome
gerou em inglês um apelido para o diabo, "Old Nick"
– se tornar um possível grande pensador ético.
Talvez isto signifique
o seguinte: na Idade Média, o quadro moral dava conta do
lugar tanto do príncipe quanto do súdito, que deviam
ambos obedecer à religião. Em tese, bastava isso para
fazer um bom rei ou um fiel cristão. Maquiavel mostra que
o príncipe não está mais submetido – nem protegido
– por esse quadro. É essa insegurança que lhe dá
liberdade. Ninguém é livre sem ansiedade. Mas hoje
temos um mundo em que também se desfizeram os quadros de
referência que protegiam – e prendiam – os cidadãos.
Não só o príncipe, mas todos nós.
Se, na reflexão
de FHC, a vida pública é diferente da vida privada,
o que vemos hoje – e disso se aperceberam os comentadores recentes
de Maquiavel – é que a vida privada tomou cores que eram
da vida pública. O ex-presidente também errou, ao
separá-las. Pois a vida privada igualmente se tornou insegura:
casamentos, empregos e até profissões terminam.
Essa insegurança
é maior, mais duradoura e mais inquietante do que a gerada
pelo temor do assalto: nenhuma polícia pode superá-la.
Por isso, não é verdade que o homem privado possa
ignorar a lição d’O Príncipe. Hoje é
ele quem mais tem a aprender lendo esse poderoso livro. Porque cada
um de nós está, em certa medida, na condição
do príncipe de Maquiavel: com mais liberdade do que nunca
antes, mas também mais inseguro.
Renato Janine Ribeiro,
professor titular de Ética e Filosofia Política na
USP e curador deste dossiê, é autor de A sociedade
contra o social (Companhia das Letras), Ao leitor sem medo
– Hobbes escrevendo contra o seu tempo (Ed. UFMG) e de A
universidade e a vida atual (Campus), entre outras obras.
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