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Artigo publicado na revista Cult,
em setembro de 2004.
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Ideais
com deságio
Todo governante,
especialmente num país com nosso déficit social, precisa
legitimar não só o que faz, mas o que deixa de fazer.
Precisa explicar por que falhou no que prometeu. Lula e Fernando
Henrique tiveram de lidar, no poder, com um desconto nos seus ideais.
A prática ficou aquém do discurso. De Cardoso restou
uma frase, que ele nega ter pronunciado, que não teve testemunhas,
mas que foi a única mancha, nos seus anos de Presidência,
a colar nele: o provavelmente apócrifo "Esqueçam
tudo o que escrevi". Já Lula, embora pessoalmente continue
popular, tem sido criticado por uma política econômica
contrária ao discurso do PT e pela demora numa política
social de esquerda.
Aqui não discutirei
o que cada um fez, deixou de fazer ou fará. Analisarei os
estilos pelos quais cada um lidou com a defasagem entre o
discurso e a prática, entre a promessa e a ação.
Esse descompasso não é o mesmo nos dois. FHC já
tinha feito o luto dos ideais de esquerda havia muito tempo. Isso
não faz esquecer seus recuos em política social: os
cinco dedos da mão, que ele exibia em 1994 para prometer
saúde, educação, emprego, segurança
e habitação, não valeram. Já Lula se
defronta com uma distância, não entre seu passado e
presente, mas entre uma fala e uma ação simultâneas.
Então, a questão é: como dar conta desse déficit
da caneta em face das palavras?
No começo
do ano, em férias, estive em Porto Alegre. Ouvi Lula no Fórum
Social Mundial, em 24 de janeiro. O começo do discurso me
soou enfadonho, coisa de político, frases curtas, enormes
vazios entre uma e outra. Não sei por que não vão
direto ao assunto. Subestimam os ouvintes, que só conseguiriam
assimilar uma frase por minuto, uma palavra a cada cinco segundos,
idéias nunca.
Mas, vinte minutos
passados, ele começou a falar do Fórum Econômico
Mundial de Davos. Notei que era o cerne de sua fala: justificar
aos companheiros de Porto Alegre por que ia meter-se na cova dos
leões. Foi brilhante. É brilhante. Muitos dos presentes
não o queriam em Davos. Parte da imprensa jogava lenha na
fogueira, forçando uma fratura entre a base política
do presidente e sua ação de governo. Mas ele não
fugiu do assunto.
E tratou dele contando
histórias. Esta é uma forma eficaz de comunicar-se:
compartilhar a experiência com os ouvintes, colocar-se como
um ser humano narrando episódios a outros, mostrando como
aprendeu com a vida. Lembrou quando, numa greve do ABC, o presidente
da Fiesp solicitou ao comandante do II Exército que prendesse
Lula e os líderes grevistas. Lula respondeu pedindo uma audiência
ao general Dilermando, que o recebeu por três horas. E lembrou
quando, pensando em criar o PT, amigos lhe diziam para não
se meter num jogo viciado, que era o dos partidos e das instituições.
Moral da história:
mesmo nós, que jogamos um jogo novo, podemos e devemos usar
os tabuleiros existentes. Aplausos. Porto Alegre aceitou, na ágora,
que Lula fosse a Davos. Mas isso não era o principal. O importante
era Davos ouvir que Lula não vinha ao Fórum Econômico
furtivamente, sem apoio de sua base – enfraquecido, pronto para
o abate. Precisava saber que Lula vinha com o endosso dos participantes
do Fórum Social. O essencial era Davos perceber que Lula
vinha forte, e não fraco. Foi o que levou Le Monde,
dois dias depois, a chamá-lo de estadista.
Esse é um
contraste com FHC. O ex-Presidente falava em ambientes fechados,
com celulares desligados. Lula falou a céu aberto, num ambiente
de quermesse. Mas o que conta é isso: para tratar do seu
déficit, Lula buscou e conseguiu mobilizar a massa. Falou
em Davos com seu aval. Fernando Henrique, em suas negociações,
nunca mobilizou o povo atrás de si.
Voltemos ao uso presidencial
das narrativas. Recentemente, a Folha de S. Paulo elencou
várias metáforas utilizadas pelo Presidente, argumentando
que – ao assumir o papel de pai, nas histórias que conta
– Lula estaria paternalizando a sociedade brasileira. Ora, essa
é a essência do autoritarismo: o governante dizer-nos
que nos ama mas que não sabemos o que é bom para nós,
o que só ele sabe. Mas essa análise é superficial.
Lula não põe
seus ouvintes no lugar de filhos, mas no de pais. Ele se mostra
pai, falando a pais e mães. Constrói uma empatia em
que todos têm o mesmo papel. É o contrário da
análise citada. Ele compartilha uma identidade. Fala-se muito
no "Lulinha paz e amor" e em marketing político.
O que Lula está fazendo é bem mais que isso. É
uma comunhão, construída no plano afetivo, entre ele
e os cidadãos. Daí que se tenha esvaecido o preconceito
contra sua suposta ignorância. Poucos retomam hoje esse topos,
que o destroçou durante vinte anos. Pai e avô, ele
reparte conosco sabedoria. Não tem doutorado (isto é,
não tem saber), mas tem sabedoria, ou seja, experiência
de vida. Esse modelo de comunicação funciona muito
bem.
Mais uma diferença
entre ele e FHC: cada vez que o ex-Presidente aceitava, por realismo,
um sacrifício a seus ideais ou promessas, ele citava a ética
da responsabilidade, de Max Weber. Penso que esse foi o tema mais
constante de seus discursos: o político, dizia, não
pode considerar só a ética dos princípios,
dos valores, mas também as necessidades, a responsabilidade.
Ele teorizava, lecionava, explicava. Mas assim o déficit
da ação só se justificava aos ouvidos dos raros
ouvintes que reconhecessem seu saber teórico.
Não há
dúvida de que FHC funcionou. Foi eleito e reeleito. Foi popular.
Sua obra de estadista – essa, inegável – foi a calma transição
para Lula. Mas há uma diferença de estilos. O déficit
da prática em relação à fala – que é
o nosso tema – foi sua ferida. Mesmo partidários seus o reconheceram
e lamentaram. Foi o passivo de seu governo. Lula busca fazer disso
um ativo. Promete manter-se fiel aos ideais de sempre, conta histórias,
explica que a ação vai demorar.
Em que consiste esse
ativo? Ele parece estar num registro de comunicação
que prioriza o afeto e não a teoria. Sei que o assunto é
minado. A hostilidade à teoria é uma das grandes características
do fascismo. Mas não estou falando em hostilidade a ela e
sim em outra coisa. Uma das questões que mais me tem interessado
é a do descompasso entre a democracia, como registro da razão,
e um campo dos afetos ainda amplamente autoritário. Não
é casual que os tucanos sejam tão cientistas políticos,
tão racionais – e que a direita brasileira, de Maluf a Antônio
Carlos Magalhães, aposte na afeição autoritária.
A questão
é, então: como fazer que os afetos deixem de ser autoritários?
Como torná-los democráticos? Porque, se a democracia
se sustentar no labor da razão, será fraca. Se precisarmos,
para respeitar o outro, refrear impulsos de violência o tempo
todo, os direitos humanos continuarão débeis. Precisamos
substituir um registro autoritário e reacionário dos
afetos por outro, mais aberto ao outro e à diferença.
Por isso é
interessante que um líder construa um discurso do afeto.
Com FHC, o Brasil apostou num Presidente bem aceito porque inteligente,
professor, cosmopolita – em suma, porque diferente da auto-imagem
nacional. Com Lula, o País tem um Presidente sem inglês
nem diploma, ainda que escolado pela experiência. Mas não
é o encanador contra Sartre, como disse, infeliz, uma atriz
em 1994. É mais sabedoria que saber, mas não sabedoria
contra saber. É mais prática que teoria, mais experiência
que dedução, mas não uma contra outra. O único
contra é o seguinte: uma certa igualdade, entre o
cidadão e o Presidente, substituiu a transcendência
do papel presidencial.
Nada disso é
uma avaliação das políticas do Governo. Discordo
de sua política econômica, mas não é
isso o que importa nesta análise. Quis tratar de uma questão
fundamental: nenhum político cumpre tudo o que disse. A globalização
é hoje o grande limite à independência nacional
e, portanto, à atuação dos líderes políticos.
Mas como um governante lida com a frustração que difunde
por sua ação e inação, por seus atos
e não-atos? Esta é a questão. Cada vez mais,
na democracia, o modo de lidar com a frustração será
decisivo. Lula, sempre que aceita o déficit das ações,
proclama-se ainda fiel a seus ideais. Isso durará? Não
sabemos. O estilo é o homem, diziam os clássicos.
No caso, o estilo é o homem de Estado.
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