A ética (ou moral – usarei os termos
como quase sinônimos) vive um grande desafio desde o século
19. Ela lida, como sempre lidou, com uma distinção entre condutas que aprovamos e desaprovamos, entre o certo e o errado.
Contudo, alguns autores mudaram isso completamente. Vou
lembrar Marx, na segunda metade do século 19, e Freud, na
primeira metade do século 20.
As questões éticas são questões de
consciência. Falamos na consciência moral de uma pessoa.
Ora, Marx e Freud mostram que a consciência que temos, das
coisas que fazemos, é bastante limitada.
Marx fala nos aristocratas franceses
que se comovem a fundo pelas dores de princesas exiladas; mas, acrescenta
ele, na hora decisiva, o que conta para eles é a renda agrária.
Ou seja, há uma dimensão belíssima em que as pessoas vivem
dramas de consciência, mas por trás disso tudo há interesses
bastante chãos, terra-a-terra, que são os econômicos.
Assim como Marx destaca a economia,
Freud mostra a importância do sexo por trás de nossas decisões.
Vivemos dramas, sofremos, acusamos, defendemos; mas, abaixo
disso, sem que tenhamos consciência, pulsa o inconsciente.
Não espanta, então, que tanta condenação moral se dirija
aos atos sexuais.
Termos como economia, sexo, inconsciente
sofrem alterações ao longo dos tempos e não importa aqui
a exatidão deles. O que conta é que, para Marx e Freud,
a consciência é uma dimensão bastante limitada do que vivemos.
Há algo mais forte que ela, que poderá estar nas relações
de produção (ou na economia), para Marx, ou na vida sexual,
para Freud, mas que em todos os casos escapa à consciência
de quem age.
E isso coloca a ética, não em xeque,
mas em questão. Como tratar de questões de consciência,
se a consciência é um aspecto limitado, superficial, de
nosso ser? O risco de nos enganarmos se torna enorme. Mesmo
quem conhece pouco da psicanálise sabe o que é a “projeção”, isto é, o projetar no outro aquilo que na verdade
é nosso: isso quer dizer que muitos dos juízos mais severos
sobre a conduta alheia apenas expressam algo de nossa psique. Por exemplo, acusamos o outro
de fazer exatamente o que fazemos nós mesmos.
Esse vai ser o grande problema da ética desde o século 19,
crescendo cada vez mais ao longo do século 20 e do atual.
Como saber se nossos julgamentos são válidos – ou só a tradução
de preconceitos muito pessoais? Por isso,
perguntei nas últimas colunas se a oposição ao direito de
abortar (que pode incluir argumentos de certa qualidade)
não ocultaria um desejo de punir as mulheres que vivem sua
sexualidade. Perguntas desse tipo se tornaram necessárias,
hoje, quando se enuncia algo na ética.
Ou talvez eu pudesse começar de outro
ponto. A ética passa por uma revolução no século 18, em
especial com Kant. O filósofo alemão enfrenta uma questão
decisiva. Até sua época, a ética estava subordinada à crença
em Deus e à religião. Chamava-se de “ateu” não só quem não
acreditasse em Deus, mas também quem recusasse a crença
no inferno, isto é, num severo castigo a quem pecasse.
Pensava-se, pelo menos no mundo cristão,
que sem inferno não haveria moralidade. As pessoas seriam
éticas na medida em que acreditassem, não só em Deus, mas
na punição eterna pelo pecado. Sem medo, não haveria ética.
Kant levanta a questão de uma ética
que não precisa de um Deus punitivo para enunciá-la. Seus preceitos podem ser encontrados pelo
homem. Resumidamente, ele diz que, toda vez que eu ajo,
estou proclamando que meus atos têm a validade
de uma regra universal. Isso é brilhante. Rompe com a separação
entre o que eu faço e o que eu digo – porque, quando faço
algo, implicitamente declaro que essa ação é a correta,
para todos. Cada ação minha é uma escolha ética para toda
a humanidade.
Por exemplo, se respeito o sinal
de trânsito, estou declarando que sempre devemos parar na luz vermelha.
Inversamente, se furo o sinal vermelho, proclamo (implicitamente) que todos
têm o direito de passar com a luz fechada – e portanto autorizo
os outros carros a baterem no meu. Se não pago o que devo,
autorizo todos (inclusive os meus devedores) a não pagarem
as dívidas. Essa é talvez a melhor base para uma ética de
sustentação humana, sem precisar de Deus para decretá-la ou para punir quem
a viole.
A ética assim fica humana. Ninguém
mais pode ter a certeza de falar em nome de Deus, ou dizer
de cima para baixo o que é certo ou errado. Mas Marx e Freud
trazem um problema a esse quadro. Eles põem sob
suspeita minhas motivações ou razões para enunciar juízos
morais. Não terei mais segurança de ser honesto, porque
quando emito algum julgamento posso estar apenas dando saída
a preconceitos de classe ou de sexo, a interesses econômicos,
a ódios pessoais. As certezas morais ficarão fracas.
Posso decretar normas universais,
mas quem garante que elas sejam, mesmo, universais? Por
exemplo, se insisto num direito absoluto de propriedade, posso estar discriminando os sem-terra, os não proprietários, os pobres em geral. Sabemos
que o sistema penal pune mais os crimes contra a propriedade do que os crimes contra a
vida.
Às vezes, para salvar a vida, alguém
ataca a propriedade alheia. Como fica isso, eticamente? Condenar o furto por necessidade
pode ser um preconceito de classe social, mais do que um sólido e autêntico princípio ético.
Isso não quer dizer que a ética tenha
perdido o sentido, hoje. Ao contrário: é justamente porque
não tenho certeza absoluta que a pergunta ética se torna
mais importante do que nunca. Não é mais lícito uma pessoa
pontificar do alto de uma posição de dono da verdade: cada
um precisa, hoje, ser capaz de duvidar
de si próprio. E para tanto posso concluir tentando
uma diferença entre moral e ética.
Distinguem-se duas posições em matéria
moral. Uma tem por critério os costumes da maioria. Costumes,
em latim, é “mores”. Por isso, a palavra “moral” pode se
referir aos costumes ou modos que o grupo considera os melhores.
Também por isso, muitos acham que a moral alude aos costumes
que a sociedade valoriza. Por sua vez, a palavra “ethos”,
em grego, designa “caráter”. Daí, muitos entendem que a
ética remete a escolhas morais que cada um realiza, em seu
caráter, independentemente da opinião da maioria.
A moral seria a do grupo (da “manada”,
dirão os críticos), enquanto a ética seria da pessoa, do
indivíduo que pensa por si próprio. Mas é importante lembrar que a filosofia tem dois mil
e quinhentos anos de idade. Portanto, também há autores
que chamam de moral o que chamamos de ética, e vice-versa.
Mas para concluir é bom dizer que, mesmo que os nomes sejam
trocados, a distinção é valiosa.
E por isso o desafio ético (ou moral)
é sair da manada e pensar por si mesmo. Devemos ser capazes
de pôr em dúvida os preconceitos que os outros nos incutiram – e também os que nós temos. Julgar
é uma tarefa árdua. Não deve ser cometida sem autocrítica.