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Artigo publicado na revista Cult,
em julho de 2004.
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Substituir
a mimese pela criação, na política
Até um ano
atrás, eu diria – como quase todos os que estudam esta questão
– que há democracias consolidadas e outras, por consolidar.
As primeiras estariam nos países ricos, nos quais não
se conhece miséria em nível significativo e as economias
são estáveis. Já as democracias frágeis
caracterizariam nações pobres, de economia vulnerável
e sociedade injusta. Daí que construir uma democracia exigisse
pôr fim à miséria e fortalecer a economia –
uma agenda primeiro social e depois econômica (posição
de esquerda), ou primeiro econômica e depois social (visão
liberal). Mas quatro fatos recentes abalaram esta convicção.
O primeiro foram
as eleições de 2000, nos Estados Unidos. Não
é só que o derrotado no voto popular ganhasse no colégio
eleitoral. É que além disso Bush deveu sua vitória
à manipulação, por seu irmão, dos votos
da Flórida. E o segundo caso foi a chocante votação
do racista Le Pen nas eleições presidenciais francesas.
As duas democracias mais sólidas do mundo, os dois países
que deram nome às revoluções que – no século
18 – inauguraram a modernidade democrática, colocaram-se
no nível de uma republiqueta qualquer. Nos Estados Unidos,
pela fraude. Na França, pelo número de votos dado
a alguém que repudia tudo o que é direito humano.
Mas não temos
só esses exemplos de Primeiro Mundo em decadência.
Há o movimento contrário, o avanço daquilo
que se chamava Terceiro Mundo. O Brasil, contrastando com o fiasco
do Atlântico Norte, deu uma lição de democracia.
Elegemos, sem tragédia, um presidente de esquerda. O presidente
que saía, vendo derrotado o seu candidato, organizou uma
transição tranqüila.
O quarto caso que
desejo mencionar é o da Al Jazira. Não conheço
ninguém que assista a esse canal, que por enquanto transmite
apenas em árabe. Mas só ouvimos e lemos elogios a
ele. Com jornalistas que pertenciam à BBC e a carta branca
do monarca quase absoluto do Qatar, essa rede de reportagem adquiriu
prestígio invejável. Já os canais norte-americanos
e ingleses fizeram feio durante a guerra do Iraque. Mostraram batalhas
anódinas, como se não morresse gente – uma espécie
de game. Só a TV árabe mostrava o ponto de
vista dos feridos e dos mortos. Talvez por isso, a Al Jazira foi
censurada e bombardeada.
Esta rápida
resenha de fatos engrena numa discussão de teoria política.
Estaremos trocando os papéis que eram do Primeiro e do Terceiro
Mundos? Será que os países atrasados, com déficit
social, econômico e político, começam a dar
aulas de democracia aos ricos? Eis uma questão fundamental
para a filosofia política. Esta se construiu, nos últimos
quinhentos anos, a partir de experiências inicialmente européias
e, depois, norte-atlânticas. As economias pujantes do planeta
ditaram a organização política mais prestigiada
do mundo, que é uma democracia liberal mais ou menos atenta
à dimensão social. Mas esse modelo não se universalizou.
Ele teve e tem forte poder de atração sobre os países
do Terceiro Mundo; não se aplicou, porém, em toda
a parte.
Há duas principais
razões para isso. A primeira é econômica. O
mundo em que vivemos é socialmente desigual. Mas essa desigualdade
não é casual ou fortuita, e sim constitutiva. Os norte-americanos
não poderiam ter seu elevado nível de consumo, sem
o fosso que os separa do resto do mundo. Mais que isso, para as
economias dos países ricos funcionarem, parece que as dos
outros países precisam disfuncionar. Veja-se como o Brasil,
apesar de fazer a "lição de casa", vive
à mercê dos humores da banca internacional. Meio século
depois da época em que se dizia que a democracia era artigo
de ricos, um artigo que a esquerda amava pouco, a grande mudança
hoje é que a esquerda passou a amá-la, sim – mas essa
donzela distante continua em mãos dos poderosos e dos que
têm dinheiro.
A segunda razão
é quase o contrário da primeira. Vimos que o clube
da democracia continua aprisionado pela desigualdade social, que
deriva de uma desigualdade econômica. Mas há também
a questão dos valores culturais. Anos atrás, o antropólogo
britânico Alan Macfarlane publicava seu Origens do Individualismo
Inglês, a partir de uma grande idéia: o fracasso
das instituições parlamentares na Nigéria se
deveria a não terem, elas, base na cultura africana. Transplantar
uma cultura individualista inglesa, que tardou setecentos anos a
se constituir, para países onde o eixo das coisas não
é o indivíduo, seria irresponsável.
Na verdade, o melhor
exemplo do que podemos chamar o fracasso antropológico
da política ocidental se deu com a União Soviética,
no Afganistão. Ali morreu e foi sepultado o comunismo. Mas
esse enterro não foi propriamente político – nem mesmo
econômico. Foi antropológico, resultando do desencontro
de valores. Sim, Ronald Reagan forçou a antiga URSS a gastar
em armas mais do que podia, e com isso quebrou as contas dela. Mas
não foi isso o decisivo, e sim o Vietnã dos soviéticos
– as montanhas afgãs.
Poucos sabem quais
medidas os comunistas tentaram impor no Afganistão do final
dos anos 70. Pois elas não tinham nada de comunista.
Suprimiu-se o endividamento exagerado, a repressão às
mulheres, o casamento sem a livre vontade dos cônjuges. Não
era 1917, mas 1789 que o PC procurava trazer para Kabul. Como a
invasão soviética foi um presente dos céus
para os norte-americanos, a mídia ocidental omitiu essa agenda
quase liberal fincada na Ásia Central. A ironia da história
é que a revolução burguesa dos comunistas afgãos
não parece muito diferente da que o segundo presidente Bush
pretenderá impor em Bagdá. Mas, num país bem
mais fechado do que o Iraque, essas medidas se chocaram com valores
extremamente arraigados.
O resultado disso
se deu em dois atos. O primeiro foi a liquidação do
comunismo. Arnold Toynbee insistia, há mais de meio século,
no caráter ocidental (ainda que dissidente) do marxismo.
Pois foi ao tentar ocidentalizar o Afganistão que o marxismo
se deu mal. Mas houve um segundo ato afgão: as torres do
World Trade Center. A ignorância antropológica causa
danos em cascata. Os mesmos norte-americanos que instrumentalizaram
as tribos afgãs contra o comunismo sofreram, depois, o ataque
de suas ferramentas, abandonadas e indóceis.
Dizem uns que o século
XX terminou ao cair o muro de Berlim (e o comunismo), outros que
o século XXI começou ao caírem as torres de
Manhattan. Como o Afganistão esteve nas duas quedas, nossa
tese será que tanto a morte do comunismo quanto o início
do século XXI foram antropológicos. Não precisamos
assumir a idéia do choque das civilizações,
de Huntington, para perceber que o fim de uma era e o começo
de outra têm a ver com a difícil relação
entre o Ocidente e a alteridade.
Em suma, vivemos
uma grande reversão de termos. Comecei com um quadrinho bem
feito e inspirador: a riqueza, quando existe e é distribuída
com certa justiça, casa-se com a democracia. Daí que
esta seja fenômeno de Primeiro Mundo. A Índia e o Brasil
estariam num segundo time, atrasados pela miséria. Mas vimos
problemas nessa explicação. Fortes valores democráticos
podem aparecer em países pobres – como arma de combate pela
justiça. Além disso, esses mesmos valores democráticos
pedem para ser revistos. É improvável que, daqui a
vinte ou trinta anos, chamemos de democracia o mesmo que leva hoje
esse nome. Em vastas partes da Nigéria como do Iraque, pertencer
a um clã ou a uma tribo é mais relevante do que a
identidade individual. Isso significa que teremos de pensar outro
tipo de democracia, em que os elos de grupo não precisem
ser destruídos em nome de um direito baseado no indivíduo
e de uma economia fundada na divisão econômica de classes.
Para terminar: parece
estar esgotado o tempo da democracia de Primeiro Mundo vs. atraso
do Terceiro. Não tem mais sentido a imitação
– a política como mimese: copiar os bem sucedidos. Está
na hora de promover modelos alternativos de democracia – mas para
isso temos que ajustar contas com idéias muito fortes, como
a de modelo norte-atlântico a imitar, de direitos basicamente
individuais, de sociedade fundada na economia. Uma catarse de nossos
sonhos norte-americanos e franceses, de nosso século XVIII
político, pode ser necessária para substituirmos,
na política, a mimese pela criação.
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