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Os
telejornais segundo a ética Devemos
discutir os jornais da TV segundo a ética? Pouca gente dirá que
não. Mas podemos dizer que eles sejam éticos? É difícil.
Infelizmente, porém, quando se critica a telinha, a ética que se
invoca geralmente não vai além de um pudor em relação
ao sexo. Neste ponto, aliás, duas culturas tão diferentes, como
a da direita e a da esquerda, até parecem convergir. Ambas criticam o número
de peladas e de musculosos na TV. Só que a direita protesta contra uma
sexualidade que não passa mais pelo casamento, enquanto a esquerda reclama
da banalização do sentimento e do desejo, reduzidos a bens comerciais.
Na
verdade, não há acordo possível, aqui, entre direita e esquerda.
Para os conservadores, falar de sexo é um mal. Para os progressistas, o
mal não está em falar dele, mas em expô-lo como mercadoria.
Seja como for, para a direita a indecência na TV reside no sexo, e para
a esquerda na violência. Mas não é nos noticiários
da televisão que aparecem peladas ou tiroteios. Então,
como ficam os telejornais? Até a recente intromissão do Big Brother
Brasil no Jornal Nacional, o sexo era praticamente ignorado neles.
A violência também não é sua marca registrada, pelo
menos se pensamos nos noticiosos propriamente ditos – deixando de lado programas
diretamente voltados para a (in)segurança pública, como Cidade
Alerta, Linha Direta e alguns mais. E assim a discussão ética
sobre o noticiário é diferente da habitual. Não mexe com
o público, não açula senhoras de Santana (para os mais jovens:
foram um grupo de pessoas que, no fim da ditadura militar, protestaram contra
o sexo que começava a aparecer na TV: o país sem liberdade, e elas
preocupadas com peitos). Por isso mesmo – porque a multidão não
sabe que noticiosos devem ser éticos –, é importante discuti-los. A
questão ética, sobre os noticiários, está na qualidade
da cobertura e na diversidade dos pontos de vista. Qualquer estudante de comunicações
sabe que não há objetividade pura: que mesmo um retrato privilegia
pontos de vista, enfoques, excluindo outros. E no entanto não dá
para fazer bom jornalismo sem acreditar que seja possível uma certa objetividade.
É uma crença insustentável segundo a boa filosofia, mas imprescindível
para fazer uma boa reportagem. Essa fé impõe obrigações
ao jornalista. Ele deve admitir que, mesmo nos casos mais escabrosos, haja um
outro lado – o qual deve ter seu lugar na página ou na tela. Deve repelir
imagens degradantes ou abjetas. Deve evitar a linguagem indignada. Deve, enfim,
desconfiar da unanimidade, que é inimiga da reflexão. Importante:
estes são princípios tanto da ética quanto do bom jornalismo.
A ética, longe de contradizer a qualidade digamos técnica da cobertura,
é essencial para ela. E isso porque nela está o cerne da relação
entre o jornalista e seu público. A missão do jornalista contém
forte elemento ético. Ele desfruta de uma série de liberdades ou
privilégios (por exemplo, o de ocultar suas fontes) mas nunca em seu nome
pessoal, e sim no de seu público. É só isso o que justifica
condutas inaceitáveis no convívio social, como – para dizer o mínimo
– telefonar às pessoas em lugares e horários impróprios.
Pois bem, se a ética está no cerne da qualidade jornalística,
que dizer de nossos telejornais? É
óbvio que eles são deficientes tanto no plano ético quanto
no técnico – que, insisto, estão bem próximos. Os telejornais
não enfrentam o poder político e o econômico. Estão
aquém da própria sociedade brasileira. Com dificuldade, nosso país
está construindo uma democracia, quer no plano das instituições,
quer no das relações pessoais e dos costumes. Isso significa aceitar
melhor o outro, enfrentar a injustiça social. A boa notícia é
que está desaparecendo, da consciência popular, a crença de
que seria legítima a enorme desigualdade que existe aqui. Este é
um primeiro passo para que acabemos com a miséria. Mas a televisão
contribui para isso? Não, pelo menos nos principais canais. Mal se discutem
as causas da miséria. Nos
primeiros anos do regime civil, no final da década de 80, era engraçado.
Ás oito da noite, o Jornal Nacional mostrava políticos, em
geral nordestinos, que depois de servir a todos os ditadores se haviam reciclado
com a volta da democracia. Apareciam como grandes homens da República.
Meia hora depois, a principal novela da mesma rede Globo – por exemplo, Roque
Santeiro – expunha clones deles (um destaque, Sinhozinho Malta) como emblemas
do que há de pior em nossa sociedade. Esse padrão – o noticiário
que fazia a pior ficção, mentindo, em contraponto à novela,
que era ficção no varejo mas dizia a verdade no atacado – deve ter-nos
enlouquecido um pouco. Como pode a reportagem mentir, a ficção ser
veraz? Como podemos assim trocar os sinais da verdade e da invenção?
o lugar do jornalismo e o do entretenimento? Hoje
sumiu, dos noticiários nacionais, embora não dos locais, a louvação
aos egressos do regime militar, aos coronéis da política. (Eles
também foram sumindo, nos últimos doze meses, da política
propriamente nacional. As lideranças mais conservadoras se conservam poderosas
em seus Estados. Mas parece que não têm mais projeto ou projeção
nacional). Só que não entrou, em seu lugar, uma política
melhor, feita por exemplo de debates sérios – nos horários e canais
de maior audiência, entendo bem, e não a altas horas da noite, quando
o grande público já foi dormir. O que entrou foi a cobertura de
acontecimentos pequenos, faits-divers, diriam os franceses, variedades.
O arremate disso é a vergonhosa cobertura, pelo Jornal Nacional,
do vazio de algumas vidas no Big Brother. É raríssima uma
reportagem que some o melhor da cobertura factual com uma boa análise.
E
também por isso muitos temas ficam ausentes da telinha. Tenho valorizado
o papel que a TV dá à mulher. Desde, pelo menos, Dancing Days
(1979), a novela prega a igualdade entre os sexos. Não é espantoso
que a novela contribua mais, para nossa consciência social, do que os noticiários?
Neles não se fala na dívida externa. Quantos ficaram sabendo, pelo
noticiário, que a dívida externa subiu pelo menos cinco vezes no
governo Fernando Henrique Cardoso? Não se discutem as privatizações,
exceto, eventualmente, na TV Cultura. Não aparecem projetos consistentes
para o país, nem para os Estados ou as cidades. Lembro que em 1996 eu estive
no Rio Grande do Sul – um Estado de forte consciência política –
e vi pela RBS, a Globo local, a cobertura do segundo turno das eleições
municipais. Em duas importantes cidades gaúchas, a direita e a esquerda
disputavam a prefeitura. Cinco minutos de noticiário, e nada além
de banalidades como distribuição de santinhos, apertos de mão
e comentários sobre a "festa cívica"! Nem uma idéia,
umazinha sequer. Muitos
de nós achamos que o ano de 2000 foi um ano de glória para o jornalismo
da TV, em particular na cidade de São Paulo: a Globo deu a maior atenção
às acusações de corrupção contra o então
prefeito e sua maioria na Câmara Municipal. Pelo menos um vereador já
foi condenado com base em tais denúncias. E no entanto a discussão
da política não foi além da corrupção. A política
na TV brasileira é, quando muito, caso de polícia. Mudou-se a prefeitura,
mas não tanto porque a nova gestão tivesse compromissos sociais
mais fortes do que a anterior – e sim por ser nova e prometer ser honesta. O debate
sobre a coisa pública continuou tão fraco como antes. Eu, que voto
à esquerda, até poderia gostar que nas eleições de
2000 a direita paulistana fosse tão débil. Mas preferiria que um
bom candidato liberal tivesse surgido, propondo incentivos a novas empresas, em
vez de Marta Suplicy ganhar quase por um no show do outro lado. Em
suma: os noticiários da TV passam mal na prova de ética. Já
sua pauta é ruim, e exclui assuntos fundamentais de interesse para a cidadania.
A cobertura é superficial, e raras vezes fornece uma gama razoável
de fatos. E a interpretação mal existe. Quando muito, proclama-se
a revolta, a indignação. "É uma vergonha!" , dizia
Boris Casoy no auge da crise que levou ao impeachment de Fernando Collor.
Dez anos se passaram, e não se passou o país a limpo. Mas não
porque Boris Casoy estivesse certo, e o país e sua política errados.
E sim – talvez – porque a denúncia de corrupção seja má
conselheira. Mais importante, isto sim, é sair da oposição
maniqueísta entre bem e mal, abrir espaço para as oposições,
substituir a sombra pela luz, a cobertura unilateral por uma mais ampla, favorecer
análises. Porque, se o noticiário não fizer pensar, quem
o fará? (Maio
de 2002) | | |