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duas éticas ou A ação possível A
modernidade começa com uma desilusão: quando se percebe que do bem
não decorre o bem. Maquiavel faz essa terrível constatação
aquilo que, no plano privado ou pessoal ou religioso1
redundar em catástrofe no campo da política. Alguns dizem que, com
isso, o pensador italiano terá separado a política e a ética,
proclamando a primeira como imoral ou pelo menos amoral. Não é verdade.
Maquiavel mostra-se exigente com o seu príncipe, ou seja, com aquele que
governa os demais homens: nada mais errado do que imaginar as regras que presidem
a sua ação como efetuando uma desqualificação daquela
que seria a verdadeira ética, ou seja, a pessoal ou religiosa. Ninguém
compreenderá nada de Maquiavel, ou da política moderna, se não
tiver isso bem em mente. Podemos, isso sim, falar em duas éticas,
como faz Max Weber, nisso claramente tributário do florentino. O
tema das duas éticas, ou melhor, o da segunda ética, da que o estadista
pratica, tornou-se estes últimos anos um dos tópicos centrais da
fala de um presidente brasileiro formado nas ciências sociais. Ele próprio
um cientista político2,
parte significativa de sua fala consistiu em atacar a ingenuidade daqueles que
pensam que o líder político deveria pautar sua ação
por regras morais. Não se pode dizer que o seu discurso, nesse campo, seja
original: não pretende sê-lo. Ele e seus partidários retomam,
basicamente, o que Weber disse. Isso em nada reduz a importância
de seu discurso. Ao político, não cabe tanto a originalidade, mas
o endosso e a execução. Enquanto no mundo das idéias a novidade,
a originalidade contam enormemente, no da ação o que vale mesmo
é pô-las em prática. O pensador escreve, o político
assina. Os próprios intelectuais têm consciência disso, quando
se cansam de apenas especular e procuram um príncipe um tirano de Siracusa
no caso de Platão, um rei da Prússia para Voltaire, uma czarina
da Rússia para Diderot que converta em carne o seu verbo. A essa busca
geralmente se segue uma decepção, mas nem por isso deixa, quem filosofa
sobre a ação, de procurar aquele que transforme em prática
a sua teoria. Resumindo,
a ética de princípios, que pode ser a do indivíduo privado,
é a mais próxima de uma ética tradicional. Não se
deve, porém, confundi-la com esta última, já que a tradição
consiste em seguir acriticamente uma lista de mandamentos, um gabarito do que
é certo ou errado enquanto uma ética de princípios, ou
valores, supõe que estes tenham sido meditados, ponderados, refletidos,
antes de um sujeito os incorporar e assumir como seus. Mesmo assim, essa ética
está perto da tradição na medida em que atribui aos valores
uma vigência forte, ou até um caráter absoluto. Não
os considera valores apenas porque valem, isto é, porque foram instituídos
por um sujeito ao avaliar o mundo e suas circunstâncias. Essa última
visão, que, simplificando, seria a introduzida por Nietzsche, soa geralmente
fraca, aos olhos de quem defende ou pratica uma ética de princípios.
Com efeito, derivar estes últimos dos interesses, vontade, desejos ou mesmo
da consciência dos homens reduz-lhes o caráter normativo. Já
a ética da responsabilidade é aquela que se aplica na política
não: melhor dizendo, é aquela que vale sobretudo para quem age
politicamente. (Agir politicamente, isto é, levando em conta as relações
de poder, pensando na construção do futuro, pode fazer-se também
fora da esfera usual da política: posso agir politicamente na minha
vida pessoal, por exemplo). Essa ética é muito mal compreendida
pelo grande público. O maior erro a seu respeito consiste em entendê-la
como uma não-ética. Na política, tudo seria válido,
já que validado pelos resultados. Mas não é assim que funciona
esse tipo de ética. Essencialmente,
trata-se de uma ética da ação política, mais
que da instituição política. Das instituições
e da ação, já tratamos, ao desenvolver uma oposição
entre Mandeville e Maquiavel. O pensador florentino priorizou a ação.
Seu mundo é plástico, em constante mutação. É
visto do ângulo do indivíduo criativo (e aqui Burckhardt o captou
muito bem, ao vincular a Renascença à figura do condottiere,
do guerreiro quase sem princípios que plasma o seu mundo). Já o
inglês, autor da Fábula das abelhas, confere menor importância
ao agir, e maior ao modo pelo qual este se desvia em instituições.
Não
é esse o mesmo modo pelo qual Mandeville abre o mundo moderno. (Assim como
se fala, em xadrez, de tal ou qual "abertura", diríamos que existem,
nesta partida que é a modernidade, uma abertura Maquiavel e uma abertura
Mandeville). O italiano enfatiza ações que procuram produzir determinados
fins. Se não os produzem, isso se chama fracasso. César Borgia assim
fracassou. Nem por isso, será ele menos digno de nossa admiração
sempre segundo Maquiavel. César Borgia bateu-se e fez o que pôde
(ou quase). De todo modo, a medida da ação está na produção
direta de seu resultado. Já
Mandeville se interessa por outra coisa. O seu ponto é como ações
que visam a um fim, este não político, mas privado, econômico,
interesseiro, egoísta3,
podem ser canalizadas de modo a produzir indiretamente fins que, do ponto de vista
social, sejam positivos. Por isso, seu problema é o da canalização,
isto é, o das instituições que desviam o rumo consciente
dos atos. Nesse sentido,
Mandeville pretende exatamente o contrário de Maquiavel. Para este último,
o importante era preservar o sentido das ações. Bom seria que as
ações de César Borgia, orientadas para a conservação
de seu poder, dessem certo. Já para Mandeville, o importante é desviar
o sentido dos atos. Bom será que o egoísmo e a ganância de
cada indivíduo resultem em outra coisa, em livre concorrência,
em progresso econômico. O
ponto de vista do indivíduo, e de sua ação, é o óculo
ideal de Maquiavel (evidentemente, o do indivíduo chefe, líder,
estadista ou pelo menos conquistador). Para Mandeville, porém, é
fundamental desfocar esse ponto de vista, seqüestrar, de seus autores, os
atos. Por isso, enfim, o resultado dos atos fica, para Maquiavel, aquém
deles, raras vezes lhes emulando o alcance político ao passo que, em
Mandeville, o resultado vai além do ato, conferindo-lhe uma dimensão
bem maior do que poderiam ter. Essas
diferenças entre os dois grandes mestres do xadrez político obedecem
a uma diferença anterior e fundamental. Para Maquiavel, a ação
e seu resultado compartilham um sentido político. César Borgia
agindo, e o resultado histórico de suas ações, das de seus
contemporâneos e ainda da fortuna, são, tudo, política.
Já para Mandeville, a ação e seu resultado diferem radicalmente
quanto ao sentido. A seu ver, nem a ação individual nem seu fruto
histórico são políticos. Ocorre nele um esvaziamento
significativo do teor político da vida. (E é a onipresença
do político em Maquiavel que permite uma leitura recente, que enfatiza
seus vínculos com o humanismo cívico). Em
Mandeville, a ação é radicalmente privada. Não é
privada apenas porque se dá no recesso do lar, no íntimo da consciência,
no cerne do coração. É-o porque somente busca interesses
pessoais, agressivos em relação aos outros. É privada, até,
na valoração má e negativa do termo. Evidentemente, o autor
não quer com isso afirmar que o homem seja mau. Tomar o privado
enquanto mau é um recurso argumentativo muito inteligente, pelo qual Mandeville
implica o seguinte: se o que afirmo vale até para o pior, até para
o mau em estado puro, valerá muito mais para quem é neutro eticamente
ou mesmo bom4.
De todo modo, ainda que a ação seja privada e egoísta, seu
resultado é social. Dos
dois grandes exemplos de Mandeville, um reza que da ganância de cada um
decorre a concorrência capitalista, o outro que da prostituição
no porto de Amsterdam se segue o respeito à virtude das matronas e donzelas5.
Nos dois casos, não só o móvel da ação individual
(busca desenfreada do ganho econômico, desejo sexual do marinheiro, desejo
de ganho ou indecência das prostitutas) não é político,
mas também o resultado é social e não político.
O esvaziamento do político significa, aqui, que a sociedade passa a ser
pensada em termos, digamos, próprios, de seu funcionamento, e não
mais como fruto de uma ação plasmadora do mundo. A sociedade é
despolitizada nas suas causas e nos seus efeitos. Maquiavel
teria dificuldade em aceitar esses termos. Para ele, a construção
da casa comum dos homens passava por uma ação que lhe imprimisse
uma forma. Era essa ação o que mais lhe importava. Aqui, porém,
a construção prescinde dos atores ou das ações melhor
dizendo, não prescinde deles, mas se faz mediante um desvio significativo
em face da consciência ou do anseio que os movesse a agir. Ora,
o importante para Mandeville é justamente esse desvio. O decisivo, para
ele, é estabelecer claramente tal desvio. "Vícios privados,
benefícios públicos" assim significa que o ponto de vista do
indivíduo, ou de sua consciência, se torna insuficiente para se entender
o funcionamento do social. Além disso, e de forma nada acessória,
por essa via o social substitui o político e um social no qual
a economia desempenha papel fundamental. Dessas
duas distintas aberturas, decorrem duas maneiras bastante diferentes de jogar
a política. Se abrirmos com Mandeville, estaremos considerando a vida social
como barata, e nos contentaremos com o papel de indivíduos procurando seu
bem pessoal, e produzindo a vida social como que por acaso. (Evidentemente, toda
a genialidade desse jogo está em fazer passar por acaso aquilo que não
o é; em construir uma teia de relações que produza o social
enquanto almejamos o particular). Se
abrirmos, porém, com Maquiavel, estaremos considerando o social como resultante
do político. Reabilitaremos a ação política, seja
esta a do estadista, seja a do opositor. O governante e o rebelde compartilham
essa ética: veja-se por exemplo o que diz Julien Sorel, numa passagem
dO vermelho e o negro, de Stendhal, em que ele exalta o líder político
que talvez tenha sido quem mais, ou melhor, mesclou os papéis de chefe
revolucionário e de dirigente no governo: "-
Danton fez bem em roubar? perguntou-lhe ele bruscamente [isto é, perguntou
Julien Sorel a Mathilde de la Mole], e com um ar cada vez mais feroz. Os revolucionários
do Piemonte, da Espanha, deviam comprometer o povo com crimes? Dar a pessoas mesmo
sem mérito todos os postos do Exército, todas as cruzes? As pessoas
que tivessem essas cruzes não temeriam a volta do rei? Dever-se-ia saquear
o tesouro de Turim? Numa palavra, senhorita disse, aproximando-se dela com um
ar terrível , o homem que quiser expulsar da terra a ignorância
e o crime deve passar como a tempestade e espalhar o mal ao acaso?"6 Basta
essa passagem que, observemos sem nos determos, no romance exerce o decisivo
papel de consumar o enamoramento de Mathilde por Julien, ao perceber ela que lida
com um homem superior, cujos devaneios não se limitam aos da vida privada,
mas se alçam a questões das mais relevantes para a época
, basta essa passagem para mostrar que a ética da responsabilidade não
é apenas a do governante. É também a do rebelde, seja ele
Danton, seja Julien Sorel. É a de todo aquele que vê o social como
podendo e/ou devendo ser plasmado por uma ação criadora e pouco
importa se esta é a do indivíduo ou a do grupo. A essa ação
que cria o social, cabe chamar de ação política. É
política assim a ação que assume como seu o ponto de vista
da criação, que pretende moldar, criar, o social. Há política
quando nos fazemos sujeitos de uma realidade, isto é, quando não
a tomamos por dada, ou por independente da ação humana, mas a concebemos
como resultando dessa ação e, melhor ainda, nos propomos a agir,
moldando o mundo. Para se definir a ação como política, não
tem mais valor falar ex parte principi, falar do lugar do príncipe
nem do do revolucionário, que contesta aquele a fim de lhe ocupar a posição.
O que importa é, pois, uma atitude criativa, de quem se torna sujeito de
sua vida, e não mais o lugar: a postura, e não a posição,
eis o que conta. Sai-se de uma idéia de poder delineada a partir de um
espaço, de um território, mais ou menos estáticos, e passa-se
a uma política que tem mais a ver é com uma atitude, com um enfoque,
com o rumo de uma ação. (...) NOTAS 1
É óbvio que esses adjetivos não são sinônimos.
Mas, para o que nos interessa, estão bastante próximos, sendo sua
diferença sobretudo de ênfase: no caráter religioso
(e portanto algo altruísta) ou pessoal (e quem sabe egoísta) da
boa conduta. 2
O nome de "príncipe dos sociólogos", dado por alguns a Fernando
Henrique Cardoso, tem mais a ver com o constante trânsito interno entre
as várias ciências sociais, do que com uma denominação
precisa de área. 3
O que não significa que a ação política seja necessariamente
desinteressada, altruísta. 4
Esse modo de argumentar aparece já no rei Jaime I da Inglaterra, quando
mostra como mesmo o mau rei detém um direito divino: se a legitimidade
cabe até para o tirano, o monarca que não segue o bem, quanto não
valerá para os bons reis? Cf. meu Ao leitor sem medo Hobbes escrevendo
contra o seu tempo, 2a edição, Belo Horizonte, Editora
UFMG, 1999, cap. V, esp. p. 147-49. 5
Mandeville, The Fable of the Bees, respectivamente notas G e H na edição
da Penguin, que é a que utilizamos, p. 118-30. 6
Parte II, cap. 9, p. 287-8 da ed. Abril, 1971, na trad. de De Sousa e Casemiro
Fernandes; p. 228 do original francês, na ed. Lintégrale. | | |