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versus PSDB As
eleições no Brasil marcaram uma mudança significativa na
relação entre os dois melhores partidos brasileiros, que são
o Partido dos Trabalhadores (PT), que agora alcançou a presidência,
e o Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), que a deixa depois de oito
anos no poder. É bom lembrar que após o impeachment de Fernando
Collor, em 1992, muitos simpatizantes e mesmo membros dos dois partidos quiseram
uma aliança entre eles. Por que não foi feita, pertence em parte
à petite histoire , mas o fato é que, de 1994 para cá,
a distância entre os dois partidos aumentou muito. Antes, ambos pertenciam
ao arco mais de esquerda das forças anti-ditatoriais. Mas a aliança
do PSDB com o PFL, que apoiara a ditadura até um ano antes de seu fim,
bem como a adoção de uma política econômica vista por
muitos como neoliberal, tornou difíceis suas relações. Mesmo
assim, o país se beneficiou de ter, estes anos, como cabeças de
chapa dos dois lados da política, gente dos melhores partidos, os menos
fisiológicos, os mais ideológicos, se podemos usar esse termo no
sentido positivo. Costumo
dizer que a boa política de nossos tempos, a que o século XX legou
aos tempos presentes, se dá em torno de quatro linhas-mestras, que são
os temas da república, da democracia, do socialismo e do liberalismo. Esses
ideais são divergentes e às vezes (é o caso dos dois últimos)
até mesmo antagônicos, mas não importa: toda boa política,
hoje, tem de dosar de algum modo os quatro. (Inversamente, a má política
de nossos tempos tem por principais tópicos o totalitarismo e o racismo).
Por democracia , devemos
entender a idéia grega de que o poder é do povo. Mas entre os gregos,
tanto os defensores quanto os detratores da democracia compreendiam por povo hoi
polloi, a multidão, isto é, os pobres; e por isso os inimigos
da democracia viam nela o perigo de que os sem-tudo invejassem os mais ricos.
Essa dimensão da democracia – seu apelo à massa que deseja ter,
e ser, mais do que tem e é – foi ignorada no Ocidente quando se ressuscitou
esse regime, no século XVIII, cuidadosamente privado do alcance social
que tinha já entre os gregos. Mas, se considerarmos cada regime, não
tanto em suas instituições, mas no modo como conquista apoio e adesão
do povo (isto é, o se vemos não de cima para baixo, mas de baixo
para cima), a democracia atrai na medida em que aposta no que hoje podemos chamar
a afirmação de si, o desejo de ter e ser. Por isso, a democracia
é um regime do desejo, da cidadania como desejo. Já
por república, devemos entender a idéia romana de dar destaque ao
bem comum, sobre os interesses privados. A defesa da coisa pública prevalece
também sobre os desejos: é um regime da contenção,
da força de vontade. E por isso, se toda política decente hoje é
republicana e democrática, há tensão entre suas duas
identidades, porque a massa só a apóia se ela lhe satisfizer desejos
– e ela só funciona e subsiste se o espírito da coisa pública
levar a uma certa renúncia aos desejos e interesses. Daí, certas
dificuldades da política numa época em que, pelo menos no Ocidente,
a renúncia ao desejo parece algo que não se pode pedir ao povo.
Contrastem o sacrifício de suas vidas que os terroristas de 11 de setembro
fizeram, com a mobilização proposta por Bush dias depois e que não
só apelava a soldados que não são mais conscritos, porém
profissionais (o recrutamento universal está desaparecendo no Ocidente),
como pedia à população como um todo, pela primeira vez na
história do mundo em tempo de guerra, não que poupasse, mas que
consumisse. O consumo é um dos melhores sinais do desejo de ter. Sustento
que o PT expressa, na política brasileira, a vertente democrática,
e o PSDB, a republicana. Nessa diferença se dá o seu conflito. O
apelo do PT a seus simpatizantes, o que acaba de levá-lo a ser o partido
mais votado do Brasil, provém de legitimar seu anseio por igualdade, o
que em termos práticos quer dizer que a enorme massa de sem-terra, sem-teto,
sem-emprego vê nele as chances de ter mais bens, e de ser
mais respeitada. O problema, aqui, é que numa sociedade complexa como a
moderna não existe mais um demos único, um povo como aquele
com quem sonharam os românticos e os marxistas, mas uma série de
pequenos demoi, de sub-povos. Cada um deles – sem-terra, feministas, gays,
desempregados, funcionários públicos, comunidade acadêmica
– mobiliza-se com uma intensidade e mesmo organicidade comparáveis às
do antigo demos grego, mas o problema é que cada um deles é
uma parte, e nem mesmo sua soma faz algo que possamos chamar o povo. Já
o discurso do PSDB, estes anos em que esteve no governo, era o da governabilidade.
Certo dia, quando o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa a funcionários
que reclamavam uma reposição salarial, o presidente Fernando Henrique
teria dito: "Eles não pensam no Brasil". Essa preocupação
com o todo, com a res publica, marcou o discurso tucano. Levou-o, porém,
a dois problemas cruciais. O primeiro: ele passou a sistematicamente desqualificar
a prática democrática realmente existente, isto é, a dos
movimentos sociais, os sub-povos de que falei e entre os quais o PT navega como
peixe n’água. Uma clara ruptura se inscreveu assim entre o PSDB e os movimentos
que são realmente sociais e democráticos, os quais ele denunciou,
o tempo todo, como corporativistas. Não fez então o que podia e
devia ter feito, e que o PT deverá fazer, isto é, apostar na mobilização
popular e procurar melhorá-la: só tentou acabar com ela, desde a
greve de petroleiros que iniciou o governo FHC e que este fez questão de
quebrar. Segundo problema
tucano: na ausência de apoio dos movimentos sociais de perfil democrático,
a racionalidade que ele assumiu como discurso republicano foi a do capital. Os
mercados passaram a ser o sujeito mais respeitado nas preocupações
economicistas do governo. Só vale a pena notar que nos últimos meses,
quando a derrota nas eleições presidenciais parecia se consolidar,
até o presidente e o ministro da Fazenda começaram a criticar os
mercados, dizendo-o irracional. Antropomorfizaram-no, chamando-o de nervoso, mas
mesmo assim continuavam considerando legítimo acalmá-lo, ainda que
a alto custo para o país. O
que estou chamando de ponto de vista republicano, à diferença do
democrático, alguns ideólogos tucanos preferiram entender, ou subentender,
segundo uma linguagem hegeliana. O que denomino res publica seria, então,
o universal; já os movimentos sociais se condenariam à particularidade.
Se quiséssemos usar essa terminologia, o que diríamos é que
os tucanos acabaram chamando de universal também uma particularidade, até
menos legítima que a das corporações mobilizadas, que é
a do capital, em especial financeiro. E terá sido essa a causa de seu fracasso.
Ou seja, os temas republicanos ficaram mais no discurso do que na prática.
Enquanto o PT, do lado da oposição e em seus governos locais, de
modo geral apostou numa real prática democrática (mobilizando os
desejantes em torno de seus anseios), o PSDB, nos governos mais poderosos, não
chegou a resgatar a política e a sociedade brasileiras da hipoteca do capital
financeiro. É
essa diferença que explica o antagonismo de nossos melhores partidos. Muitos
de nós lastimamos, desde 1994, que eles ficassem em campos opostos – até
porque, se nas eleições federais o centro (o PSDB) se aliava com
a direita (o PFL que rompeu com a ditadura bem no final, mas também o PPB
dos ditatoriais não arrependidos), no segundo turno das eleições
estaduais e municipais houve muitas vezes a tendência de se repetir o arco
de alianças da época da ditadura, isto é, a direita de um
lado, o centro e a esquerda de outro . Na eleição para a presidência,
na qual o principal tema é a economia, o centro e a direita se uniram desde
1994 em torno de uma agenda liberal, ao passo que nas formas de sociabilidade
mais imediatas, visíveis nos planos estadual e municipal, demarcam-se nitidamente
as convicções da direita, por um lado, e do centro e da esquerda,
por outro. Por isso mesmo, muitos acreditavam que o ideal para a esquerda era
ir comendo o mingau pelas bordas – isto é, eleger mais e mais prefeitos
e governadores de Estado, formando uma aliança on the spot com o
centro, treinando administradores e políticas públicas, para então
(em 2006) lançar-se à presidência, partindo de um patamar
mais consolidado. Não foi o que aconteceu. A estratégia de Lula
deu certo, unindo os descontentes por seus desejos. Aliás, a impressão
durante a campanha era que, para tanto, o PT sacrificara seus outros candidatos;
vimos que não foi isso o que aconteceu, porque ele terminou por formar
a maior bancada federal , por ser o único partido presente em todas as
assembléias estaduais e por concorrer com chances razoáveis a vários
governos de Estado. Se
podemos fazer prognósticos (podemos, claro; a dúvida é se
eles terão algum sentido), serão os seguintes. O grande desafio
do PT será totalizar os desejos dos vários sub-povos em que se divide
uma sociedade complexa. (Foi a incapacidade do partido para conciliar os desejos
dos trabalhadores dos transportes coletivos e os da população que
levou o PT a perder a prefeitura de São Paulo para Maluf, em 1992, iniciando
oito anos de péssima gestão da direita na maior cidade brasileira).
Precisará postergar a satisfação de desejos, deverá
forjar um discurso republicano que, até agora, foi a marca registrada mais
do PSDB do que a sua. Por
outro lado, a direita nostálgica da ditadura sofreu um rude golpe, com
a derrota de Maluf em S. Paulo, que nem chegou a ir para o segundo turno. Líderes
importantes da direita, como ele e o baiano Antonio Carlos Magalhães, desde
algum tempo já não têm dimensão nacional, mas apenas
estadual. A direita nem teve candidato à presidência, este ano. E
tanto no Brasil quanto em seu Estado mais rico, para não dizer em outros,
a oposição relevante passou a ser entre PT e PSDB (no Rio Grande
do Sul e em Santa Catarina, o PMDB local está mais próximo da seriedade
tucana do que do condomínio de interesses regionais em que o grande partido
da resistência à ditadura se converteu no país afora). É
claro que isso tende a afastar nossos dois melhores partidos, mas por outro lado
fez e talvez continue fazendo que os dois lugares principais do espectro político
sejam ocupados por lideranças de melhor qualidade que as outras. De passagem,
cabe notar que em 2000 alguns comentadores incluíam o PFL entre os partidos
de real perfil ideológico e de forte presença política. Nos
dois últimos anos, uma sucessão de trapalhadas levou, primeiro,
seu cacique Antonio Carlos Magalhães a perder a influência nacional
e, depois, sua governadora do Maranhão, Roseana Sarney, a perder a candidatura
à presidência. Mas estas circunstâncias provavelmente não
foram causa, mas sintoma, de estar esse partido, liderado por oligarquias regionais,
perdendo o pé na política brasileira. Em suma: se não houver
desastres econômicos, o que infelizmente depende relativamente pouco de
Lula, porque nisso é enorme a influência internacional e especulativa,
os próximos anos podem ser muito ricos para a democracia brasileira. | | |