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Multicultural À
primeira vista, a grande mudança do novo governo é que o PT trocou
a ética de princípios weberiana pela ética de resultados
tucana. Como o Sr. analisa essa impressão? O que ela representa para a
política brasileira, na medida em que, como o Sr. mesmo já disse,
toda ética de princípios parece fadada ao fracasso? Discuti
a questão das duas éticas weberianas, a de princípios e a
de resultados, no final de meu livro A sociedade contra o social. É
inevitável que o político, em especial se ele se coloca na perspectiva
do poder, considere os resultados. E para nós, cidadãos, é
melhor que ele produza resultados do que se ele se contentar em enunciar princípios.
Mas eu nunca diria que toda ética de princípios está fadada
ao fracasso. O que penso é que uma ética da responsabilidade (ou
de resultados), que é a do político, exige dele o sucesso. Se ele
fracassar, restam-lhe poucas desculpas. Se eu fracassar mas estiver baseado só
em princípios, sempre conservarei a consciência limpa. Se fracassar
depois de fazer concessões em política, será mais difícil
manter minha imagem e minha dignidade.
Duas conseqüências disso. Os tucanos invocavam constantemente a responsabilidade
de governo para contestar a ética de princípios como ilusória
- mas, quando fracassavam, não assumiam o âmago amargo da derrota
de uma ética de responsabilidade. Não se responsabilizavam por isso,
e é significativo que no episódio mais forte disso, que foi o da
privatização das teles, um deles tenha dito que estavam indo
até o limite da sua irresponsabilidade. Já
os petistas, se tomam o poder, é para mudar o País. Nao se pode
agir só com base em principios. Daí que devam fazer concessões.
Mas aqui entra o lado trágico do poder, que os tucanos tamponaram, quando
não assumiram responsabilidade por seus fracassos: se o PT fracassar redondamente,
ele não terá desculpas. Terá de assumir a tragicidade que
está presente na derrota do político, mesmo o político de
resultados. Agora, nada isso justifica os radicais dentro do PT. Acho errado cogitar-se
sua expulsão, mas o fato é que política democrática
exige sempre o diálogo, o reconhecimento do outro, e portanto um certo
desconto no radicalismo dos princípios. Mais que isso, quem votou neles
quer melhoras. Você só melhora, agindo. E para agir os princípios
não bastam. A
adoção do modelo anterior, mesmo que seja concessão temporária
à "febre do doente", não denota uma surpreendente falta de criatividade
do governo Lula? A expectativa era de que o novo governo viria com mais planos
e projetos, que, achava-se, estavam mais do que discutidos, do que boas intenções.
Até as reformas enviadas ao Congresso pecam por falta de novidades. A que
o Sr. atribuiria tal acanhamento criativo? Acrescentaria:
a primeira votação importante no Congresso foi a da autonomia do
Banco Central. Deveria ter sido algo da agenda da esquerda. Mas compreendo que
o governo precise começar conquistando a governabilidade, isto é,
mostrando-se aceito pelas instâncias capazes de fazer um terceiro, um quarto,
um quinto turno das eleições, a começar pelos mercados. O
importante é que ele sinalize que, se os meios a seguir são muitas
vezes os convencionais, os fins que o Estado brasileiro vai defender serão
diferentes. Pessoalmente, preferia mais rapidez. Preferia que nao se perdesse
a lua de mel. E desejaria que o carro-chefe do governo petista, o projeto Fome
Zero, fosse gerido com mais capacidade. A eficiência (ou a ineficiência)
tornou-se, numa sociedade como a nossa, questão política essencial.
Nos dois primeiros meses, o Presidente teve popularidade em dois ambientes - o
dos mais ricos, que estavam aliviados ao ver que não mudavam muito as coisas,
e o dos politizados à esquerda, contentes com as expectativas de mudança.
O segundo grupo está hoje menos feliz. E no entanto é ele quem vota
na esquerda e quem ganhou as eleições, mas sente que está
perdendo o terceiro turno. Os
ideais de Lula e do PT não devem ter mudado, embora a forma de implementá-los
esteja passando por uma evidente transformação. Na sua visão,
até que ponto a alteração dos meios (ética da responsabilidade)
pode prejudicar a execução dos fins nobres, que estão na
base de uma ética de princípios? Dez
anos atrás, escrevi um artigo para O Estado de S. Paulo no qual
eu opunha a questão dos meios e dos fins. Dizia que a esquerda tinha perdido
a noção do que são meios eficazes, pois continuava ligada
ao poder do Estado, à tutela, ao controle, enquanto a direita (ou o capital)
tinha gerado meios muito mais aptos a produzir resultados. E na época nem
tínhamos a dimensão do que seria a Internet! Por outro lado, porém,
eu acrescentava que a direita tinha perdido a noção dos fins. Seus
fins tradicionais eram a família e a moral, mas ela os sacrificara ao indivíduo
e ao lucro. A esquerda, contudo, conservava uma idéia de fins, que eu resumiria
na palavra solidariedade. Este
diagnóstico me parece continuar bastante pertinente. A direita triunfou,
sim, e a velha esquerda perdeu a parada. Mas o desafio para a esquerda é:
como adotar os novos meios, em especial tecnológicos mas não só,
de modo a atender a um fim (a solidariedade), que precisa ser atualizado, mas
permanece altamente válido. E é isso o que os gestores de esquerda
aprenderam. Daí que não adiante mais, por exemplo, falar só
em "vontade política". Essa expressão virou um mantra de esquerda,
no mau sentido, para fugir do problema que é o equilíbrio das contas.
Mas isso não quer dizer que abandonemos a política e a criatividade.
O que exige é que construamos novas idéias do que é política
e criatividade. Chegando,
então, à sua pergunta: é uma questão de dosagem. Política
não é ciência, é arte, como na expressão a
arte do estadista. Não há ética puramente de princípios,
nem apenas de responsabilidade. Sempre se dosa. Mas como dosar? Na política,
o resultado sempre acabará pesando bastante. Se
o "mantra tucano", para usar uma expressão do Sr., foi a estabilidade da
moeda, o mantra petista seria a esperança. Enquanto um se lastreou no passado
recente, o outro se serve do futuro distante. O desgaste do mantra tucano era
previsível. E o do PT, corre o mesmo risco? É
muito difícil que o PT realize o seu programa inteiro, tanto porque precisará
de alianças para governar - o que reduz a "pureza" de seu programa - quanto
porque a realidade impõe sérias limitações ao que
é viável. O importante, então, é perguntar qual o
seu programa mínimo, o núcleo duro, o cerne que definirá
se valeu ou não a pena ele ganhar as eleições - e, serei
exagerado, se valeu a pena toda a sua história! Parece-me que o presidente
Lula entende, por esse núcleo duro, a integração dos miseráveis
na sociedade brasileira, o fim da fome, em suma, a inclusão social dos
mais excluídos. É difícil dizer quantos eles são,
e também difícil definir qual o patamar que estabelece sua inclusão,
mas lembro que dez anos atrás o jornalista e cientista político
Oliveiros Ferreira dizia que um quarto ou um quinto da população
brasileira na época (uns 30 a 40 milhões) seriam os realmente excluídos.
Sem eles, o Brasil seria um país normal, com padrões razoáveis
de cidadania. Sabemos que é muito difícil quantificar as coisas,
e vimos isso no Fome Zero: o número de brasileiros famintos varia, conforme
os petistas e os tucanos, entre 25 e 2 por cento da população...
Mas é razoável que o Governo trabalhe com a integração
do quarto mais desprotegido da sociedade brasileira. Essa será uma revolução. Mas
poderá isso fazer-se às custas dos demais trabalhadores? Esse é
o problema. De dez ou quinze anos para cá, as propostas ditas de "focalização"
ou equivalentes têm defendido o seguinte: transfira-se renda dos trabalhadores
mais bem pagos para os menos bem pagos e os desempregados. E deixe-se intacta
a parcela da renda auferida pelos mais ricos! É essa a lógica, por
exemplo, do ataque à Previdência Social. Esse é um ponto que
o PT precisará reverter - mas parece que não o está fazendo.
Então, se ele apenas fizer a agenda tucana, com mais competência
(ou menos?) do que o PSDB, será difícil ele se justificar aos olhos
do seu eleitorado. Até porque os votantes do PT, seus militantes e simpatizantes,
estão mais entre os trabalhadores mais organizados e portanto mais bem
pagos, do que entre os miseráveis, que sempre foram massa de manobra para
a direita. O
Sr. afirmou logo após a eleição que a distância entre
o PSDB e o PT havia aumentado muito durante o governo Fernando Henrique. Com o
governo Lula, essa distância está diminuindo? Até
1993, eu diria que havia uma tendência a se aproximarem os dois partidos.
Em 1993, muitos em Sao Paulo queriam uma aliança que lançaria, no
ano seguinte, Lula à Presidência e Mário Covas ao governo
do Estado. Não deu certo, e a posteriori - mas só a
posteriori - pareceu lógico que assim fosse. O PSDB optou pela globalização
da economia, e o PT pela resistência aos projetos neoliberais. Ora, o que
estamos vendo nestes poucos meses de novo governo é uma distância
menor entre os dois projetos. O PT está bastante preocupado com a governabilidade,
o que quer dizer, na prática, a aceitação dos ditames do
mercado. Já o PSDB aparece, retrospectivamente, como autor de vários
programas sociais. Então. agora a discussão está sendo: quem
faz melhor as mesmas coisas? Mas
isso não durará muito tempo. O PT precisará atender melhor
a seus ideais. Essa primazia atual da economia, a ponto de silenciar a política,
não deve permanecer. Mas provavelmente as cartas vão ser reembaralhadas.
É possível que, daqui a alguns anos, a intenção de
voto se modifique muito, com migrações de eleitores que hoje seriam
difíceis de conceber. Como
"a democracia é o regime da cidadania como desejo", na sua definição,
é coerente a eleição de Lula sob o mote da esperança,
já que a ascensão do ex-operário ao poder fecharia um ciclo
de democratização plena no Brasil? O que esperar dessa democracia
daqui para frente, e qual o papel de Lula e do PT nesse processo? É
perfeitamente coerente. O que o PT representa, enquanto ideal ou imagem,
é que os de baixo passem a ter, não só os artigos necessários,
mas também os desejados. Fernando Henrique prometeu atender às necessidades,
quando agitou os cinco dedos da mão, em 1994, como emblemas da saúde,
segurança, educação, emprego e esqueço o último.
Não importa que tenha ficado aquém do prometido. O que conta é
que prometeu satisfazer as carências, levar as pessoas a um equilíbrio
entre a necessidade e a realidade, zerar a psique. A estabilidade monetária
era um modo de estabilizar a psique, no interior de um pensamento da ciência
política que cada vez se proclama mais racional. O PT tem uma dinâmica
diferente. Ele ofereceu sonho. O PSDB coloca, nos seus outdoors, seriedade, honradez
e competência. O PT falava em não se ter medo de ser feliz e transformava
a estrela em emblema intensamente afetivo. Daí que, embora também
falasse nas necessidades, atingisse o seu eleitorado em boa medida pelo
anseio de se ter mais conforto, mais qualidade. Talvez um artigo meu sobre o consumo
cidadão, vários anos atrás, tenha sido um dos primeiros a chamar
a atenção para este novo fato: o que impede um golpe de Estado,
um regime militar, uma ditadura não é tanto a mobilização
dos partidos, mas os shopping centers. Ordem unida, continência, uniforme cor
cáqui não se casam com tênis de grife, fast food e paquera
junto do pipoqueiro. E acho que o PT expressou esta mudança. Nem sempre
teve ou tem consciência disso. Muitos dos seus líderes conservam
o discurso da necessidade, da seriedade, contra o consumismo e mesmo o consumo.
Contudo, penso que seu eleitorado dá muita importância a esta idéia
ou pulsão elementar: ser cidadão, ser igual aos de cima, significa
- entre outras coisas - consumir o que eles consomem. Para ser mais exato,
significa ter acesso ao mesmo supérfluo que eles. O jogo político
se dá em larga medida em torno do supérfluo, do acesso ao glacê
sobre o bolo. Em nosso tempo, o desejo é mobilizado cada vez mais
por isso, do que pelo essencial ou pelo necessário. Ora,
o problema é que, depois da posse, o novo governo tem dado muita importância
à economia e ao discurso da necessidade. Compreende-se e assim deve ser.
Mas em algum momento ele precisará atentar para o fato de que a esperança
é também a esperança de uma vida confortável. A igualdade
passa pelo acesso ao excesso. Espero que isso se realize. | | |