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Entrevista a Fabrício Carpinejar,
para o IHU
Idéias, junho de 2003.
| | Entrevista
ao IHU Idéias Identidade Que
aspectos o Sr. vai destacar na sua apresentação "A construção
do Brasil, idéias sobre identidade nacional"? Vou
insistir na importância de termos uma identidade nacional enfraquecida.
Os Estados Unidos foram durante muito tempo um referencial nosso. Se você
lê Monteiro Lobato, você vê o elogio, que ele fazia nas décadas
de 1920 e 30, não só à pujança de sua economia, mas
ao cadinho, ao melting pot que eles seriam, incorporando os excluídos
do mundo etc. Mas, desde que as lutas raciais eclodiram, nos anos 50 e 60 do século
que há pouco terminou, os Estados Unidos só se mostraram capazes
de garantir uma razoável ainda que imperfeita igualdade de oportunidades
na medida em que dissolveram o melting pot em seus componentes. Os "afro-americanos"
têm direitos, talvez maiores, na prática, que os negros brasileiros
– mas o custo disso está sendo se separarem todos, e haver também
ítalo-americanos, Irish Americans e por aí vai. Eles naturalizaram
a sociedade, isto é, segmentaram-na conforme a origem étnica – ou
eventualmente a opção sexual, o sexo ou gênero, etc. Ora,
o que o Brasil tem de notável é que nós tendemos a integrar
a diferença. É por isso que aqui é difícil estabelecer
cotas, porque como definir quem é negro? Para os norte-americanos, é
negro quem tem uma gota de sangue negro. O branco é quem só tem
sangue branco. O que isso significa? Que só é branco quem é
"puro". Todo "impuro" é negro! Nossa idéia é
de mistura. Criou-se aqui um intermediário, o mulato, que é o misto.
Houve e ainda há muito preconceito, mas a idéia de mistura está
na base da cultura. Sociedade é cultura, não é natureza. E
isso significa debilitar a identidade. Identidade tende a ser natureza. Se a temos
fraca, é que nossa sociedade é mais forte cultural do que naturalmente.
E é a cultura que sustenta a história, entendida como espaço
da ação humana. Resumindo: temos capacidade de fazer muita coisa
boa. Podemos agir. E aqui rompo com a visão usual sobre a identidade brasileira,
que, resumindo, pergunta quem somos para disso inferir como podemos
agir de maneira decisiva, livre, emancipada e emancipatoria. Minha tese em
meu livro A Sociedade contra o Social e no que desenvolvi desde então
é que, justamente por termos fraca a definição de quem somos,
podemos agir com maior liberdade. Então, longe de tentarmos adquirir uma
identidade à força, devemos mantê-la fraca – e capaz de receber
e transmitir diversos conteúdos. Como
a universidade pode contribuir para que o pluralismo se torne um valor importante
para a democracia, evitando a imposição de padrões culturais
distantes da nossa realidade? Não
receio a cultura que venha, digamos, de fora. No próprio Rio Grande do
Sul, aliás, há um relato – que não é aceito por todos,
aliás – segundo o qual as bombachas teriam vindo de uma remessa errada
de uniformes militares, que inicialmente se destinariam aos soldados britânicos
na guerra da Criméia, na década de 1850, mas que teria ido parar
no porto de Rio Grande. Verdade ou não, o fato é que há em
todo o mundo muitos relatos desse tipo. O importante não é fechar-se:
é ser capaz de incorporar, criativamente, o que vem de fora. Ora, onde
temos o problema é com a TV e em certa medida com o cinema, que trazem
modelos demasiado norte-americanos. Devemos enfrentar isso bem, e com cuidado,
favorecendo a pluralidade. Devemos ter canais de TV menos enfeudados à
produção cultural de massa dos Estados Unidos, tanto nos articulando
mais com a Europa, quanto com os demais países do chamado Terceiro Mundo,
quanto, finalmente, favorecendo a produção cultural brasileira.
Aliás, os Estados do País se conhecem muito pouco. O Rio Grande
do Sul tem uma criação cultural notável, mas só parte
disso se divulga fora do Estado. O escritor Assis Brasil, por exemplo, que esgota
edições aí, é bem menos conhecido no resto do Brasil.
Isso tem que mudar. TV Que
aspectos irá destacar na sua próxima apresentação
no evento IHU Idéias "A política que passa pelos costumes:
a TV como porta de acesso à cultura brasileira da política"? Existe
um modelo do que é política que se consolidou desde a Revolução
Francesa. Ele prepondera na própria França e, perto de nós,
na Argentina (já foi muito forte no Chile). Ele define um espaço
político, que é o dos partidos, lidando com a coisa pública,
e divide-se em direita e esquerda. Não nego a sua validade, que permanece.
Mas note que no Brasil, sob a ditadura militar, quando a política propriamente
dita foi calada, os jovens que normalmente teriam militado nela desviaram sua
energia para "o sexo, as drogas e o rock’n’roll". Os costumes, em nosso
País, tornaram-se (ou talvez tenham sido já antes disso) um veículo
pelo qual surgiu muita coisa que normalmente teria tomado a via política.
Só que a mudança nas vidas assim efetuada é de natureza política!
Quebrou-se o poderio incontrastado do chefe de família, o machismo, o autoritarismo,
e tudo isso pela via mais dos costumes do que pela política partidária.
Quem não entender isso não entenderá como procede parte significativa
– é claro que não toda – da política brasileira. Eugênio
Bucci diz que "falar da televisão é falar do Brasil",
de que maneira o estudo da televisão pode levar a uma compreensão
do Brasil? Na
verdade, falar de TV é falar de tudo. Tudo passa pela televisão.
Eu escrevi durante um ano e pouco uma coluna de TV para o jornal O Estado de
S. Paulo, que vou publicar em breve, junto com artigos sobre o mesmo assunto
que tenho escrito para a revista Bravo e, ainda, um artigo mais longo que
redigi para um projeto de Cultura e Democracia. É impressionante como tudo
passa pela telinha. Ela tem notícias e entretenimento, filmes e novelas.
Há gente que tem TV a cabo só para assistir a filmes. Não
passa de um cinema em casa. E há quem tenha toda a sua afetividade estimulada
pelas novelas. Filosofia Como
a filosofia pode nos ajudar a compreender a identidade nacional? Meu
ponto é que devemos fazer dialogar o melhor da filosofia política
com o melhor de nossa cultura. A teoria política foi elaborada em termos
de uma cultura ocidental, européia. Nós, que somos um Ocidente dissidente,
não estamos rigorosamente nela. Sobram-nos e faltam-nos elementos. Tendemos,
geralmente, a pensar este superávit e este déficit como devendo
ser corrigidos. Penso que não. Penso que devemos entender o que pode a
filosofia trazer de crítica à nossa cultura, e o que de nossa cultura
pode propor novas teses filosóficas. Se
não fizermos isso, nos manteremos no comentário, que tecnicamente
adestra as pessoas, mas não vai muito longe disso. Aprendi, na graduação,
em torno de 1970, que a filosofia propriamente dita tinha acabado e nos restava
comentá-la. Mas o mundo mudou tanto, desde então, que ressurgiu
a necessidade de pensá-lo filosoficamente. É este o papel que nos
cabe. Política Que
aspectos mais lhe preocupam do governo atual. O que o Sr. comentaria da reunião
de hoje (3/6/03) com o presidente Lula? O
presidente mostrou-se muito amigo, muito interessado nas questões da Universidade
e da Ciência. Prometeu que será fiel a seus ideais de justiça
social, ainda que não dê para fazer nada muito depressa. Meu receio,
obviamente, é que as escolhas econômicas dificultem ou mesmo inviabilizem
as políticas sociais. De todo modo, sua equipe está umbilicalmente
comprometida com a justiça social. Isso é muito bom. E ele, bem
como seus ministros, têm noção do papel da Universidade e
da melhor pesquisa no desenvolvimento tanto econômico quanto social do País.
Publiquei um artigo em meu site de campanha para a SBPC (www.janine-na-sbpc.com.br),
no qual detalho o que Lula nos disse. Que
aspectos da atual democracia brasileira estão mais fortes e quais estão
mais fracos? Forte
é que tenhamos uma cultura de diálogo bastante mais forte do que
quando caiu a ditadura. Um exemplo. Por volta de 1996, Antonio Carlos Magalhães
deu uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, na qual dizia que Fernando
Henrique (a quem ele apoiava!) não tinha uma biografia das melhores, porque,
afinal, tinha sido exilado. Em 2002, José Serra se orgulhava, em sua campanha
presidencial, de ter sido exilado. A nostalgia da ditadura está acabando.
Isso é bom. O
que é fraco é a desigualdade social. Com ela, ficamos atados. A
democracia é muito boa, mas precisa ter uma base social, sob pena de não
ir além das classes médias. Universidade Na
sua carta de apresentação para as próximas eleições
da SBPC, o Sr afirma que "devemos aumentar a presença da ciência
na sociedade". O que isso significa? Como se leva a prática? Já
é muito grande esta presença. Veja sua roupa: certamente tudo o
que você leva, ou quase, no corpo inclui tecnologia e ciência bem
recentes. Leia um jornal: é enorme o papel das ciências humanas e
sociais na reflexão sobre o país. Mas as pessoas não têm
consciência disso. Precisamos aumentar essa consciência junto ao povo
como um todo, e aumentar, junto aos cientistas, a percepção de sua
importância. Com isso, faremos que uma transmissão de ciência
à vida das pessoas, que hoje ocorre sem muita consciência nem planejamento
por parte dos cientistas, cresça exponencialmente. Gostaria
que comentasse as idéias centrais de três capítulos de seu
último livro: o que foi fazer política científica? Fui
membro do Conselho Deliberativo do CNPq entre 1993 e 97, além de outros
cargos que exerci, eleito pela comunidade científica. Tive uma certa decepção
ante o que podia ser feito e o que o foi. Espero, agora, se for eleito Presidente
da SBPC, contribuir para uma nova consciência sobre a atuação
social da ciência. A SBPC não tem poder nem verbas próprias,
mas dispõe de uma grande autoridade, que espero utilizar para aumentar
o debate público sobre o conhecimento de boa qualidade. Erros
e desafios da Filosofia no Brasil A
filosofia no Brasil dispõe de excelentes profissionais, tecnicamente capacitados,
mas em boa medida ela não atravessa o Rubicão. Tancredo Neves dizia,
numa perola da sabedoria mineira, que "ninguém vai até o Rubicão
para pescar". Você diz "os dados estão lançados"
e o atravessa. É isso o que tem faltado. Nas reuniões da sociedade
da área, a ANPOF, tem havido discussões plenárias só
de dinheiro para a pesquisa, ou então para prantear os nossos filósofos
mortos. Neste artigo, critiquei esta redução da filosofia ao lucro
e ao luto. Temos que pegar as grandes questões atuais, as mudanças
na política, na ética, na arte, na teoria do ser, na ciência,
e tematizá-las. O
sentido público do ensino A
defesa da Universidade pública, que compartilho, tem-se reduzido muitas
vezes à defesa do ensino gratuito. Mas o caráter público
da educação deve ser mais que isso: deve ser sobretudo a preparação
de profissionais – e de pesquisas – que resultem no bem da maior parte da sociedade.
Um curso público de Direito, por exemplo, deve dar tanta atenção
aos Direitos Humanos quanto ao direito tributário, comercial etc. Ou mais,
até. Como
devem ser os pesquisadores e a pesquisa que o Brasil está precisando? Antes
de mais nada, devem ter qualidade. Não adianta termos muitos pesquisadores,
se não forem bons. Mas além disso devem pesquisar questões
que tenham relevo. Várias vezes, recebi mestrandos que queriam apresentar,
como dissertação, uma tradução de pensador clássico,
o que é legítimo, desde que associado a uma introdução
e a notas. Mas eles procuravam, sempre, um texto menor, eventualmente irrelevante!
Para quê, então? Falta às vezes audácia nos temas.
É claro que estou falando de minha área e das Humanas. Em outras
áreas, a socialização da pesquisa é maior, favorecida,
por sinal, pela necessidade de compartilhas recursos, como um laboratório,
por exemplo. Mas, de modo geral e ressalvada esta crítica, acho que estamos
indo bem. O Brasil tem um dos melhores ambientes de pesquisa, se não o
melhor, de país em desenvolvimento. | | |