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| | | | Perspectivas
do governo Lula Um
aspecto importante na sociedade brasileira, que certamente vai ser recolhido na
nova política a se iniciar com a vitória presidencial do Partido
dos Trabalhadores, é o do que podemos chamar o tripé composto pelas
ONGs, pelo Ministério Público e pelo próprio PT. Tudo isso
constitui uma nova sociabilidade política, que merece ser detalhada. Aliás,
a associação entre o PT e alguns dos procuradores de Justiça
mais combativos é freqüentemente feita, geralmente para acusá-los
de serem movidos por interesses políticos. Mas comecemos pela Constituição
Federal de 1988, que deu maior autonomia ao Ministério Público,
a ponto de ele quase constituir (no que seria um exagero), um quarto poder constitucional.
Duas foram as grandes mudanças. A primeira consistiu em dar, ao chefe do
Ministério Público, seja federal, seja estadual, um mandato e uma
autonomia em face do Poder Executivo. Assim, o procurador-geral da República
é nomeado pelo presidente por dois anos, ad referendum do Senado,
e os procuradores-gerais de Justiça, nos Estados, geralmente são
designados também com um mandato, pelos governadores, a partir de listas
tríplices encaminhadas pelos procuradores na ativa. A segunda implicou
separar, da representação dos interesses da sociedade que constitui
o cerne do Ministério Público, um papel que antes se confundia com
esse, que é o de advocacia da União (ou dos Estados). Criou-se,
no âmbito federal, a Advocacia Geral da União, e nos Estados papel
análogo foi assumido pela procuradoria-geral do Estado, separada da de
Justiça. Não é raro que as duas procuradorias se oponham
em juízo, uma representando a sociedade, a outra o poder estatal. É
esse novo recorte institucional que permitiu a alguns procuradores, federais ou
estaduais, se destacarem politicamente. Um deles, o procurador federal Luis Francisco,
ganhou notoriedade, depois de uma série de processos que moveu contra figuras
importantes da República. No ano de 2001, foi ele quem gravou – sem os
interessados o saberem – uma conversa do então senador Antonio Carlos Magalhães,
que acabava de deixar a presidência do Senado e fora dizer a alguns colegas
de Luís Francisco o que achava de seus desafetos, inclusive o presidente
da República. Essa gravação, repassada a jornalistas, foi
um dos fatores decisivos para levar Antonio Carlos à renúncia de
seu mandato, arrematando um processo pelo qual ele, de homem forte durante o primeiro
mandato de Fernando Henrique, quando presidia o Senado e seu filho Luís
Eduardo a Câmara de Deputados, passou a ser apenas o homem forte da Bahia,
mas desprovido de qualquer influência além de seu Estado natal. Essa
tomada de iniciativa por parte do Ministério Público não
agradou ao governo do PSDB, que tentou coibi-la mediante a chamada lei da mordaça,
que impediria os promotores e procuradores de falarem à imprensa sobre
os processos a seus cuidados. O Congresso, até agora, recusou os projetos
neste sentido e é pouco provável que no próximo governo eles
voltem a ser apresentados. Mas vamos ao substancial, neste assunto. Antes
de mais nada, pode-se argumentar que foi a renúncia do Poder Executivo
a vários de seus papéis – entre eles, o de aplicar às emissoras
de televisão os preceitos constitucionais da descentralização
regional, além de suas obrigações com a cidadania e a educação
– que levou o Ministério Público a expandir sua atuação.
Ele assim ocupou as funções de representante dos interesses sociais,
inclusive os difusos, contra vários tipos de abuso que antes ficavam impunes,
e que vão desde abusos bastante tradicionais – a corrupção
política, por parte sobretudo do Poder Executivo – até abusos "novos",
como os presentes nas relações de consumo, na degradação
do meio-ambiente etc. Sabemos
que, nos Estados Unidos, desde os anos 60 várias decisões que antes
teriam sido tomadas no âmbito dos Poderes Legislativo e Executivo passaram
para o do Judiciário. Desde o final do governo Lyndon Johnson, que foi
o último daquele país a adotar uma clara agenda de abordagem dos
problemas sociais, as questões decisivas da cidadania têm sido tratadas
mais na Corte Suprema e nos tribunais do que nas eleições gerais
– é o caso da dessegregação, da pena de morte e do aborto.
A esse processo, chama-se "judicialização". Alguns
dizem que no Brasil também ocorreria uma judicialização.
Discordo: são mais os promotores e procuradores, do que os juízes,
que na prática assumem o papel de representantes, se não da sociedade
como um todo, pelo menos de alguns relevantes direitos e interesses sociais. Como
é comum chamar o Ministério Público de MP, sugiro chamar
esse processo de "emepeização" da política. Fique
claro, de todo modo, que não é a totalidade, nem sequer a maioria,
do MP que toma a defesa da cidadania, assim como nos Estados Unidos está
longe de ser o Judiciário em sua totalidade a assumir perfil político.
Mas a ação mesmo de uma minoria pode ter uma significação
social, que vale a pena analisar. Tanto
a "emepeização" brasileira da política quanto a
"judicialização" norte-americana só foram propiciadas
pela renúncia ou fracasso dos poderes competentes – o legislativo e o executivo
– para enfrentar as questões sociais. E é sinal desse insucesso,
ou mesmo falta de vontade política do Poder Executivo, que o presidente
Fernando Henrique tenha tido como procurador-geral da República um advogado
que coibiu o quanto pôde a iniciativa independente de seus subordinados,
a ponto de ser chamado "engavetador-geral da República", tal
seu empenho em frear processos que afetariam poderosos. Foi esse um dos aspectos
mais criticados na gestão presidencial que ora se encerra. Ministério
Público e Organizações Não Governamentais Mas
o mais importante a notar é a convergência entre Ministério
Público e ONGs. As organizações não governamentais,
hoje se difundindo pelo mundo inteiro, marcam uma intervenção sistemática
de vontades privadas na esfera pública. Sua novidade consiste em agirem
sem precisarem, mais, ser legitimadas pelo Estado; ao contrário, elas legitimam
a si próprias. No Brasil como em outros países, há uma espécie
de simpatia por princípio com o termo ONG, como se fossem todas elas benfazejas.
Na
Idade Média, como mostra Otto von Gierke, e ainda na modernidade descrita
por Hobbes no Leviatã, a constituição de pessoas jurídicas
ou personae fictae dependia da autorização do soberano. Com
as ONGs, as coisas se passam de maneira inteiramente distinta. Para uma delas
ter legitimidade social, basta que enuncie seus propósitos. Torna-se dispensável,
e até indesejável, o endosso estatal a ela. Ela rompe com toda idéia
de legitimidade que remeta a um poder soberano, fosse esse o do rei, ou mesmo
o do Estado democrático. Ela tem em seu favor uma intensa presunção
de boas intenções, e também a suposição de
sua eficácia. O voluntariado, a disposição de praticar o
bem, a eficiência, tudo isso contrasta com a lentidão do aparelho
de Estado, e cria um modo, mais que novo, inédito, de legitimar a ação
pública. Não sei em Portugal, mas no Brasil há um sentimento
difuso, quase ainda que nunca explicitado, de que ONGs podem ser até mais
legítimas do que o poder eleito, porque são bondosas, porque emanam
da vontade privada, porque não as corrompe o ferrão da cupidez,
que, como padre Antonio Vieira denunciando a corrupção nos tempos
da colônia, vislumbramos em quase todo homem público. Contudo,
o problema é que, se as ONGs dispensam o poder de Estado para sua legitimação
e mesmo bom funcionamento, há certos campos de atuação que
requerem a ação estatal. Aí entra o Ministério Público,
que por pertencer ao aparelho de Estado, detém voz em juízo. Uma
cooperação entre as ONGs e Ministério Público assim
se delineia, não por iniciativa do MP enquanto tal, mas de alguns de seus
membros. O engraçado é que essa convergência tenha incomodado
tanto a presidência Fernando Henrique, uma vez que ela parece coincidir
com o discurso da cientista social Ruth Cardoso, dirigente do programa Comunidade
Solidária e esposa do presidente ora em fim de mandato. O
Executivo Federal em face do terceiro setor: uma atitude contraditória Com
efeito, Ruth Cardoso explicitou uma agenda na área social, cujo ponto forte
era a construção de parcerias com a sociedade, ou com o chamado
terceiro setor, e cujo ponto fraco era isso dever-se a uma certa renúncia
à atividade do Estado nos campos sociais. Sua qualidade estava em romper
com o esquema assistencialista precedente. Falava-se em esgotamento dos modos
tradicionais do Estado, pela falta de controle social de sua ação
e de acompanhamento de seus resultados, e em resolver esse problema transferindo
poder à sociedade, a qual, porém, ficava indefinida: seriam os beneficiários
da ação, que eles próprios se moveriam, como os movimentos
sociais? Ou seriam ONGs, meio herdeiras da filantropia do século XIX, ainda
que em nova chave? Empowerment dos pobres, ou neo-paternalismo? O
problema é que o governo FHC não teve boas relações
com os movimentos sociais, a começar pelo MST. Já nos seus primórdios,
um dos líderes do Movimento dos Sem-Terra teve o bom mot de dizer
que seguia "a linha da professora Ruth Cardoso". Ela havia dito algo
no sentido de que governar se faz em torno de pressões; ora, perguntava
ele, em que a ocupação de terras pelos lavradores era diferente
das ameaças dos banqueiros? Por que seria legítima a pressão
do capital, e não a do (sem-)trabalho? Porque, ao longo de oito anos, o
discurso dominante, do governo à imprensa, contrastava a racionalidade
das pressões empresariais – ainda que, mais para o ano de 2002, o próprio
presidente tenha começado a denunciar os excessos dos mercados, seu nervosismo,
quase chegando a chamá-lo de irracional, mas isso na campanha de seu candidato
– com a pouca ou nenhuma racionalidade do mundo reivindicante do trabalho. Para
os de nós que estudamos teoria política, essa distinção
evocava, de maneira bastante decepcionante, a desqualificação do
não proprietário operada pelos mais antigos dentre os liberais,
a começar por John Locke. Um
sinal dessa dificuldade de um partido que se diz social-democrata para lidar com
os movimentos sociais foi a desconfiança do Executivo ante o Ministério
Público. Se tem sentido nossa tese de que as ONGs são o MP na rua,
e de que o MP é o braço institucional das ONGs, a atuação
contraditória da presidência FHC ante esses parceiros informais coloca
um dedo na ferida. É como se as ONGs fossem boas para executar tarefas
que o Estado deixou de cumprir, mas não para levar até as devidas
conseqüências – a conquista do braço legal – as suas iniciativas.
O papel supletivo das ONGs é aceito, mas não que elas passem
a cobrar dos poderes constituídos o que estes, e só estes, podem
fazer – em especial o que depende de se legislar ou de se fazer cumprir a lei.
Ora,
é muito difícil deter um processo de participação
social ou política, uma vez deflagrado. Na frase de Tancredo Neves, "ninguém
vai até o Rubicão para pescar". Mas tudo depende de como entender
as ONGs. Uma coisa é terceirizar por completo o setor social, com o Estado
delegando às ONGs ou ao terceiro setor as políticas de integração
social, que constitucionalmente são do poder público. Isso é
impossível, já que elas agem pontualmente e não de maneira
sistemática, mas mesmo assim despontou no discurso do governo e da mídia
ao longo destes anos. O
verdadeiro papel das ONGs me parece ter sido e ser o de veículo pelo qual
se aprende a agir social e politicamente, canalizando a energia de grande número
de pessoas, sobretudo de classe média, para um compromisso com a redução
da desigualdade. Tornam-se elas nossa versão da grassroots democracy:
um meio de aprender a agir democraticamente. Valem mais pelo aprendizado de uma
cidadania ativa, participativa, do que por seus efeitos imediatos. Seu papel político,
na construção a longo prazo de mores democráticos,
é mais importante que o social ou assistencial, de curto prazo. Tudo
isso faz parte de uma nova sociabilidade política. Seria preciso ir mais
fundo, distinguir entre as ONGs as mais eficazes e as de fachada, ver que ligações
seus membros têm com os partidos... Na constelação do voluntariado,
é de se notar que saiu da Associação dos Fabricantes de Brinquedos,
Abrinq, uma fundação atuante no combate ao trabalho infantil e no
apoio financeiro a entidades de socorro a crianças (os interessados acessem
a página www.fundacaoabrinq.org.br),
e seu mentor, Oded Grajew, hoje é um dos empresários mais ativos
no apoio ao PT, através da Cives, uma entidade de empresários de
esquerda. De todo modo, o que podemos concluir é que o discurso das parcerias
com a sociedade hoje parece consensual, do PSDB para a sua esquerda, mas ele se
chocou, no caso dos tucanos, com as limitações que eles impuseram
aos desdobramentos políticos da ação no âmbito social.
No fundo, quando se chega ao Rubicão, é bom atravessá-lo. | | |