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| | | | Pensar
o Brasil É
notável como a imprensa brasileira abre espaço ao mundo acadêmico,
em especial nos seus principais veículos, a saber, dois de São Paulo
(Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo), dois do Rio de Janeiro
(O Globo e Jornal do Brasil) e um de Porto Alegre (Zero Hora).
Constantemente ela convida intelectuais a opinar sobre a sociedade e seus rumos.
Mas o recorte não é homogêneo. Se tomarmos as três ciências
sociais, veremos que os cientistas políticos têm o quase monopólio
do caderno principal dos jornais, chame-se ele Brasil ou Política,
que a sociologia domina no caderno de Cotidiano, Cidades ou Geral, e que a antropologia
ocupa um discreto lugar – bem atrás da crítica literária
e mesmo da filosofia – nos curtos suplementos semanais de Idéias ou Cultura.
A
ciência política acompanha de bem perto a discussão imediata
(partidos, intenções de voto, prospectiva de alguns meses), o que
faz dela a interlocutora por excelência dos jornalistas bem formados mas
também, às vezes, estabelece entre ela e a imprensa uma curiosa
relação, na qual não se sabe mais quem é o duplo de
quem. O aporte positivo da ciência política é a insistência
no convívio, na não-demonização do adversário,
na alternância – embora esta seja mais fácil de dizer que de praticar,
porque persiste, na imprensa e mesmo na ciência política não
petista, que é majoritária, a obsessão de ameaçar
o país com a catástrofe caso o PT ganhe a presidência da República.
A ciência política tem sido entre nós, até no nome,
a ciência social que mais insiste em seu caráter cientifico, e talvez
isso se deva justamente a seu incômodo com sua fronteira delicada com o
jornalismo, com a opinião, fronteira essa necessariamente fluida desde
que se trate de valores políticos. A
sociologia tem sido utilíssima para discutir a violência e as cidades,
dois temas estreitamente ligados no Brasil, já que crescem sem cessar as
reclamações relativas à segurança. Seu aporte positivo
tem sido explicar as causas sociais da violência e tentar pôr-lhes
termo, defendendo os direitos humanos. Mas é um combate quase inglório,
difícil, porque cresce o medo e com ele o ódio aos "bandidos",
a tal ponto que – mas talvez isso seja bom – pela primeira vez o PT muda sua ênfase,
da defesa dos direitos humanos dos presos, para a idéia mais abrangente
de uma política de segurança. Esta se distinguiria, porém,
da de direita (que tem aí seu Leitmotiv) porque substituiria a violência
policial por uma polícia de base científica, informatizada, com
parcerias na sociedade. Se a ênfase da ciência política está
mais perto do governista PSDB – até pelo peso que tem, na disciplina, o
presidente da República –, a da sociologia se equilibra entre o partido
presidencial e o PT. Finalmente,
a antropologia olha a sociedade mais de longe. Deixou de tratar quase só
de índios, havendo cada vez mais antropólogos brasileiros a examinar
sociedades complexas. Mas essa distância a torna menos interessante para
a imprensa. Daí que ela apareça, nos jornais, em sua posição
mais acadêmica – mas daí, também que conserve uma postura
crítica mais acentuada. Tenho sugerido a meus alunos que procurem embaralhar
as ciências sociais, lendo o primeiro caderno dos jornais (política
brasileira) com óculos de antropólogo, um pouco como os persas de
Montesquieu miravam a França do século XVIII. É, pelo menos,
instigante. O problema, porém, é que pouco da capacidade da antropologia
para fazer refletir tem chegado à esfera pública, à imprensa. Há
um certo divisor de águas na discussão sobre a sociedade brasileira,
hoje. Os anos 1960 conheceram um avanço técnico no estudo sobre
o Brasil, que dava frutos a trabalhos iniciados já na década de
1940, substituindo o impressionismo das análises ensaísticas clássicas
(que incluíam obras notáveis, como as de Sergio Buarque de Holanda
e Gilberto Freyre, mas também livros que, apesar de seu brilho, resistiram
mal ao tempo, como Retrato do Brasil, de Paulo Prado) por pesquisas de
campo combinadas com a melhor bibliografia internacional. Florestan Fernandes
é o destaque dessa geração. Mas, desde o final dos anos 80,
a pergunta sobre a identidade do país favoreceu um novo ensaísmo.
A demanda social por ele é o que permite unir, por exemplo, um antropólogo
de sucesso como Roberto DaMatta e um cronista popular como Luis Fernando Veríssimo
que, cada um a seu modo, procuram responder a essa pergunta fazendo uso da observação,
sim, mas com forte intuição, ainda que treinada. Episódios
da vida cotidiana passam a ter uma carga significativa importante, episódios
que não são passíveis de mensuração ou de uma
metodologia científica como a da ciência política ou da sociologia.
Essas
duas formas de trabalho talvez correspondam a interesses em dois campos distintos
de objetos. A ciência social consolidada na academe dos anos 60 lidou
com objetos grandes e mais aceitos, como a estratificação social,
as instituições políticas e a cultura indígena. Não
cabe contestar esses temas. Eles continuam a concentrar a maior parte dos estudos
hoje conduzidos no país. Mas, quando se dá atenção
ao anedótico, ao fragmentário, ao exemplar, não só
os critérios de cientificidade mudam (destaca-se a intuição,
em prejuízo da demonstração), como também se realçam
objetos menos usuais. Um desses enfoques é o dos costumes. Os
costumes são tema antigo, e respeitável, das ciências humanas.
Durkheim celebrou em Montesquieu o fundador das ciências do homem; ora,
foi Montesquieu quem articulou política, sociedade e costumes. Os modos
de se relacionarem as pessoas não são neutros ou inocentes, ligam-se
a uma política. Mas a ciência social de meados do século XX
diminuiu sua atenção a eles. É recente sua reabilitação.
Obras como as de Norbert Elias só tiveram êxito tardiamente. Ora,
temas como o amor são mais bem examinados dessa perspectiva do que da dos
esquemas macro. E também favorecem o ensaísmo. Isso
coloca alguns problemas. O ensaísmo tem tradição no Brasil,
mas nem sempre respeitada. Se nunca empalideceu a reputação acadêmica
de Sergio Buarque, Gilberto Freyre foi bastante atacado, até que, recentemente
e talvez por um parentesco de seu trabalho com a história das mentalidades,
readquiriu respeito. Mas ficam, de qualquer forma, duas linhas: uma macro, mais
voltada para os grandes objetos, - outra mais micro, mais intuitiva. Evidentemente
elas se combinam de vários modos. Contudo, há um confronto aqui.
Dele faz parte, também, a presença cada vez maior de uma leitura
literária dos fenômenos sociais e históricos. Essa passagem
da análise do discurso, sob todas as suas formas, para o que antes era
político, ou seja, de procedimentos que se confinavam nas humanidades e
mesmo no beletrismo para as ciências sociais e humanas em geral, não
se dá sem algum desconforto. Mas tem ocorrido. *** Concluo
estas notas comentando uma novidade em nosso país, que é o crescente
interesse da filosofia pela sociedade brasileira. Houve, nos anos 50 e começos
dos 60, um empenho de filósofos, sobretudo Álvaro Vieira Pinto,
nos quadros do antigo ISEB, por compreender e transformar a sociedade nacional.
Contudo, ficou um corte entre eles e a maior parte dos filósofos que se
destacaram nas últimas décadas. A melhor formação
que houve na área, dos anos 60 para cá, foi bastante técnica,
centrada na história da filosofia. Isso não impediu alguns pensadores
de intervirem na cena política brasileira, mas geralmente pela divulgação
de idéias ou pregação de opiniões, ainda que abalizadas.
A novidade talvez esteja na publicação de pelo menos quatro livros
de filosofia tratando, especificamente, do Brasil. Nenhum deles pretende ser apenas
difusão ou opinião. O
primeiro foi, em 1993, Órfãos de Utopia – a melancolia da
esquerda (Editora da Universidade, www.ufrgs.br/editora),
de Ernildo Stein, professor de filosofia na Universidade Federal do Rio Grande
do Sul e na Pontifícia Universidade Católica do mesmo estado, conhecedor
de Heidegger e psicanalista. O título é claríssimo: Stein
quer entender como a esquerda elabora o luto por sua derrota. Procura compreender
como os indivíduos constroem sua busca da utopia e, quando esta falece,
lutam com a melancolia. A aplicação das teorias filosóficas
à realidade, proposta quase sem mediações, soçobrou
ao longo do século XX e, diante de seu fracasso, muitos se voltam para
a mania, exaltando sem limites a vitoriosa economia de mercado, ou então
juntam melancolicamente as ruínas do socialismo, negando-lhe o fim. O uso
da psicanálise é evidente, e nem essa obra nem as seguintes se circunscrevem
ao Brasil. Quase
ao mesmo tempo saíram os dois livros que se seguem. Marilena Chauí,
professora da USP e estudiosa de Espinosa bem como, nos anos mais recentes, da
democracia, publicou em 2000 Brasil: mito
fundador e sociedade autoritária (pela Fundação
Perseu Abramo, do Partido dos Trabalhadores, ao qual a autora é vinculada,
www.fpabramo.org.br).
Uma análise da bandeira brasileira ilustra seu ponto de vista: enquanto
a francesa ou a norte-americana expressam a história de seu país
e suas revoluções, a brasileira evoca a natureza: o verde das matas
(que o hino nacional diz serem mais verdes que as estrangeiras), o amarelo do
ouro. (Penso, porém, que as coisas se complicam no centro da bandeira,
onde estão as estrelas, e que inicialmente retratava o céu sobre
o Rio de Janeiro na noite da proclamação da República. Isso
é astronomia, é natureza – ou é história? A resposta
não é simples). O Brasil, assim, construirá um mito fundador
em torno da natureza e da providência divina. A natureza será constantemente
exaltada, bem como o favor de Deus, talvez em sinal da importância das relações
de favor e clientelismo no País. Chauí analisa esse mito remetendo-o
ao milenarismo, ao pensamento medieval, e lembrando o que diz Espinosa sobre o
teológico-político. Também
em 2000 saiu meu livro A sociedade contra o social – o alto custo da vida pública
no Brasil (Companhia das Letras, www.companhiadasletras.com.br).
O título se refere ao freqüente uso, no país, de "o social"
para designar o mundo dos carentes, e "a sociedade" o dos proprietários.
A partir de algumas análises concretas – do romance Iracema, de
José de Alencar, de algumas novelas de TV, do curioso nome e iconografia
de nossa moeda (que se chama, desde 1994, "real") – procuro discutir
o que barra a ação política no Brasil. Temos aqui uma forte
convicção ética, ao mesmo tempo que a crença de que
o mundo público não é moral. Ora, modernamente a política
surgiu emancipando-se da moral, de duas formas distintas, que chamo de abertura
Maquiavel (a ação deliberada do príncipe, que procura ter
a máxima virtù) e abertura Mandeville (a idéia de
uma mão invisível, que age a despeito da consciência de qualquer
um). Maquiavel abre caminho para o estadista, Mandeville para o mercado. As duas
aberturas permitem jogar razoavelmente o xadrez da modernidade. Mas como praticá-lo
se suspeitamos de ambas? Como agir política e eticamente, numa sociedade
em que convivem (mal) corrupção e convicções éticas
mal distinguidas da religião? O
livro mais recente dessa safra é de Luiz Sergio Coelho de Sampaio, Filosofia
da Cultura – Brasil: luxo ou originalidade (Editora Ágora da Ilha,
2002, agorailh@ruralrj.com.br).
Pensador independente, Sampaio propõe uma nova teoria lógica, da
qual parte para repensar a modernidade, que não é mais um telos
definitivo do homem, mas algo que pode ser transcendido. E aí entra a esperança
para o Brasil, que não precisa ingressar no que já existe – aliás,
essa é uma preocupação que ele reparte com os outros autores
– ou seja, no luxo do consumismo global. Como tantos outros, Sampaio fala do dualismo
brasileiro, mas em vez de identificar a parte não-moderna do país
com o atraso entende por ela a recusa à modernidade, um modo passível
de insinuar o melhor porvir. O Brasil não teria uma história de
seguidos fracassos, mas uma epopéia rumo à criação
de uma cultura original. Essas
obras – infelizmente redigidas por autores que trabalharam e trabalham em separado,
sem constituir uma comunidade de tema – trazem riscos, inevitáveis quando
se articula a teoria mais abstrata, filosófica, com a análise de
uma sociedade ou um tempo. Mas isso não é nada raro na França
ou nos Estados Unidos; no Brasil é que é novo. A originalidade na
filosofia política tem vindo de enfrentar pontos às vezes tópicos,
que a vida social suscita, e não de reelaborar teorias já existentes.
O tempo dirá se essas iniciativas frutificarão ou não. | | |