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| | a a Este
trecho faz parte do livro A marca do Leviatã
(Ateliê Editorial, 2003). Este ι o meu primeiro livro, que escrevi em
francκs, aos 23 anos, para defendκ-lo como mestrado na Sorbonne, em 1973. | | O
palco do poder Se
no tempo, como no espaço, houvesse graus de alto e baixo, acredito firmemente
que o mais alto de todos os tempos seria o que transcorreu de 1640 a 1660. Pois
quem nele se postasse, como na Montanha do Diabo para olhar o mundo e observar
as ações dos homens, especialmente na Inglaterra, poderia descortinar
um panorama de todas as espécies de injustiça e de todas as espécies
de loucura que o mundo possa tolerar, e de como foram produzidas pela hipocrisia
e vaidade (self-conceit),
sendo aquela dobrada iniqüidade e esta dupla loucura. Behemoth,
Diálogo I, p. 1. Em
latim persona significa o disfarce, ou a aparência externa
de um homem, contrafeita no palco; e, às vezes, mais especialmente aquela
parte que disfarça o rosto, como uma máscara ou viseira: e do palco
[esta expressão] foi transladada a qualquer representante de discurso e
ação, tanto em tribunais como teatros. De modo que uma Pessoa
é o mesmo que um Ator, tanto no palco como no convívio
quotidiano. Leviathan, cap. XVI, p. 801. Toda
a empreitada de Hobbes trava-se no vão entre duas formas de teatro, as
que se opõem nas epígrafes abrindo uma o relato da guerra civil,
preparando a outra a criação do Estado: o olhar altivo e algo zombeteiro
do filósofo sobre a "comédia humana", sobre este "espetáculo
do mundo" que Satã descortinou a Jesus do alto da Montanha do Diabo2;
e a constituição da sociedade política por um contrato que
institui a representação dos súditos por seu soberano, tornado
superfície de inscrição3
sobre a qual se rebate todo o sistema social. Sempre presente, a clivagem entre
o palco e a platéia: enquanto se trata do exame, que compete à ciência
da política, das paixões desenfreadas no palco do mundo durante
a guerra civil, a partição faz-se pelo olhar; entre a comédia
do homem finito e o espectador abre-se o fosso da não-fascinação,
banindo toda tentação de voyeurisme, ao avesso desse pacto
de fé no qual Sartre fundamenta as relações entre o escritor
e o público, desse contrato de ficção4.
Pois essa é a distancia da ironia que, misto de pessimismo e humor, transforma
em crítico esse espectador: a distância que abre espaço para
o saber. E a geografia da nascente ciência política exige, para dar
ao poder a máxima eficácia, a posição montanhosa,
a alteza. A
clivagem também está presente à fundação do
Estado: mas aí o que separa o palco da sua alteridade não é
mais o olhar, é o fazer. A ação prevalece agora sobre tudo
e, se restam homens e possivelmente muitos ausentes do palco, estão
privados de toda escolha entre a fascinação e a crítica,
e mesmo de todo olhar: perderam esta liberdade do olho que define o lugar do espectador.
A divisão faz-se agora em sentido contrário, deixa de privilegiar
o espectador e favorece o palco, que não mais precisa justificar-se mas
torna-se juiz. A platéia é abolida desde que o Ator encarna em si
todos os súditos, e seus atos não se destinam mais à contemplação,
somente à eficácia. A distância entre a cena e seu outro não
distingue mais a produção e o juízo emitido sobre ela: esta
clivagem da não-produção permitia a multiplicação
infinita das interpretações, um tal borboletear dos signos que fazia
esquecer a marca originária e dava lugar à rebelião. Agora
nada mais escapa à dominação: distância só há
entre o senhor e seus súditos, no interior do espaço produtivo,
sem santuário nem pique. Propomos
chamar esse teatro do poder de Estado um teatro5
da produção, opondo-o ao palco regido pelo olhar; aqui, nenhum texto
vem determinar nem prever os atos do soberano, o ator cria a seu prazer, limitando-se
o autor a endossar de antemão todas as ações daquele. Lugar
de condensação das forças, espaço de produção
do Evento, o palco a cena não é mais esta míngua franja
entre o olhar e a escritura, entre o texto autoritário e o espectador-juiz. Morreu
o espetáculo, porque suprimidos os espectadores todos os "outros"
do palco estão nos bastidores, ou no coro que repete e prolonga os atos
do Soberano, que é o Ator. A produção assim recupera suas
cartas de nobreza; pois, enquanto a partição obedecia ao olhar e
aproveitava ao espectador, o produtor do político era reduzido à
reiteração, à repetição inconsciente de atos
semelhantes, conforme um ciclo entrevado de não-saber e revolta. A distância
anistiava o crítico de toda fascinação; na diversidade dos
atos-produtos esse homem do juízo raríssimo em meio à guerra
civil, na qual para um Hobbes há milhares de ideólogos... via
apenas as miragens da aparência e da irrisão, atrás das quais
lhe competia encontrar a lei e o sério que lhe mostram uma explosão
que se prepara, que dele exigem o imediato encontro e adoção de
um remédio6. A
atitude do crítico pressupõe um roteiro por trás dessa
multidão de atos, um texto oculto (e quem sabe um autor oculto, Deus...),
e que é preciso desvendar. Em suma, essa distância de não-produção,
esse desdém do agir são a recusa do espectador a participar dessa
produção de guerra e morte com que se depara; o crítico,
protegido por seu fosso de ironia7,
vai encetar uma produção de marcas, construindo passo a passo a
ciência que permita instaurar o Estado ideal, condição de
possibilidade da verdadeira produção. Que não estará
na retired life8
de um cândido seiscentista, mas no núcleo mesmo do Estado: produção
de vida, princípio de realidade que se impõe ao suicida princípio
de prazer, para que a existência terrena adquira a duração. Dois
teatros, duas formas diferentes e contraditórias da alteridade, e contudo
coexistindo e mesmo produzindo, por sua tensão, uma obra. Deve-se dar uma
função pedagógica ao teatro do olhar, para forçar
o advento do teatro da produção. A errância do olhar é
o índice, e talvez a causa, desta fissura na produção social
na produção de sociabilidade que é a latência da
guerra civil . Mas há que distinguir dois olhares: o regicida dos presbiterianos,
a visão hobbesiana compondo um sistema político coerente e consistente.
Se o homem precisa do Estado, é porque naturalmente tende a fazer a guerra;
herança do pecado original, isto é, do desejo de ter a "ciência
do bem e do mal"9,
desejo este que inimiza os homens, cada um alegando conhecer melhor que os outros
o que são bem e mal. Este primeiro saber já é maldito, fruto
da mentira demoníaca; seu preço é o Eden. Ora, no discurso
bíblico, contrapõem-se duas aparições do diabo, em
lugares estratégicos, uma no começo do Velho Testamento,
outra perto do início do drama do Novo Testamento: a sedução
de Adão e Eva, a tentação de Jesus Cristo. A eloqüência
do diabo, que perdeu o homem, falha junto a Cristo: e este só se submete
para recusá-la à sedução porque intenta devolver
à criatura a salvação perdida com a sujeira primordial. Aceita
subir à Montanha do Diabo, mas o que vê apenas lhe confirma as certezas.
O demônio oferece-lhe o saber e a posse do mundo; Jesus toma o olhar, mas
só para privá-lo da sedução. Daí brota um saber
purificado, opondo-se à "ciência do bem e do mal",
ao logro que lançou o homem no seu estado atual. O uso freqüente da
metáfora e citações bíblicas deve ser levado muito
a sério na obra de Hobbes a sua ambição compara-se à
missão de Cristo e consiste em trazer aos homens esta espécie de
salvação terrena que é a paz dentro do Estado10. Este
saber depurado (a filosofia hobbesiana, que não é uma moral mas
uma política, que não divide os atos consoante o bem e o mal mas
descreve a origem mesma destas noções) é o único verdadeiro,
isto é, o único que pode impor a paz às sociedades humanas.
Não é um conhecimento maldito, como a maçã comida
no Éden; em vez de interiorizar o seu objeto devorando-o, o saber adquirido
na Montanha é um puro olhar, que mantém ou antes cria a total
exterioridade entre o sujeito e o objeto. Possuir o mundo é uma questão
posterior e separada de vê-lo: é possível estudar o mal sem
tocá-lo, mantê-lo longe. O olho sabe por divisões, hierarquias,
sem seduções, ao contrário da boca promíscua. Se a
guerra civil fez proliferarem as tentações, forneceu também
um magnífico laboratório de análise: e só ao cientista
cabe ler o mundo acusando as suas ciladas. A independência do olhar coincide
com o afrouxamento da ordem causado pela revolta; mas é possível
usá-la terapeuticamente. O
próprio Hobbes é possível e necessário enquanto contrapeso
remédio do monstro Behemoth11.
O que não significa que o bom andamento da política baste a si mesmo,
que no Estado bem regrado o funcionar torne inútil todo enunciado a respeito
do poder político; ao contrário, uma das causas da guerra civil
inglesa foi precisamente que "as pessoas em geral estavam tão ignorantes
do seu dever"12,
e é culpa do soberano se os súditos desconhecem suas obrigações
face ao poder. Toda a diferença, a este respeito, entre o Estado desordenado
(ou a rebelião, que apenas explicita a desagregação antes
latente) e o Estado bem regrado, é que, "hoje", Hobbes ainda
tem que fundar os seus preceitos sobre a razão, enquanto no bom regime
o soberano dará ao mesmo texto a sanção, mais séria,
do mando. A teoria visa a tornar-se código ou doutrina. É o que
explica a existência no Leviathan, no De Cive, no De
Corpore Politico de duas ordens diferentes de argumentações
que se recobrem e completam para chegarem às mesmas conclusões:
a seqüência dos "teoremas referentes ao que conduz à conservação
e defesa" dos homens, estabelecidos pela razão, e o encadeamento das
leis "como estabelecidas pela palavra de Deus, que de direito manda todas
as coisas"13,
e que conhecemos através das Escrituras. Um dos deveres dos soberanos é
justamente enunciar, enquanto leis, esses teoremas, e fazê-los pregar aos
súditos nas universidades e templos14. Assim,
o discurso científico de Hobbes, centrado na função referencial
da linguagem, abre caminho para ceder-lhe o seu lugar à fala conativa
do soberano-pedagogo15.
A ciência é o anticorpo criado pela organização da
humanidade contra a guerra civil; seu advento é contingente, na encruzilhada
do método galilaico e da guerra intestina16.
Aí reside a grande diferença de Hobbes e talvez da teoria política
clássica face a um Hegel, para quem a teoria tem a sua data necessária
de aparição. NOTAS 1
Texto em que Hobbes mostra como se constitui o Estado: pela delegação
dos poderes dos homens separados àquele que assim se torna o seu soberano. 2
Evangelho de São Lucas, cap. IV, vv. 5-8: "E o demônio
o levou a um alto monte, e lhe mostrou todos os reinos da redondeza da terra em
um momento de tempo. E lhe disse: Dar-te-ei todo este poder, e a glória
destes reinos, porque eles me foram dados, e eu os dou a quem bem me parece. Portanto,
se tu na minha presença prostrado me adorares, todos eles serão
teus. E respondendo Jesus, lhe disse: Escrito está: Ao Senhor teu Deus
adorarás, e a Ele só servirás". Cf. também São
Marcos, cap. I, vv. 12-13, e São Mateus, cap. IV, vv. 1-11. 3
Conceito introduzido no Anti-Édipo, de Gilles Deleuze e Félix
Guattari, cap.
I. 4
Em Quest-ce que la littérature? 5
Note-se que só justificamos aqui termo "teatro" enquanto designa
uma representação dos súditos por seu soberano. Leviathan,
cap. XVI, p. 80. 6
A relação entre Hobbes e seu leitor, sugere Watkins (Hobbess
System of Ideas, p. 79), lembra o contato do instrutor de xadrez com seu aluno:
o filósofo mostra aos cidadãos que seus primeiros lances (o fortalecimento
do poder parlamentar) desembocam necessariamente nos males terríveis da
guerra civil. 7
Seria interessante um estudo lingüístico das "rupturas"
da seqüência teórica no discurso hobbesiano como o susto do
Advogado no Dialogue between a Philosopher and a Student of the Common Laws
of England, p. 402: "ADVOGADO Ninguém está nos escutando
detrás da porta? FILÓSOFO Do que o senhor tem medo?"
Só uma vez, nesse diálogo, a discussão teórica sofre
um corte, e a sua causa é o medo, esta paixão fundante do pacto
social; desnecessário dizer que nenhuma das duas perguntas a que se lançam
os interlocutores receberá resposta. 8
Hobbes nega que a monarquia vincule a sorte de cada um ao capricho do rei: "Quem
quer que leve uma vida retirada numa monarquia, seja quem for o rei, não
corre nenhum perigo". De Cive, cap. X, § 7. 9
O episódio de Babel responsável, segundo Hobbes, pela perda da
linguagem primeira, dádiva de Deus aos homens (Leviathan, cap. IV,
p. 12) pode ser compreendido como um desdobramento da expulsão do Paraíso.
A mesma criatura que almejou conhecer o bem e o mal, e com isso violou as ordens
de Deus e provocou a sua cólera, tenta agora atingir o Céu pela
prótese de uma torre enorme: novo desafio lançado ao Criador (desta
vez a instigação do diabo nem foi necessária, pois o homem
já pecou) e novo castigo divino. Assim como o Estado só é
necessário porque o homem perdeu paz e plenitude, nossas línguas
atuais são males menores, sucedâneos medíocres, perante a
linguagem primeira de origem divina. 10
O longo debate, iniciado imediatamente após a publicação
das primeiras obras de Hobbes, sobre o seu "ateísmo", parece-nos
hoje resolvido em favor da sinceridade de sua fé. Não nos percamos:
não se trata de inquirir a consciência de um morto; está em
jogo o lugar mesmo de Deus na filosofia política. Examinando a filosofia
natural de Hobbes, Leo Strauss concluiu pela inutilidade de Deus no sistema: "Qualquer
que tenha sido a sua opinião íntima, a sua filosofia natural é
tão atéia quanto a física epicuriana" (Droit naturel
et histoire, p. 185). Contudo, o que melhor manifesta o caráter necessário
de Deus são os capítulos sobre a normatividade e os deveres do soberano.
A filosofia natural talvez independa da garantia divina, a filosofia política
a mais importante para Hobbes não pode dispensá-la. Assim pode-se
entender o recurso às citações bíblicas que ocupam
cerca de terço da obra hobbesiana como algo diferente de uma cilada;
e compreende-se o misto de messianismo e cientificismo que definiam, para Hobbes,
a sua ambição filosófica. Cabe uma citação
de Bakúnin: "Se a Igreja, segundo dizem os padres e a maioria dos
estadistas, é tão necessária à salvação
da alma, o Estado, por sua vez, é igualmente necessário à
conservação da paz, da ordem e da justiça". A Comuna
de Paris e a Noção do Estado, p. 218. 11
O Leviatã (o crocodilo) e o Bebemoth (o hipopótamo) são dois
monstros bíblicos referidos no Livro de Jó, 40. O primeiro
representa, para Hobbes, o absoluto poder do Estado, garantia da paz; enquanto
Behemoth ou o Longo Parlamento é o monstro indomável da guerra
civil. 12
Behemoth, cap. I, p. 4. 13
Leviathan, cap. XV, p. 80. 14
Idem, cap. XXX, p. 179. 15
Ver o cap. II para o uso destes conceitos, definidos por Roman Jakobson. 16
Hobbes dizia que apenas dera uma nova fundamentação, assentada nos
métodos da física moderna, às verdades enunciadas sobre a
política nas Escrituras. Tema controverso: não retomaremos a questão
do ateísmo; apenas lembraremos que a leitura que Hobbes fazia da Bíblia
não era a mesma da Dinastia Stuart. A divulgação de suas
doutrinas irritou os emigrados realistas exilados em Paris em torno do Príncipe
de Gales (futuro Carlos II), especialmente por recusar a origem divina do poder
político e admitir outros regimes que não a monarquia absoluta (por
exemplo, a democracia, de que falaremos no cap. III). Demitido do posto de preceptor
de matemáticas do príncipe, Hobbes decide exilar-se dos exilados
e volta para a Inglaterra em 1651, onde se submete a Cromwell. | | |