Temos falado de ética. Mas a ética
encontra um grande problema em nosso tempo: é que condutas que eu acho honestas,
corretas, certas, são consideradas por muitas outras pessoas como
desonestas, más, erradas. Falei do aborto em semanas passadas,
mas isso vale para muita coisa, a começar pelo que diz respeito
ao amor e ao sexo.
Muitas pessoas, corretíssimas em
tudo o mais, passam em algum momento da vida por uma ruptura e
recomeço de relação. Elas estão casadas e, de repente, se apaixonam.
Vivem, por um tempo, na mentira e no engano. Depois, se tiverem
sorte, iniciam uma nova relação.
Serão fiéis e quererão que o novo
companheiro também seja fiel. Isto é, pedirão do novo relacionamento
o que negaram no anterior. Quer isso dizer que são hipócritas?
Não necessariamente. Se tiverem um mínimo de dignidade, sentirão
que estiveram numa situação difícil, sofrerão, tentarão reduzir
os danos que causaram ao antigo parceiro.
Pois é disso que se trata: os ideais,
hoje, nem sempre funcionam. Há rachas na sociedade, e um dos principais deles diz respeito ao sexo.
As atitudes em relação à sexualidade vão da promiscuidade irresponsável, passando
pela busca do prazer mas com responsabilidade, e pelo amor sexuado entre
pessoas que não precisam estar casadas mas são fiéis uma à outra, até a castidade
dos solteiros e mesmo a aversão ao sexo. Não dispomos de consenso
a este respeito, e cada um destes grupos se acha ético no que
faz. Como, então, ficamos?
Numa sociedade complexa como a nossa,
o acordo sobre os valores se torna problemático. Vá lá que isso sempre aconteceu, e o que para uns é crime
– por exemplo, a invasão de uma fazenda – para outros é legítimo
direito de lutar pela vida e mesmo pela sobrevivência.
Mas numa sociedade democrática as
diferenças entre os valores se tornam maiores, e com isso se mostra
impossível chegarmos a consensos morais. Por isso, quando pedimos
ética na política, ou na sociedade, às vezes estamos pedindo o
impossível, ou aquilo que nós mesmos não queremos, porque há o
risco de junto com a honestidade dos políticos – por exemplo –
vir o moralismo sexual, ou sei lá o quê.
Daí, uma idéia que cresce nos últimos
anos, e que é a da redução de danos. Não vou tratar dela tecnicamente.
O que importa é que se renuncia à pretensão de impor plenamente determinados
valores morais, e em vez disso se procura apenas diminuir o desastre.
Penso que o direito ao aborto faz parte desse pacote. Já comentei
que ninguém é “a favor” do aborto, mas apenas a favor do direito
de que as mulheres, em certos casos, decidam se querem ou não
abortar; e, mesmo entre as que abortam, pouquíssimas o fazem sem
dramas de consciência ou sem sofrimento psíquico.
Mas há outros exemplos. A droga é
um caso típico de redução de danos. Por que tantas pessoas, que
não se drogam nem têm simpatia alguma por drogas, querem descriminalizar
o usuário? Vejamos suas razões.
A primeira é que a repressão à droga é quase inviável. Tornou-se
enorme o número de pessoas que as utilizam. A esmagadora maioria
delas, além disso, não causa mal nenhum com seu hábito. Pouquíssimos
usuários da maconha produzem danos à sociedade. Portanto, a pena não tem nada em comum com
o suposto delito.
Uma segunda razão é mais grave: é
que certas proibições levam à corrupção no aparelho policial. Por isso, fica pior
reprimir do que tolerar. Toda sociedade
assim admite, na prática, certas condutas que na teoria ela desaprova. E a principal razão para isso é que o custo
de punir se mostra alto demais.
Vejam-se os Estados Unidos. Eles
têm cerca de um por cento de sua população na cadeia. Essa proporção é de longe a mais elevada
em qualquer país democrático. Além disso, como a repartição dos
presidiários varia em função da classe
social, da cor da pele e da idade, isso significa que mais da
metade dos jovens negros do sexo masculino passou ou passará pela
prisão.
O custo social disso se revela assustador.
Uma guerra civil latente pulsa nos Estados Unidos. Não seria melhor
encontrar penas alternativas à prisão para boa parte deles ou, mesmo, perguntar se certos
crimes não deveriam sair do código? Porque na verdade não é só
na polícia que ocorre, então, a corrupção. É na sociedade como
um todo.
A corrupção deixa então de ser apenas
o furto de dinheiro público, como hoje ela é entendida. A corrupção
volta a ser o que era no passado, isto é, a degradação de todas
as relações. O que é uma família na qual provavelmente metade dos homens esteve, está ou estará na cadeia
em algum momento? Que educação assim se dá aos filhos?
Reduzir os danos é, então, fazer
um cálculo: em certos casos, punir o crime com rigor é a pior
solução. Mas isso não quer dizer que devamos fazer, simplesmente,
vista grossa ao delito. O melhor é retirá-lo do código penal,
ou substituir o tipo de pena. Devemos parar de pensar só em cadeia
como castigo.
Mas, como aqui estamos falando em
ética, e não em lei penal, precisamos ir mais longe. O que faz que cada vez mais pessoas
que estudam o crime pensem em punir menos, em vez de punir mais?
Há um velho ditado, que é “Fiat lex (alguns dizem: Fiat justitia),
pereat mundus”. Em português, seria “faça-se a lei (ou a justiça),
ainda que pereça o mundo”. É um adágio irônico, que mostra que
a aplicação rigorosa demais das leis pode gerar problemas vultosos.
Ou seja, em muitos casos pode ser
tão nocivo exagerar no cumprimento da lei quanto desobedecer a ela. Mas a razão dos que
defendem uma redução dos danos, em vez da observância estrita
da lei, é que não podemos ter um ideal de condutas perfeitas.
Não só porque os humanos não são perfeitos mas, sobretudo, porque
os modelos de perfeição são bastante duvidosos.
O que, para terminar, significa que
numa sociedade democrática, dividida em grupos que sustentam valores
diferentes mas coexistem em certa paz, não é possível (nem seria
bom) ter um ideal muito estrito de bem. Aquilo que eu chamo de
bem, de ideal ou de perfeição está longe de ter as mesmas qualidades
para o outro.
No fundo, se eu decido reduzir os
danos, em vez de impor ao outro os meus valores morais, não é
por preguiça nem por complacência. É porque
percebo que não dá para ter uma única visão de mundo. E neste
sentido a redução de danos deixa de ser, apenas, a busca de um
mal menor. Deixa de ser a renúncia ao bem. Torna-se, isso sim,
a renúncia ao bem propriedade privada minha, à minha pretensão de ser dono da verdade. E
é bom para a sociedade que as pessoas não queiram ter, sozinhas,
toda a razão.