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Entrevista
à Revista Interface, da Faculdade de Medicina de Botucatu.
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à Revista Interface Sobre
Ética Vou
começar pela ética. Penso que há um grande mal-entendido
sobre a ética em nossos dias, que até tem um fundo positivo: é
o fato de cada vez mais pessoas terem simpatia por ela, de haver um clamor pela
ética na política, no âmbito social em geral. Um dos grandes
discursos dos últimos anos reclama por ética. Na sociedade brasileira
isso corresponde a um fato social importante, a saber: não existe mais
sustentação que legitime a desigualdade, a injustiça, a miséria
entre nós. Durante
muito tempo havia difusamente a convicção mesmo que nunca fosse
expressa com toda a clareza de que a desigualdade extrema, e inclusive a miséria,
eram aceitáveis, legítimas: o pobre aceitava ser muito pobre, diante
de pessoas que tinham vantagens muito grandes. Isso era possibilitado, também,
porque nossa elite era muito pequena. Costumo dizer que quando três, quatro
ou cinco por cento da população podiam movimentar-se de carro particular
as cidades funcionavam muito bem, eram um encanto. Mas, quando se passa a ter
trinta, quarenta, talvez cinqüenta por cento da população se
movimentando, em algum momento da semana de carro, a cidade não se sustenta,
como nenhuma cidade do mundo se sustentaria com essa proporção de
gente motorizada. Da mesma forma, enquanto há pouca gente que corresponde
à elite, esses poucos vips assumem o direito de furar fila, e isso é
aceito. Fura-se fila porque se é malandro, porque se é simpático,
bonito, rico, porque se tem despachante. Mas, quando a classe média se
expande em número, e as classes mais pobres, vendo televisão, começam
a desejar os mesmos bens de consumo dos ricos, torna-se ilegítima a desigualdade
social. Insisto
nesse desejo dos bens de consumo. Os bens de consumo divulgados na televisão
são atraentes mas, em princípio, existem para ser adquiridos. Portanto,
necessita-se de dinheiro para chegar a eles. No entanto, a propaganda vai para
todos, pobres ou ricos; como fica isso? Lembro uma propaganda, um ou dois anos
atrás, do Mercedes Benz Classe A. Nela aparecia um casal de ricos andando
numa garagem no subsolo e três faxineiros, por definição pobres,
rindo deles porque o casal rico escorregava na água ensaboada. Mas, quando
o casal entra no Classe A, o marido começa a fazer curvas com o carro e
quase atropela, de brincadeira, é claro, os três pobres. Ri melhor
quem é mais rico, ri melhor quem ri por último. É uma propaganda
acintosa da desigualdade social. Diz que, se você é rico, pode se
vingar dos pobres (como se o contrário não fosse o mais lógico),
usando sua riqueza como arma. Mas, ao mesmo tempo, essa propaganda é vista
pelos pobres. O faxineiro pensa: "por que não vou ter um Classe A?
O que me impede? Qual a razão para que o outro tenha um Classe A e eu,
não?" Até
um tempo atrás, você ser fazendeiro, rico etc. era aceito por muitos
pobres porque você nasceu assim, porque se trata de uma desigualdade ditada
por Deus, pela Providência, pela natureza. Toda essa sustentação
acabou. Resumindo, para concluir esse ponto: houve uma expansão tão
grande daqueles que têm algum nível de anseio ou desejo cidadão
(mesmo que não tenham os direitos cidadãos), anseio que às
vezes tem origem a partir até mesmo de anseios de consumo, que isso trouxe
uma noção tal de igualdade (igualdade no desejo, não na realidade:
aquilo que eu desejo me iguala ao mais rico, desejamos a mesma coisa) que, por
sua vez, tornou muito difícil justificar os critérios de desigualdade
básicos que faziam funcionar a nossa sociedade, sobre fundamentos injustos,
mas que, mesmo assim, permitiam que ela funcionasse e que, pelo menos para nós
das classes mais abonadas, fosse até mesmo uma sociedade agradável.
É porque isso acabou que não podemos mais achar graça nenhuma
em transgredir regras. Antigamente até se podia achar graça, digamos,
em ser furado na fila do cinema por uma pessoa que tivesse jeito, sorriso, poder
etc. Hoje, isso não é mais aceitável. É o que se traduz
no clamor por ética. O
clamor pela ética... Tomando
as raízes sociais da demanda pela ética: nós a queremos porque
ela é que nos permitirá uma convivência minimamente decente.
Não temos mais base social para viver segundo valores da desigualdade e
da discriminação. Os valores da igualdade, do respeito ao outro,
tornam-se o requisito mínimo para nossa sociedade sobreviver. O clamor
por ética está ligado a isso. Disso, que é um fator social
altamente positivo, decorre algo que me deixa, porém, cético. Muitas
pessoas pensam que estão clamando por ética como se isso fosse algo
puro, a busca do certo, quando as coisas são mais complexas; o clamor por
ética, às vezes, se traduz na pergunta simplista: isso é
ético ou não? Como professor de Ética, ouço esse tipo
de pergunta: "tal tipo de conduta, professor, é ético ou não?"
E tenho de responder que não há tabela, gabarito, regra, definição.
Aliás,
costumo invocar os Códigos de Ética, que são uma contradição
em termos. Embora seja necessário haver um Código de Ética,
se ele é Código, é lei; e, se é lei, o que importa
é que seja obedecida, independentemente da razão que me leva a obedecer,
se é o medo da punição ou é a convicção
de que a disposição é correta. Tudo o que é lei, na
sociedade, precisa ser cumprido apenas em função do bom trato com
o outro. Ninguém vai me deter, no quarteirão seguinte, para perguntar
por que parei no sinal vermelho. Basta que eu tenha parado, e não importa
se foi apenas por medo da multa ou dos pontos na carteira de habilitação.
Ao passo que, quando falamos de Ética, é isso o que mais importa.
No
caso de um sujeito ético, o fundamental é saber se ele está
inclusive disposto a violar a lei se preciso for. Porque as leis, por melhores
que sejam, são sempre aproximações um tanto toscas da melhor
conduta. Pode haver circunstâncias em que violar a lei seja decisivo. Na
Medicina, justamente, não esqueço uma coisa que aconteceu quando
fui viver na França, como bolsista, em 72: morreu uma pessoa na calçada,
a dois metros de uma farmácia, sendo que nenhum farmacêutico a acudiu.
E os farmacêuticos não a socorreram porque se tocassem nela se tornariam
responsáveis pelo atendimento. Propôs-se então uma lei que
valorizasse o atendimento de emergência, mesmo que desse errado, e lembro
um editorial do Nouvel Observateur dizendo que, se dependermos de leis para que
as pessoas sejam humanas, estaremos perdidos. Ou
seja: a conduta correta, eticamente, teria sido o farmacêutico ou qualquer
pessoa acudir o outro, mesmo correndo o risco de depois ser enquadrado na lei.
Porque era um valor humano que estava ali, a vida de alguém. E se o juiz
tivesse bom senso, depois, diria que não era o caso de aplicar a lei. E
se o juiz não tivesse bom senso, mesmo assim a pessoa diria: fiz o que
devia fazer. Voltando
ao clamor por ética, ele tem uma base muito boa, mas muitas vezes se reveste
de uma forma equivocada, porque é a demanda de soluções prontas,
como se ao cumprir uma legislação ética eu me tornasse um
sujeito ético. Um sujeito ético é aquele que aceita assumir
os riscos de estar errando, mas que tenta ir além do que a lei prescreve.
O
ser ético Há
uma questão de meios e fins. Se dermos importância demais a um Código
de Ética, transformaremos o que é meio em fim. Não é
porque uma pessoa cumpre o Código de Ética de ponta a ponta que
recebe um diploma de sujeito ético. Mas muitos acham que o simples fato
de nunca terem violado um código lhes dá dignidade, quando um código,
geralmente, é uma legislação que assume a forma negativa:
proíbe, não ordena. Geralmente a legislação é
menos enfática sobre as ordens do que sobre as proibições.
Por exemplo, há um artigo no Código Penal, que obriga as pessoas
a um dever de solidariedade a outras. É o artigo do socorro à pessoa
em perigo. Há muita ilusão a seu respeito. A maior parte das pessoas
pensa que, quando atropela alguém, está obrigada a acudir o atropelado.
Não é bem isso. Não é o motorista que atropelou que
está obrigado a acudir. Não; qualquer pessoa tem o dever de socorrer
qualquer um em perigo. Ou seja: não só a pessoa atropelada tem o
direito de ser atendida, e nem só o motorista tem obrigação
de acudir. Eu comecei a ler esse artigo do Código e pensei: "gente,
isso nos obrigaria, também, a acudir qualquer miserável que passe
fome na rua! Ao não fazer isso, estamos infringindo o Código Penal!"
Entretanto, é claro que não passa pela cabeça de ninguém
nos processar porque há um miserável na rua. É
curioso que, quando se tem uma lei que não diz não farás,
mas sim farás, essa lei não seja cumprida. Nós nos
acostumamos a leis, e até à ética, no sentido de proibições,
mas não no sentido de imperativos. É triste pensar que a ética
ficou reduzida à abstenção da conduta anti-ética e
não se consubstancia, geralmente, no empenho por uma conduta ética.
Isso
está mudando; o voluntariado, as ONGs estão assumindo um pouco esse
perfil da conduta afirmativamente ética. Mas algo que faz uma falta extraordinária
na vida acadêmica e digo isso pela área de Humanas, que eu conheço,
mas vale também para a área da Saúde é o senso de
responsabilidade social. Ou seja: a falta de se perguntar sempre "o que eu
fiz, o que estou fazendo pela sociedade, pelos outros, de que maneira eu ajo...?". A
cidadania... Há
uma passagem importante no pensamento político que é a passagem
de súdito para cidadão, embora em certos contextos os dois termos
ainda sejam utilizados quase como sinônimos (tecnicamente, o cidadão
britânico é, na verdade, súdito de Sua Majestade britânica).
Súdito designa aquele que está sob um dito, que recebe ordens de
quem lhe é superior. Já o cidadão é um sujeito ativo
dentro de uma cidade, ou seja, de uma República. Portanto, ao falarmos
em cidadania, em cidadão e na passagem de súdito a cidadão,
temos presente a idéia de que se assume responsabilidade pela sociedade.
Daí que haja um equívoco, talvez o principal que vejo na temática
dos Direitos Humanos, que é ela assumir demasiado o caráter de direitos
que temos, sem levar em conta que esses direitos estão ligados, também,
a obrigações. Não é que tenhamos um rol de direitos
e não saibamos nem quem vai executar esses direitos. Comentei, num artigo,
aquele cartaz que constava nos ônibus paulistanos: "Transporte: direito
do cidadão, dever do Estado". É muito meritório, mas
esquece que numa democracia o Estado é feito pelos cidadãos. Não
é que devamos pedir ao Estado que, como uma gigantesca teta, nos dê
isso. Temos a obrigação, como cidadãos, de construir um Estado
que forneça isso. E no Brasil, a sensação de que o Estado
é exterior a nós, de que nada temos a ver com ele, é tão
grande que acabamos, mesmo quando lutando por uma sociedade melhor, pedindo ao
Estado (e legitimando, portanto, quem está no poder nele), em vez de exigir
uma reconstrução do Estado. Nesse ponto a cidadania se torna não
apenas um direito, mas um dever. Em Roma era assim: na Roma antiga, estava claro
que o direito de cidadania era, ao mesmo tempo, uma série de direitos e
de obrigações que incluíam, por exemplo, o serviço
militar. Direitos
humanos É
comum dizer que houve três (alguns falam hoje em quatro) gerações
de direitos: direitos civis (do proprietário, basicamente), direitos políticos
e, finalmente, os direitos sociais. Alguns agregam a esses, hoje, os direitos
relativos à natureza, que formariam uma quarta geração dos
direitos humanos. Porém, na maior parte desses casos, ou pelo menos nos
paradigmáticos, que são os direitos civis, o sujeito dos direitos
é o indivíduo privado, ou grupos sociais que não estão
no poder. Há assim uma certa despolitização no horizonte
dos direitos humanos. Diz-se muito que queremos tais direitos e pouco se discute
como construir um Estado e uma sociedade que permitam a execução
desses mesmos direitos. Há
assim uma idéia, às vezes explícita, às vezes implícita,
de que os direitos precedem o Estado, de que eles permitem julgar a forma do Estado
e isso é muito bom, porque é a única maneira leiga de colocar
um contraponto ao poder do Estado. Se não fosse assim, teríamos
que invocar Deus e os valores sagrados, contra o Estado. Assim, se estabelecemos
que todo ser humano tem direito, por exemplo, a ser julgado de maneira justa e
correta, do ponto de vista dos valores esse direito precede o próprio Estado
o que é muito bom. Só que dessa maneira se deixa de lado outra
questão, que é: os direitos humanos, a rigor, só podem ser
implantados num Estado democrático. A construção da democracia
e dos direitos humanos vão juntas. Mas às vezes se perde de vista
esse vínculo. Direitos
humanos e Democracia Sustento
que temos quatro grandes tradições ou linhas políticas no
século XX e no que começa do XXI; o ideário republicano,
o ideário democrático, o socialista e o liberal. Esses quatro ideários
reúnem politicamente tudo o que há de bom no pensamento político
do século XX, mas são conflitantes, ou tensos. Defino a república
como regime da vontade e democracia como regime do desejo. Entendo
que o essencial da República é a capacidade de cada um abrir mão
de seus interesses e desejos pessoais em favor do bem comum, da coisa pública,
da res publica. Desde Roma, a temática da República passa
pela renúncia à vantagem própria em favor do bem comum, às
vezes sacrificando-se a própria vida. Por outro lado, desde que surge entre
os gregos, a democracia é acusada (ou elogiada) de ser o regime em que
os mais pobres mandam. E o clamor básico dos mais pobres é o clamor
do ter, do ter mais, porque eles se sentem desprovidos. Então, os pobres,
segundo seus detratores
gregos, desejariam
tirar o que os ricos têm. Por isso afirmo que na democracia pulsa, com muita
força, o desejo enquanto na república a contenção
é a regra. Mas
as duas são necessárias: é preciso que a república
seja capaz de "segurar" a democracia, dizer que "não dá
para cada um afirmar seu próprio desejo, é preciso haver um nível
de renúncia, até para construir a casa de todos"; porém,
por outro lado, se não houver esse clamor por ter daqueles que não
têm, o que teremos como regime político será superficial,
sem vida. É interessante que uma das maiores filósofas do século
XX, Hannah Arendt, tenha, nesse ponto, perdido de vista o que é o cerne
da democracia. Quando ela reclama que hoje se discute muito o interesse e pouco
a política, como se discutia entre os gregos, a política de que
fala é muito republicana e bem pouco desejante. E chega a um paradoxo curioso:
elogia a forma dos Conselhos como houve na revolução húngara
ou na revolução russa, com o nome de sovietes que vêm de
baixo, de gente que participa diretamente da coisa política, mas não
gosta da agenda que eles trabalhavam, muitas vezes uma agenda econômica
e social. Defendia uma agenda política, mas sem o econômico e o social.
Isso é difícil, para não dizer impossível. E talvez
ela erra em sua caracterização dos gregos, porque, justamente, eles
tinham em mente que na democracia mandavam "hoi polloi", os muitos,
os pobres, e por isso diziam seus críticos a democracia queria expropriar
os mais ricos. Em meu artigo "Democracia versus República" (no
livro Pensar a república, da UFMG) e nos meus dois livros A República
e A Democracia (ambos da Publifolha), sustentei que para os gregos
a democracia não era um regime só político, como vai ser
ao ressuscitar no século XVIII, mas também social o que ainda
hoje lutamos por tornar realidade. Contra
a tese de Arendt, e de outros, entendo que a democracia é um regime baseado
no desejo: é ele que a movimenta. Ou, para falar de outro modo: Montesquieu
introduz uma idéia muito boa há, diz ele, três formas de
governo e, para funcionar, cada uma precisa de um certo tipo de paixão
na sociedade. Quando se tem o Despotismo, para ele funcionar as pessoas precisam
ter medo. Se não sentirem medo do déspota, o Despotismo não
funciona. Na Monarquia, os súditos devem ter honra, porque é o amor
à própria honra que os faz manterem o monarca na linha. O monarca
pode muito, mas tem um limite, que é: ainda que ele possa tirar a vida
dos súditos, eles não tolerarão que lhes seja retirada a
honra. E na República, especialmente a democrática, a paixão
básica é o que ele chama de virtude e eu traduziria como abnegação:
é a capacidade de renunciar. A idéia de República é
essa: a idéia de renunciar ao bem próprio, em favor do bem comum.
O que quero extrair disso tudo é: se precisamos ter algum tipo de paixão
pública, de paixão social, para que um regime político funcione,
na democracia moderna o que tem funcionado como motor para as lutas das massas
que são justamente o que caracteriza o arquétipo melhor da democracia
moderna é o desejo de ter e de ser mais. Então, se não
tivermos presente esse desejo, e se não o valorizarmos, não vamos
entender nada e não vamos conseguir fazer nada que preste. Quando
falo em desejo, não estou falando só das carências, do movimento
dos Sem Terra, dos sem isso, sem aquilo; não basta ter carência de
algo, é preciso ter desejo de algo. Paradoxalmente (e talvez até
involuntariamente), os comerciais de TV exercem um papel democrático, precisamente
porque suscitam esse desejo nas pessoas. O que Montesquieu nos ensina é
que não se conseguirá conhecer o funcionamento de um regime político,
de um regime de relações entre as pessoas, se não se der
atenção às paixões, às emoções
que estão envolvidas. Há
emoções envolvidas não só na vida privada, mas também
na vida pública. A vida pública está estruturada sobre algum
tipo de emoção e, se não tivermos essa percepção
muito nítida, não entenderemos o funcionamento de uma sociedade.
Se construirmos uma sociedade com a melhor legislação e as melhores
instituições, mas isso não se escorar em paixões vividas
por aquela sociedade, a estrutura política ou jurídica girará
no vazio. Democracia
no Brasil É
muito importante levarmos em conta que uma sociedade de massas, sobretudo se estiver
marcada pela desigualdade social, é movida pelo desejo de ter mais e de
ser mais: essa sociedade tem que abrir espaço para isso, ou então
não conseguirá adesão popular. É isso o que marca
o Brasil da Nova República, o Brasil desde 1985. Temos tido formas democráticas
de governo, mas com deficiência no investimento democrático das massas,
isto é, nos meios para que elas possam ter mais e ser mais. Em 17 anos,
essa democracia não conseguiu dar, à grande maioria da população,
boas razões para que ela sinta que pode melhorar seu nível de vida.
Por
isso, os valores democráticos têm sido muito mais vantajosos para
a elite e classe média (que acabam se beneficiando mais do sistema jurídico
em que vivemos) do que para a grande maioria da população (que não
se reconhece num ambiente de desemprego). Os grandes êxitos do governo Fernando
Henrique foram tornar mais moderados os conflitos políticos, afastar ainda
mais os militares da cena do poder e introduzir um clima mais civilizado na discussão
política. São estes os méritos notáveis e inegáveis
de seu governo que talvez não sejam só seus, porque vêm
de um processo histórico de maior amplidão do que sua vontade pessoal,
mas certamente foram favorecidos por seu estilo de fazer política. Reconheço
esse mérito. Porém,
naquilo que diz respeito aos mais pobres, esses avanços vieram junto com
a consolidação do desemprego em níveis intoleráveis
para um país como o Brasil. Ou seja: conseguimos consolidar valores de
trato democrático, que funcionam já razoavelmente bem para a classe
média e dela para cima, mas não se construiu aquilo que traria,
para a grande massa, a esperança de emancipar-se da necessidade, da miséria.
É nesse sentido que, se não levarmos em conta o desejo, um regime
político pode ter seu alcance muito limitado e talvez até o horizonte
do fracasso apareça para ele. Não
basta levarmos em conta que a vivência política se origina em algum
tipo de desejo. É preciso que esse desejo se converta, também, em
direitos, que eles passem para outra esfera. É preciso que o elemento democrático
que faz as massas clamarem, por exemplo, por mais professores na Faculdade de
Filosofia da USP (refiro-me à recente greve, de três meses, de nossos
estudantes), por terra, por direito à saúde, que esse desejo de
ter o corpo saudável, a mente instruída, a alimentação
suficiente, que tudo isso se converta em direito, em lei. E para fazer isso, é
preciso ter a mediação da res publica, do bem comum. Se não,
vai ser só um clamor egoísta, de cada um por si. E
essa passagem é muito difícil. Muito difícil por duas razões:
primeira, porque o reconhecimento do desejo não é fácil.
Propositadamente, utilizo a palavra desejo nesse sentido vago, porque é
o sentido usado, antes de mais nada, pelos inimigos da democracia, já na
Grécia. Tem uma cor até pejorativa, mas acho importante recuperar
esse termo, para deixar claro queo desejo atinge âmbitos os mais variados,
às vezes imprevisíveis. Em nossa sociedade, é objeto de desejo
muita coisa que na Declaração de Direitos do Homem se considera
direito. Desejamos, muitas vezes, o básico, o banal, o imprescindível;
porém, junto com esse desejo por casa, comida etc., vem o desejo por um
tênis bom, de grife: aí já se misturam as coisas. Enquanto
a massa desejar apenas o necessário, todos reconhecem que isso é
moral ainda que esse desejo não seja satisfeito. Mas, no momento em que
um menino mata outro por um tênis, isso vira uma coisa indecente. Só
que há uma lógica nesse desejo do tênis, que é claro
que não justifica matar, mas deve ser entendida para captarmos o que é
a luta social, o que é a democracia: a paixão, em nossa sociedade,
é o tênis, é o carro, é tudo isso. Como vamos, então,
convencer alguém que ele não tem o direito de desejar, de se apaixonar? Desejo
privado x desejo público... O
desejo privado é mais simples, realiza-se com maior facilidade. Não
coloca tantos problemas percebê-lo, entendê-lo. Mas o que me interessa
é quando o desejo entra numa dimensão pública. Sem dúvida,
o desejo por um tênis é tão privado, e mais até, que
o desejo pela namorada. Mas o desejo pelo tênis, numa sociedade em que a
maior parte das pessoas não tem acesso aos tênis de grife e em que
quase todos têm em seu coração, suscitado pela televisão,
o desejo de ter um tênis de grife, é uma questão emocional
que acaba entrando no plano público. Mais do que isso: muitas vezes o desejo
por um tênis de grife pode dizer mais à sociedade do que certas questões
tradicionais da política, como, por exemplo, acabar com a miséria.
Acabar com a miséria, entendendo-a como proporcionar a todos as necessidades
básicas, no caráter complexo de nossa sociedade, talvez se torne
insuficiente, sempre falando de como chega às pessoas a agenda que lhes
propõe o seu desejo. Temos
de levar em conta que muita gente que não tem casa quer ter um tênis.
Que há mais casas no Brasil sem geladeira que sem televisão. Ou
seja, no Brasil há muita gente que aceita não preservar os alimentos
de um dia para o outro, mas que não abre mão de ver o espetáculo.
Há muita gente para quem o circo é mais importante que o pão!
Então,
o que quer dizer essa importância do circo, da emoção socialmente
vivida? Que não podemos pensar a política, a sociedade, somente
em função das idéias de interesse e de necessidades. Transformação
do desejo em direito: um desafio? O
primeiro passo consiste em reconhecer a legitimidade do desejo. No pensamento
político, isso é raro. O primeiro caderno de qualquer jornal brasileiro,
que fala de política, do Brasil, não trata disso. Se vocês
examinares o que meus colegas de Ciência Política dizem, hão
de perceber que não gostam dessa idéia. Não trabalham com
o termo desejo, mas com o termo interesse. Reconhecer o desejo e
todo o seu
caráter
ambíguo é muito complicado. Para
dar um exemplo, a famosa pergunta feita a Fernando Henrique na campanha para prefeito
de São Paulo, em 1985, "acredita ou não em Deus?", é
o tipo de pergunta que é desqualificada como irracional, que não
corresponde aos interesses dos cidadãos; não tem a menor importância
se ele crê ou não em Deus, e sim que tipo de gestão ele vai
fazer. Mas ela diz respeito ao desejo de muita gente que tem um espírito
religioso aguçado e para quem isso é importante. Desqualificar esse
tipo de pergunta é, por isso, uma atitude apressada, que termina por nos
impedir de entender como a política, de fato, é vivida. Temos,
diria eu, uma política, que chamo "política da Ciência
Política", que reconhece pouco espaço para a questão
do desejo, com tudo o que ela tem de imprevisto, de ambíguo e, até
mesmo, de duvidoso, mas que existe. Essa é uma primeira dificuldade...
Mas é só depois de reconhecer a importância do desejo que
vem outra questão: como civilizá-lo? Como fazer que aprendamos a
realizar o máximo possível do nosso desejo, mas nunca tudo, e isso
ainda de maneira a conciliar o máximo que se possa do meu desejo, do seu,
do de todos os sujeitos desejantes? Educação O
papel da Educação é complicado. De modo geral, quando se
fala em direitos humanos, afirma-se que o papel da Educação seria,
como li outro dia num artigo de jornal, o de consolidar os valores da cidadania.
Como se eles já estivessem dados, e como se a questão dos valores
devesse passar pela solidez e não, justamente, pela construção
de sujeitos capazes de lidar com a dúvida. Exagerando um pouco, mas só
um pouco, diria que consolidar valores é o que temos de mais próximo
da lavagem cerebral. É tratar das pessoas como se fossem gansos franceses,
e os valores como se fossem ração que se enfia goela abaixo deles.
O que devemos ter claro é que a educação deve procurar tornar
as pessoas o mais capazes possível de lidarem com um mundo de dúvidas,
de ambigüidades, e isso é importante tanto do ponto de vista psicológico
como do ponto de vista ético. Estamos
num mundo em que as condições de trabalho, de amor e de profissão,
todas elas, estão sob risco. Ninguém sabe quanto tempo vai durar
um casamento, um emprego ou mesmo uma profissão há profissões
que desaparecem! Temos que preparar as pessoas psicologicamente para agüentar
esse tranco e eticamente para enfrentar essa dificuldade. Fiz um cálculo:
quando um jovem escolhe uma profissão, ele está provavelmente com
15 a 17 anos, terminando o ensino médio. Elege uma profissão na
qual vai se formar daí a cinco anos, aos 21 ou 22 de idade, e na qual se
espera que se aposente aos setenta, com quarenta anos de exercício, ou
seja, quase meio século depois da escolha. Quem,
no ano de 2002, pode, em sã consciência, dizer que profissão
terá em 2047? E, no entanto, queremos que o jovem adote a escolha adequada
do ponto de vista prático, que lhe dê dinheiro e segurança
o que é impossível. Por esta razão, penso que o importante
na formação de alguém é preparar a pessoa para um
exercício profissional bom, mas dando-lhe uma formação que
a capacite a migrar, se isso for seu desejo ou necessidade. Isso me tem levado
a prestar muita atenção no fenômeno da evasão nas Universidades,
que não condeno com a mesma veemência dos reitores, porque nele vejo,
justamente, um sinal dessa busca por um trajeto de vida que o mundo acadêmico
e profissional não está conseguindo perceber. As
pessoas entram numa faculdade, e muitas vezes são as mais brilhantes, e
migram de um curso para outro e o que isso indica, senão que está
havendo um erro? Não que o professor seja pouco dedicado ou as matérias,
mal lecionadas. Não! Isso pode existir, mas a questão é mais
profunda: temos que formar pessoas que amem aprender, temos que dar a elas um
hardware ou um software, talvez com o mínimo necessário
para que sejam capazes, depois, de conquistar novos conteúdos e novas formações,
mas aceitando que possam migrar e que nada disso seja um fracasso, como hoje,
a rigor, muitos acham. Quando
um casamento se desfaz, não é que ele foi um fracasso. Ele pode
ter sido um sucesso durante um tempo. Profissionalmente, podemos adotar, também,
essa idéia de que os rumos mudam e de que as pessoas têm que ter
essa capacidade de mudança. Como
a educação lida com isto? Temos que ter uma educação
voltada para a construção do básico numa pessoa, daquilo
que resista nela se o mundo todo cair agora que a capacite para, se como dizia
Maysa "meu mundo caiu". Se isso ocorrer, que ela saiba onde se segurar
para refazer sua vida pessoal, empregatícia, sua escolha de uma área
de trabalho. Isso não são valores sólidos, no sentido convencional.
A capacidade de lidar com a instabilidade ainda hoje não é valorizada
devidamente. Se prestamos atenção na linguagem cotidiana, vemos
o valor que dá para a estabilidade, para a densidade, para o equilíbrio...
e isso num mundo em que tudo está sob terríveis ameaças. Desejos
e direitos humanos: ultrapassando os espaços políticos e entrando
na esfera do trabalho O
grande desafio hoje é: como fazer que valores democráticos (sobretudo
os ligados à demanda que vem de baixo para cima, por maior igualdade) e
valores republicanos (em especial os da construção do espaço
comum entre as pessoas) não se restrinjam ao mundo das instituições
políticas, mas difundam sua fecundidade por todas as relações
de trabalho e afetivas, os dois mundos ditos privados que fogem dele o mundo
da propriedade privada, que rege a maior parte das relações de trabalho,
e o mundo da vida privada, aqui no sentido de íntima, que rege a dimensão
do coração. Como fazer para difundir isso e para que esses valores
se espraiem? Primeiro,
é necessário que eles sejam difundidos, porque só isso dará
base a uma sociabilidade democrática. Não há instituições
democráticas sem pessoas democráticas. É preciso, pois, mexer
na psique das pessoas e, sobretudo, ver como se dá a tradução
do ideário democrático em cada coisa. Por exemplo: é democrática
a eleição do chefe de departamento, diretor de faculdade e reitor
da universidade? Isso é complicado; há os que acham que eles têm
que ser eleitos pela comunidade acadêmica o que traz um grande efeito
positivo, que é tornar mais transparentes, mais explícitas, mais
públicas as relações, criar um commitment, um compromisso
de parte a parte; mas, por outro lado, nenhuma universidade, sobretudo a pública,
tem por fim a comunidade que está nela. A finalidade da universidade é
a sociedade como um todo. Então, se as direções são
eleitas por quem está dentro desse processo, corre-se o risco de fazer
prevalecer o egoísmo dos membros do grupo, que se beneficiam com salários
ou com o ensino, sobre a sociedade, que é o fim efetivo da universidade.
Discutir como traduzir essa questão democrática na prática
cotidiana é muito complicado, mas já é importante fazê-lo.
Notemos,
também, que a palavra democrático assumiu sentidos muito
amplos. Costumo lembrar que falamos em pais democráticos sem imaginar que
tenham sido eleitos pelos filhos e o mesmo vale para o patrão, para o
professor, para o chefe: democrático, nesses casos, é quem age com
educação, com respeito ao outro. Aqui estão envolvidos alguns
valores básicos. O valor do respeito ao outro é uma expressão
do valor da igualdade. Quando se fala em igualdade, abstratamente, ela se realiza
na hora em que eu respeito o outro, apesar de toda a desigualdade social, etária,
intelectual que possa haver entre nós. Mas penso que, até por causa
da conversão do Brasil (e do mundo todo) em sociedade de massas, está
havendo um clamor tão forte por igualdade, que é bastante positivo. Desejos
e partido político O
desafio para nós, que temos uma formação acadêmica,
intelectual, é como fazer que certos clamores afetivos, desejantes, por
vezes muito prementes, mas também selvagens, convertam-se em algo mais
passível de se aplicar, de se vivenciar. Vendo de outra forma: temos, hoje,
a matéria bruta de um desejo muito forte de igualdade e, ao mesmo tempo,
não temos canais pelos quais ele se possa realizar. Desde a queda do Muro
de Berlim que em si foi muito boa, mas trouxe junto um avanço quase irrestrito
do capital, mundo afora , as reivindicações que em outras épocas
se traduziriam em militância política de esquerda foram se desviando
para lutas individuais, até criminais. Para mudar a sociedade, pessoas
que não têm em seu horizonte uma militância partidária,
eventualmente revolucionária, podem se desviar até para o crime.
Não estou dizendo que o militante se torna um criminoso, mas que, se essas
multidões miseráveis que existem no Brasil conseguem ter uma meta
política, elas têm um caminho a seguir. Como não conseguem,
muitos têm tentado as soluções individuais. Quando alguém
comentou que a existência do PT nos últimos vinte anos garantiu para
o Brasil um nível de paz social (por paradoxal que isso pareça),
que não haveria se só tivéssemos partidos não representativos
dos trabalhadores, disse a verdade. Estaríamos numa situação
muito pior, porque o PT assegurou um mínimo de tradução em
termos institucionais, no caso, político-partidários, para os desejos
sociais dos mais pobres. Mas isso ainda está muito longe do que precisamos
ter. Basicamente nosso problema, hoje, no Brasil, é a dificuldade de conseguir
ter linhas de tradução dos desejos populares em reivindicações
políticas claras e passíveis de serem executadas. Cidadania O
exemplo mais claro, porém também um pouco enganoso, da relação
entre direitos e deveres, ou da idéia de que a democracia não se
resume nos direitos humanos, mas implica as questões da participação
e do poder do povo, está na discussão sobre a obrigatoriedade do
voto. Muita gente diz: se o voto é um direito, como pode ser uma obrigação?
Pois ele é exatamente essas duas coisas, ilustrando muito bem essa síntese
que vem de Roma, da cidadania como direito e obrigação. Se, por
hipótese, todos nós, estando isentos da obrigação
de votar, não votássemos, a sociedade deixaria de ser democrática,
pois deixaria de haver governo eleito. O voto é interessante, talvez sobretudo
para minha geração, que só veio votar de verdade quando tinha
mais de quarenta anos. Entre 1960 e 1989, nenhum brasileiro, salvo poucos generais,
votou para presidente! É claro que, mais importante que votar a cada dois
ou quatro anos, é a pessoa atuar, constantemente, na defesa dos direitos
seus e dos outros. Mas, com isso, minha posição na questão
do voto é a mais oposta possível à dos defensores de seu
caráter facultativo. Eles acham que votar já é muito. Eu
acho que é pouco. E o cerne do erro deles está em conceberem a liberdade
e o direito como bem privado. Nesse sentido, aliás, captam muito bem um
traço freqüentíssimo no Brasil, que consiste em considerar
as coisas do ponto de vista do indivíduo, de sua vantagem, de seu patrimônio.
Pensa-se, então: "se tenho um direito, posso fazer uso dele da maneira
como eu quiser, inclusive não fazendo uso". Assim como o direito de
guiar um carro inclui o direito de não guiar carro, imagina-se que o direito
de votar, ou de participar da coisa pública, inclua o direito de não
fazer nada disso. Mas são direitos diferentes, um de claro perfil privado,
outro de caráter público. Ou, para usar a linguagem do pensador
liberal Isaiah Berlin, o direito de ter carro, e em suma os direitos de ter, pertencem
ao mundo da liberdade negativa (freedom from...), que é tanto maior
quanto menos houver interferência do outro ou do setor público, ao
passo que o direito de votar, diria eu, pertence à esfera da liberdade
afirmativa ou positiva (freedom to...). Se não tivermos isso claro,
não construiremos uma sociabilidade democrática. Vejam bem, nem
mesmo estou defendendo a obrigatoriedade do voto. Estou apenas, mas é isso
o essencial, levantando o que está por trás dessa discussão
de uma classe média que não quer perder alguns minutos num domingo,
cada dois anos. E que por isso mesmo difunde uma mentira extraordinária,
segundo a qual "só no Brasil" haveria o voto obrigatório,
esquecendo que existem países chamados Argentina, Austrália, Bélgica,
Costa Rica, Itália, entre outros, que também exigem do eleitor que
vá votar. É
claro que não será obrigando as pessoas, com penalidades, que se
construirá uma sociedade democrática e republicana. Apenas acredito
que deveríamos ter uma educação não apenas na escola,
mas na sociedade como um todo que sensibilizasse mais as pessoas para a necessidade
de atuarem, coletivamente, em favor do bem comum. Até porque isso reverte
para elas próprias. E aí, de novo vem a questão da obrigação
política, da obrigação de agir e da responsabilidade pela
sociedade em que se vive. Direitos
humanos Os
direitos humanos são considerados por seus militantes como se idealmente
todos eles fossem conciliáveis. Isto é: os direitos humanos seriam
indivisíveis. O direito a ser julgado de maneira imparcial, a não
ser preso sem as formalidades da lei, o direito da mulher à igualdade com
o homem, o direito à não discriminação por razões
éticas... todos eles se conjugam. Há um clamor importante dos movimentos
de Direitos Humanos para que nenhum deles seja usado contra outro. Mas é
claro que há uma tendência é, sim, a jogar um contra outro.
Em
primeiro lugar, há conflito entre certos direitos humanos. Por exemplo,
o direito a uma vida sexualmente feliz (não sei se esse direito está
em alguma Declaração, mas podemos imaginar que, se não está,
é por erro da Declaração) entra em contradição
com o direito à prostituição porque, obviamente, é
muito difícil imaginar a prostituição conjugada a uma vida
sexual boa ela é o melhor emblema de uma vida sexual ruim entre as pessoas.
No entanto, é claro que há um acordo possível entre os dois
direitos: para uma vida sexual feliz, ninguém precisa que as prostitutas
sejam exploradas, espancadas ou maltratadas. Outro
direito que muitas vezes também entra em conflito se refere à propriedade.
Temos aí duas formulações. É importante realçar
que o direito à propriedade é um direito universal. Quando
o Movimento dos Sem Terra reivindica terras, está reivindicando o direito
à propriedade, direito esse do qual são titulares todos, tanto os
que têm quanto a maioria que não tem propriedade. Por outro lado,
o direito de propriedade é o direito da propriedade existente, um
direito não universal, da ordem do privilégio, e que nega o primeiro,
o direito do sem-terra a ter o mesmo que os com-terra. O
que é importante é termos noção de que muitos dos
conflitos que ocorrem hoje são expressos, por um e por outro lado, na linguagem
dos direitos humanos. Isso tem um lado muito bom: estamos tão imbuídos
dos direitos humanos que até para os enfrentar se faz uso deles. O
grande exemplo que vejo nisso são os programas do apresentador Ratinho,
o ex-deputado Carlos Massa. Aos olhos dos militantes de Direitos Humanos, Ratinho
é o emblema mais nítido contra os referidos direitos (ele e o político
paulista Paulo Salim Maluf, que também costuma falar contra os militantes
desse tema). No entanto, se vemos bem o Programa do Ratinho, notamos que ele é
contra os direitos humanos numa acepção precisa: a do direito, que
tem o cidadão, de ter sua inocência presumida em face das ações
policiais. Esse é o ponto em que o Ratinho é contra os direitos
humanos. Ele defende uma polícia repressiva, que eventualmente não
faça muitas perguntas... Essa visão é muito conservadora,
errada. Mas, por outro lado, quando Ratinho coloca casais em cena, geralmente
toma o partido da mulher contra o marido opressor. E isso é engraçado,
porque obviamente a questão das mulheres afeta pelo menos metade da população,
senão toda ela, ao passo que a questão da pessoa em face da polícia
afeta, na prática, muito menos gente (mesmo que, em princípio, possa
afetar também a todos). O
que quero dizer é que mesmo uma figura pública extremamente contrária
aos direitos humanos na concepção dos militantes, de uso corrente,
acaba tendo que aderir a outra concepção de direitos humanos. O
que isso implica? Que, hoje, é muito difícil se sair do universo
dos direitos humanos. O que os militantes devem fazer no caso do Ratinho é,
para além de apontar suas falhas, mostrar que existem direitos humanos
outros que não apenas os em face da polícia. Infelizmente parece
que parte dos militantes dos direitos humanos, talvez por uma série de
acasos, se confinou na questão da violência policial. E com isso
se fica com uma falsa impressão, que eu também já tive, segundo
a qual os direitos humanos são impopulares. Essa é uma leitura superficial,
à primeira vista; com efeito, o discurso dos direitos humanos parece só
persuadir quem já está convencido; mas, se cavarmos mais fundo,
veremos que por vezes estamos dando, à opinião pública, uma
visão errada, porque parcial, dos direitos humanos, como se estes fossem
os do outro ameaçador (o criminoso), e não os de todos nós.
É
fundamental deixar bem claro que os direitos humanos estão presentes, sobretudo,
na questão da igualdade dos sexos, penso eu que o ponto mais visível
da nossa sociedade. Salientando isso, acredito que possamos conquistar para a
causa dos direitos humanos muitas pessoas que são céticas em relação
a ela, que não percebem que não dá para defender uma parte
dos direitos humanos sem defender as outras. Como antes afirmei, constatamos alguns
conflitos entre os direitos humanos, mas devemos ter como meta a construção
deles como um todo integrado, e assim, se tomarmos os aspectos em que eles são
fortes e têm a simpatia popular, teremos condições de promover
avanços importantes junto aos pontos que estão menos claros para
o público em geral. Para tanto, é essencial termos claro que os
direitos não podem ser entendidos apenas como liberdades no sentido privado
do termo das quais se faz ou não uso, como se fossem bens sobre os quais
temos direito de uso, de fruto e de abuso, ou seja: de alienação
e destruição. Os direitos humanos estão ligados a uma idéia
de liberdade que inclui, também, o dever de lutar por ela. E no caso dessa
prática, isso implicaria diálogo, vivenciar os conflitos, aprender
a lidar com eles, trazê-los para os locais de trabalho, para as relações
pessoais. Na
escola e na universidade, é muito importante compreender o que está
do outro lado da fronteira. Anos
atrás,
quando eu estava no Conselho Deliberativo do CNPq, foi discutida uma noção
de beneficiário da pesquisa, do auxílio de pesquisa. O beneficiário
geralmente é a pessoa cujo CPF está lá e que recebe o dinheiro
em sua conta. Começou a surgir uma outra idéia, que naquela época
acabei propondo que fosse identificada sob o nome de beneficiário social
da pesquisa, que é aquele para quem vai reverter a qualidade da pesquisa.
Por exemplo, numa pesquisa sobre vacina, serão as comunidades que se protegerão
de determinadas doenças quando puderem ser vacinadas contra elas. A questão
é: quando formamos um aluno na graduação, na pós-graduação
ou para uma vida de pesquisa, é preciso ter em mente em que isso resulta.
Não se trata de tornar as coisas mesquinhamente utilitárias, mas
de ter noção de "para que isso está revertendo?".
O que significa determinado ato, qual resultado ele vai trazer socialmente: esse
tipo de preocupação nós temos muito pouco, no Brasil. Deveríamos
aumentar a preocupação de saber em que alguma coisa vai reverter.
Isso está ligado ao que eu chamo quebra de fronteiras. Se nós, dentro
da universidade, tivermos a capacidade de parar de pensar em universidade e sociedade
como opostas ou até mesmo como diferentes, e começarmos a discutir
que tipo de ligações, de complexidades, de trabalhos conjuntos há
ou pode haver entre elas, daremos certos saltos que faltam. Isso muitas vezes
tem efeito até na qualidade da pesquisa. O fato de não se dar a
devida atenção à sociedade ambiente, por vezes, deteriora
a qualidade da pesquisa, porque a pesquisa acaba pensada mais em termos de um
mundo ideal do que dos desafios reais que estão diante dela e de nós. Direitos
humanos: desafios à formação em saúde Há
o óbvio: nós, vivendo numa sociedade das vítimas da desigualdade
social da desigualdade social intensa, de miséria , temos de pensar
em termos de responsabilidade social. Os currículos universitários
têm que levar em conta isso. Não se trata de cortar cursos ou áreas,
mas, se uma pessoa escolhe uma especialidade da Medicina mais voltada para as
camadas mais ricas da população, deve ficar muito claro, para todos,
e até de público, se for numa universidade pública, que ela
está fazendo essa escolha. Não devemos tornar fácil, moralmente,
essa escolha. Porque não se trata de uma escolha de direito ou foro privado,
pois quem a toma é uma pessoa que está sendo paga pela sociedade
para estudar de graça. Também
vejo uma mudança grande na Saúde nos últimos anos. Até
um tempo atrás, a Saúde era vista como a tentativa de eliminar males,
levando o corpo a um estado de bem-estar que seria basicamente um grau zero de
mal-estar. A saúde parecia ser entendida como ausência, negação
da doença. Mas, de um tempo para cá, surgiu uma nova idéia
de saúde, na qual se anseia por mais, e não só por zero.
A Medicina Ortomolecular ofereceu isso, as hiperdoses de vitamina também.
Quando fui operado da miopia, o médico falou em "curar a doença";
achei curioso, porque sei que outros oftalmologistas, como meu primo Fabio Guimarães
Lobo, consideram que a miopia ou o astigmatismo não são doenças,
mas uma forma de ser que traz incômodos, sim, mas não constitui uma
moléstia; ou seja, está havendo uma oferta na Medicina de não
apenas reduzir a zero o mal-estar, mas de promover, ativamente, o bem-estar. O
Prozac, o Xenical, o Viagra, além das vitaminas que permitem a nossos filhos
serem maiores que nós, que permitem a nossos filhos e netos terem uma expectativa
de vida maior que a nossa... tudo isso vai numa direção diferente
da que até um tempo atrás era a linha principal da Medicina. E essa
linha tem trazido muito dinheiro, não é inocente. Traz muito dinheiro
e enormes vantagens para quem a cultiva. A discussão social e política
disso é fundamental. Por
um lado, são avanços incríveis na área de Saúde,
que temos de aplaudir. Por outro, precisamos entender bem o que isso significa.
Não se trata de defender um ideal de Medicina mais modesto. O surgimento
prometéico
de uma Medicina
mais ambiciosa em termos de resultados é muito bom. Contudo, a grande questão
que se coloca hoje é: como se faz a apropriação social desses
resultados. Será um desafio para os estudantes, os futuros médicos
e para a sociedade como um todo, na medida em que o corpo das pessoas está
em jogo o corpo e a psique. À medida que essas novas formas de tratamento
tiverem êxito vai ser cada vez mais discutido quem tem direito a isso. Podemos
chegar a uma sociedade dividida em corpos de rico e corpos de pobre. Corpos bem
esculpidos, saudáveis, quem sabe até acompanhados de uma psique
mais feliz, versus corpos e psiques infelizes por questão de dinheiro.
Na profissão médica, essa questão talvez seja decisiva, nos
próximos anos. Como fazer para que o valor da igualdade prevaleça
sobre as tendências de uma sociedade capitalista selvagem, sobre uma desigualdade
tão grande? Temos
níveis de Educação muito diferentes. É mais óbvia
a desigualdade na Educação entre uma escola boa geralmente particular
e uma escola ruim, infelizmente muitas vezes pública. Mas o que está
acontecendo na Saúde talvez deixe marcas mais fortes, porque são
marcas que passam pelo corpo. Na Educação, ainda é possível
reverter a diferença, até porque há constantemente uma ascensão
social de gente pobre mas inteligente, dedicada, que sempre, até nas sociedades
mais desiguais, consegue entrar na elite. Mas, se tivermos corpos tratados desde
muito cedo de maneiras diferente, estaremos perto do mundo terrível que
Aldous
Huxley descreve
no Admirável Mundo Novo, em que desde o feto ou embrião já
são programadas as pessoas para destinos distintos. Esse é o desafio
principal, que tenho visto muito pouco tratado. Não vi ser discutida essa
questão que para mim, hoje, é a crucial da Medicina. Promete-se
uma vida sexual exuberante, corpos magros mesmo comendo gordura, alegria mediante
medicamentos, vista sem óculos. Quando meu filho estava para nascer, ouvi
uma mulher dizer que estava achando tão incômoda a gravidez que,
se fosse ter outro filho, ela pensava em alugar uma barriga. E dizia isso a sério!
É levar a desigualdade social, a contratação, a manipulação
do outro pelo dinheiro, muito longe. Numa sociedade com tantos miseráveis,
certamente ela encontraria uma mulher que aceitasse ser paga para isso. É
errado. Ninguém deve ser forçado pela miséria a se prostituir,
a alugar a barriga ou fazer inúmeras profissões que estão
no limite da indignidade, como acontece aqui. Incluo nesse limite até mesmo
as pessoas que distribuem propaganda de prédio na rua. É um desmerecimento
precisar ter esse tipo de trabalho, precisar pedir esmola. Por sinal, às
vezes escolhem garotas esculturais para isso. E a coisa piora, quando os corpos
são montados desigualmente e quando isso é aceito. Esse ponto deve
exigir muita atenção dos médicos e futuros médicos:
pensar o que a profissão deles está fazendo para reduzir ou, ao
contrário para aumentar a desigualdade social. Há
otimismo na conquista real dos direitos humano .... A
questão é ambígua. Penso que é muito positivo os pobres,
os miseráveis, não aceitarem mais a desigualdade social como ela
é. Isso é muito bom e está crescendo. Quando fui morar na
França, há trinta anos, um dia uma amiga me mostrou a carta que
tinha recebido da empregada da família dela, que trabalhava para eles há
vinte, trinta anos. A empregada tinha chorado a noite toda quando soube que a
filha do patrão estava morando num quartinho pequeno, sem banheiro dentro,
e colocou à disposição todas as economias da vida toda dela
empregada para a filha do "sinhô" morar melhor. É bonito
humanamente, é horrível socialmente. Esse tipo de aceitação
da desigualdade social está desaparecendo e isso é muito bom. Hoje,
uma mulher que trabalhou a vida toda não vai simplesmente usar suas economias
para isso. Vai querer casar, deixar para a família, comprar uma televisão
ou se vestir bonito. Passamos a ter essas afirmações em si que,
numa sociedade de massa, são a tradução da idéia de
igualdade: sou igual a você, por que tenho de me vestir pior? Por que não
posso ter prazer no vestir-me, no comer? Isso é muito positivo. Mas,
desde que o capitalismo praticamente venceu por nocaute o comunismo, ele não
faz concessões ao trabalho, o que deixa a situação do trabalhador
sobretudo a do desempregado precária. Por um lado, temos um desejo
cada vez mais generalizado das bênçãos que o capitalismo fornece
em termos de bens de consumo e dos valores cidadãos. Por outro lado, as
condições de realizar isso na prática estão muito
restritas. Temos dois fios puxados em direção contrária:
um desejo crescente por bens (em todos os sentidos, tanto propriedades como coisas
boas), mas também sua inviabilização na prática, porque,
quando se mantém na grande São Paulo um desemprego da ordem de 1/6
da população ativa, é assustador. As pessoas vêm TV
e não têm como saciar os desejos que são instigados nelas
pelos programas e pelos comerciais da televisão. Isso torna o déficit
de cidadania preocupante e é uma das causas do nível de violência
na sociedade, independentemente da resposta tosca "a pessoa rouba porque
não tem dinheiro, porque não tem trabalho". Não
é isso. A pessoa se torna agressiva mesmo que nunca o expresse, mas a
agressividade dela cresce porque o descompasso entre o desejo e as condições
de sua realização é intransponível. Cria-se um abismo
na psique das pessoas. Resultado: ela pode nunca roubar, mas será áspera,
talvez arruíne seu casamento, construirá relações
péssimas com seu entorno porque constatar esse abismo a torna agressiva.
Daí, ser fundamental construirmos condições para que esses
desejos sejam passíveis de alguma realização. Estamos diante
de um processo que já tem dez, 12 anos, desde o triunfo neoliberal. Como
será nos próximos anos? Seremos capazes de construir na América
do Sul alternativas que realizem os direitos humanos, que reduzam esse descompasso
ou vamos acirrar as tensões? Estamos diante de opções de
civilização e é difícil saber; se Bush perder as eleições
daqui a dois anos, o mundo vai ser um ou outro; e, dependendo do candidato que
ganhar no Brasil, nosso cenário pode mudar muito, ou não. | | |