Nosso tempo tem suas
questões éticas características. Uma delas é o aborto. A lei brasileira
o proíbe, exceto em poucos casos. É praticado em enorme escala
no território nacional, em condições de saúde precárias e sujeitando
muitas mulheres a chantagem ou pressão por parte da polícia.
Por isso, uma reivindicação
importante do movimento feminista é pelo fim da punição penal
a quem pratica aborto. Mas a questão é complexa. Os inimigos do
aborto alegam que se põe fim a uma vida, e que portanto abortar
é uma forma de matar. Daí que haja toda uma discussão sobre a
questão de quando começa a vida, ou pelo menos a vida que merece
ser chamada humana e protegida pela sociedade e pelo Estado.
Penso, porém, que esse
debate, ainda que importante, mascara outro, mais profundo, menos
evidente. Para isso, preciso remeter a minha experiência pessoal,
quando fui estudar na França, na época em que estava sendo discutida
a liberação do aborto naquele país. Isto se deu nos anos 70.
As paixões estavam
exaltadas. E os jornais veiculavam posições pró e contra a descriminação
do aborto. (Evito usar o termo “pró” e “contra” o aborto, porque
não sei se alguém é “a favor” do aborto; o máximo que os defensores
da liberdade de abortar pretendem é que esse ato deixe de ser
crime; não conheço ninguém que defenda o aborto como ideal, como
método, como prática).
Vindo de um país como
o Brasil da ditadura, no qual o debate público sobre qualquer
assunto era barrado, eu não
era a favor do aborto. Pensava, como ainda penso, que a maior
parte dos abortos decorre de uma pobre educação sexual. Se for
fácil o acesso a métodos anticoncepcionais e os jovens tiverem
bom conhecimento de como evitar a gravidez, o aborto se tornará
quase desnecessário. A gravidez indesejada decairá em número e
o recurso ao aborto será apenas excepcional.
Ora, fiquei espantado
de não ler, nunca mesmo, este argumento nos jornais. Melhor dizendo,
nunca vi ninguém, dentre os contrários ao aborto, falar algo parecido
com isso, em meses de fóruns na imprensa. O normal, na argumentação
contra o aborto, era – além de se falar em assassinato etc. –
acrescentar: “teve prazer, agora pague pelo que fez”; “não pensou
na hora, pense agora”; e por aí adiante.
Em outras palavras,
quem era contra o aborto acabava sendo contra a sexualidade.
Para essa argumentação,
é claro que nem a educação sexual nem métodos contraceptivos são
bons. Esses recursos permitem o sexo sem seus efeitos colaterais,
como a gravidez não desejada, a doença venérea, a AIDS. Eles fazem
a sexualidade ser vivida como algo positivo, reduzindo seus riscos.
Por isso, quem é contra a prática do sexo vê a gravidez como o
castigo dele, como um sofrimento merecido – e por isso será contra
tudo o que elimine essas penas.
Talvez os mais jovens
não tenham consciência da revolução que foi a pílula, há menos
de meio século. Ela permitiu, numa escala inédita, separar o sexo
do seu ônus, que era a gravidez – ou a doença venérea; se pensarmos
na sífilis, basta lembrar que no começo do século XX seu tratamento
era muito sofrido e sem garantia de cura. Hoje, o espectro da
AIDS assusta, mas mesmo assim a mudança foi enorme.
E no entanto convém,
quando discutimos o aborto, pensar o que está em jogo. Volto a
meu contato com a discussão francesa dos anos 70: os únicos preocupados
em melhorar a educação sexual e em disponibilizar pílulas e preservativos
eram, justamente, os defensores do direito de abortar. Pode soar
paradoxal, mas somente eles contribuíam para reduzir
o número de abortos – e isso porque o único meio de diminuir
a interrupção voluntária da gravidez é evitar que essa última
ocorra, e apenas se consegue isso com uma boa educação sobre o
sexo.
Paro por aqui. Voltarei
ao assunto. Ele tem outros aspectos, como a discussão sobre a
vida e a morte, opondo o direito do feto a viver e o da mulher
a decidir sua gravidez. Como em todas as questões éticas, não
é fácil ser irrestritamente a favor de um lado. Mas quis começar
apontando motivações inconscientes ou ocultas, que compareciam
na discussão francesa e me parecem estar presentes também no Brasil.
Eu, que apóio a descriminação
do aborto como um mal menor, tenho pleno respeito por quem se
opõe ao direito de abortar, mas somente quando está realmente
defendendo o feto e não quando o que quer é punir quem vive sua
sexualidade e especialmente as mulheres, negando-lhes uma educação
sexual ampla e aberta ou o acesso fácil a métodos anticoncepcionais
bons e seguros. Mas retornarei ao tema.