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Entrevista
ao Jornal da Universidade (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em
março de 2002).
| | Entrevista
sobre a universidade
1)O senhor defende que a
cultura deve estar na ponta, fecundando as pesquisas em ciências humanas
na universidade. Isso é possível em um contexto no qual os ensinos
fundamental e médio não oferecem uma base cultural sólida
nem apostam na experimentação, em estimular o aluno a pensar? Essa
base cultural sólida não seria necessária para a realização
de um trabalho multidisciplinar? Seria
necessária, sim. Mas o que fazer, se a Universidade pública de boa
qualidade recebe alunos com formação insuficiente? Vamos, apenas,
culpar o ensino fundamental e médio - ou tentaremos fazer o melhor que
possamos com esses alunos? Na verdade, aqui a Universidade já está
fazendo o possível. A novidade que sugiro é que a cultura se torne
produtiva; que deixe de ser considerada, como o é por exemplo na USP, como
idêntica à extensão, o que implica assimilar a criação
cultural e a difusão de novas técnicas de trabalho. A cultura pode
ser produtiva para a pesquisa. Hoje, a pesquisa é a pró-reitoria
filet mignon, reservada aos cientistas hard
que têm um Pronex, ao passo que a cultura se confia, como prêmio de
consolação, ao pessoal de Humanas. Discordo desse recorte e da política
que ele implica. Há, nas Humanas, a possibilidade de um trabalho rico -
repito: desde que saibamos enfrentar os desafios que aparecem em nossa sociedade,
deixando de simplesmente aplicar teorias prontas, de lavra norte-atlântica,
a uma cultura que se formou, sim, a partir da Europa, mas que também
é dissidente em relação a ela. Devemos parar de pensar que
nossa sociedade é deficitária e errada em face, digamos, de um Atlântico
Norte habermassiano. E para entender a nossa diferença, a frequentação
da cultura - das artes em especial - ajuda. 2)
A sociedade brasileira - e mesmo sua elite intelectual - está preparada
para abandonar uma visão quase religiosa da ciência, que considera
a universidade uma guardiã de verdades imutáveis e, por isso mesmo,
espera da instituição respostas prontas e definitivas? Não
sei se a sociedade brasileira valoriza tanto assim a Universidade. Parece-me que
boa parte de nossa sociedade vê, na boa Universidade pública, apenas
um lugar que fornece diplomas de graça - uma maneira de economizar com
a escola dos filhos, a fim de investir o dinheiro no que realmente importa, que
é o carro do ano, e de ao mesmo tempo assegurar a ascensao social da família.
Já é um luxo quando se lembra que a Universidade também faz
pesquisa! Evidentemente, entre os que têm noção da pesquisa
acadêmica, parte acredita em verdades imutáveis, em respostas cabais.
O que, claro, não corresponde ao carater sempre fragil das certezas filosóficas
e científicas. Mas não acho que o problema, hoje, seja tanto o da
visão religiosa da ciência. São, na verdade, dois problemas:
por um lado, a sociedade quer pouco da Universidade. Quer diploma, e só.
Se puder, ela terceiriza a pesquisa, compra-a fora do país, abre mão
do sentido estratégico que há em termos uma ciência de qualidade
feita aqui. Por outro lado, a Universidade raras vezes assume uma posição
ativa em relação à sociedade. É mais comum ficarmos
na defensiva - sobretudo, nas ciências humanas. Curiosamente, quando
nas Humanas se ouve falar em relação universidade-sociedade, se
entende "sociedade" como "mercado", e a reação é de defesa.
Ora, são justamente as Humanas que estudam a sociedade, e que sabem que
ela vai bem além do mercado! Devemos,então,marcar nossa posição,
e combater justamente no terreno que entendemos melhor do que ninguém:
o que é a sociedade, o que são suas lutas, seus movimentos, sua
densidade. Em suma: deveríamos tentar definir agendas, plurais, não
partidárias,para o país. Em vez de ficarmos a reboque da demanda
estatal, empresarial, político-partidária ou da imprensa, deveríamos
tentar definir o que propomos para o país. É claro que não
serão propostas sem política. Gostaria qu etivéssemos propstas
divergentes, abrindo espaço para a opinião decidir, por exemplo,
se quer um poder liberal ou se o quer socialista, mas em todos os casos com balizas
mais sólidas do que usualmente se tenta. 3)Como
a comunidade pode ser beneficiada, em sua relação com o meio universitário,
por iniciativas que apostam na xperimentação e na formação
interdisciplinar? Tenho-me
interessado sobretudo por duas questoes na vida academica, ambas de fronteiras.
A primeira é forçar para fora as fronteiras da pesquisa,almejando
inovar e não copiar ou repetir. Aí me parece que o interdisciplinar
é rico, na medida em que testa um ateoria, uma idéia, uma forma
fora de seu contextod e origem, e isso pode ser muito rico. A geometria se tornou
riquíssima quando, já velha de dois milênios, saiu da agrimensura
e veio formatar as novas ciências, no começo da modernidade, em pleno
século 17. Podemos testar isso com outras formas e idéias, vendo
como enfrentam desafios distintos. A segund aé a fronteira entre a universidade
e a sociedade. É interessante ver como o que pensamos e as pessoas que
formamos acabam sendo apropriados socialmente. A pesquisa em exatas e biológicas
pode se converter em tecnologia, e isso acaba beneficiando muito as pessoas. Se
imagino as roupas de alguém, sei que há muita coisa ali que veio
de pesquisas recentes - um novo tecido, uma nova forma de produzir sapatos etc.
Mas isso é menos conhecido no casodas Humanas. É como se as ciências
exatas e biológicas tivessem sua forma de traduzir seus resultados, socialkmente
falando, mais reconhecida - enquanto mal se comenta como as humanas levam seu
trabalho a público. No entanto, basta ler um jornal, basta ve ro mundo
em que estamos, para perceber como ele leva a marca das humanas. Só que
a leva menos do que pode. Costumo perguntar quanto, de Freud, passou para a consciênci
apública. Não muito mais do que a idéia de uma certa importância
do sexo! Um século depois de Freud, costumamos desconfiados do id, ou ate
ignorando sua existencia. (Veja quanta gente fala em subconsciente, quando
o termo certo - e que quer dizer outra coisa - é inconsciente. É
significativa a confusão). Enfim, um desafio nas Humanas é pensar
como elas podem, a umtempo, inovar - e levar para a sociedade o que fazem de melhor. | | |