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Este
artigo é uma transcrição, revista pelo autor,
de sua fala no Seminário Culturas Jovens e Novas Sensibilidades,
realizado entre 19 e 21 de agosto de 2003, na Universidade
Candido Mendes, no Rio de Janeiro.
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Novos
elos sociais:
a internet como espaço democrático
Vou começar
falando de nômades e sedentários, tema que me veio
à mente a partir do livro de Maria Isabel Mendes de Almeida
e Kátia Tracy, Noites Nômades, recém-lançado,
que elas me fizeram a honra de pedir que prefaciasse. O que me impressionou
é a mudança, ao longo do século XX, do estatuto
do nômade. No começo do século que passou, o
nômade parecia estar fadado ao sumiço. Qualquer manual
diria: começou-se pelo nomadismo e depois, com a conquista
da agricultura, chegou o ser humano, há milênios, a
um tipo de sedentaridade. E fomos nos tornando cada vez mais sedentários,
com a experiência urbana que fortaleceria essa fixação,
esse enraizamento, já nem mais diretamente no chão,
mas no cimento, no paralelepípedo ou no asfalto.
Ao mesmo tempo,
o nômade funcionava, no começo do século XX¸
como uma espécie de sonho. Lawrence da Arábia é
o grande sonho de um inglês que se decide pelo nomadismo árabe.
O filme sobre ele teve um sucesso notável porque captou muito
bem esse espírito. Ou, quando a França estava para
perder as suas colônias na África na década
de 1950, um grupo de seus oficiais era fanático pelo nomadismo
saariano, namorando a idéia de um grande Estado que cortaria
a África de leste a oeste, pelos desertos: admiravam o nômade,
o bérbere, o tuaregue. Era um fascínio, mas por algo
que agonizava, que se terminava. Isso suscita reações
de paixão, de amor, de entusiasmo, mas quase que em compensação
a um processo de sedentarização que parecia irreversível.
Ora, o interessante
em Noites Nômades é mostrar a retomada do nomadismo
no meio mais urbano que existe. Muda a figura que acima delineei.
O sedentário hoje em dia é criticado, desde as questões
da saúde, dos cuidados com o colesterol, dos cuidados com
o corpo até mesmo às opções ou orientações
afetivas. E começo por aqui porque me interessa trabalhar
com vocês o que pode ser uma política que leve em conta
vínculos mais nômades, mais leves, mais soltos do que
os que foram construídos ao longo da modernidade. Uma distinção
corrente entre a política grega e a moderna afirma que a
política antiga é das virtudes e a moderna é
dos interesses. É claro que assim se exclui, do "antigo",
tudo o que não seja uma pequena cidade na Grécia,
Atenas, e uma pequena cidade na Itália, Roma. Ninguém
fala em política antiga para se referir à Índia
ou a China, que eram muito mais povoadas; esse é um recorte
que se faz. Mas de modo geral se pensa que a democracia ateniense
e a república romana partiam de uma valorização
do bem comum em detrimento dos desejos e interesses particulares.
Defender a causa pública significava, quer na forma democrática,
quer na forma republicana, um sacrifício constante das preocupações
pessoais. Daí toda uma iconografia, todo um mito que tem
um de seus exemplos na ação de Múcio Sévola
que, depois de fracassar no intento de matar o inimigo que cerca
Roma, aprisionado e na iminência de ser punido severamente,
toma ele próprio a dianteira e coloca a mão sobre
um braseiro e a deixa queimar até o fim. Os inimigos ficam
horrorizados, enquanto ele explica: estou punindo a mão que
errou. É claro que acaba aí o cerco a Roma.
Essa é
uma história provavelmente lendária, de pouca base
histórica, mas imaginem gerações de pessoas
sendo educadas nela e acreditando que devam sacrificar as vantagens
pessoais ao bem comum. Imaginem toda uma construção
da sociedade, do Estado, do elo político, com base na idéia
de que o bem comum, a res publica, requer constantemente
a eliminação das vantagens pessoais em favor do que
seja o elo de todos. Essa é a idéia de uma política
das virtudes.
Contra isso,
a política moderna desenvolve a questão dos interesses.
Podemos explicar isso de duas formas: uma é o advento do
capitalismo, a importância cada vez maior dos anseios egoístas,
a impossibilidade de se vender a um povo moderno a idéia
de sacrifício. Outra explicação é que,
modernamente, se denuncia a idéia de virtudes como sendo
falsa. Muitos autores dizem, no século XVII e XVIII: a política
das virtudes engana. Thomas Hobbes tem uma passagem deliciosa no
Leviatã, em que diz, com muita ironia, que nada causou
tanto derramamento de sangue no Ocidente quanto o aprendizado do
grego e do latim. É óbvio que ele pretende fazer uma
piada com isso. Mas a explicação é que, lendo
os clássicos e sobretudo Aristóteles e Cícero,
as pessoas acreditaram que deviam valorizar os Estados populares,
renunciando às vantagens pessoais em favor do bem comum,
o que constrói toda uma máquina de ilusão fantástica,
que justifica derrubarmos um governante legítimo alegando
que ele é contra o bem comum, inflando nossa fala de empáfia
pretendendo que defendemos o coletivo, quando na verdade somos monitorados
por interesses pessoais, que porém ignoramos.
O interessante
é que a crítica às virtudes é a crítica
à ilusão que o discurso das virtudes traz. Hoje sabemos,
sobretudo depois de Freud, o quanto podemos projetar num discurso
e o quanto a crença de estar "com a razão",
a denúncia sistemática do outro como antiético
pode na verdade mascarar exatamente o oposto – pode ser uma projeção
sobre o outro de nossos próprios vícios. Ora, a temática
que vai escorar a política moderna é: qual o meu verdadeiro
interesse, quando faço um investimento político, uma
escolha ou uma ação? Meu verdadeiro interesse é
antes de mais nada, dirá Hobbes, por exemplo, salvar minha
vida da morte violenta e precoce. É em função
disso que devo pensar em construir o elo social, não com
base numa virtude que será ilusória, mas em garantir
minha sobrevivência, minha exclusão da guerra de todos
contra todos: assim darei uma escora mais forte a esse vinculo social
do que com base no engano e na revolução. O interessante,
pois, quando surge essa idéia é o lado emancipador
que o interesse tem em relação à virtude.
Junto com
isso, temos outro desdobramento: a palavra interesse assume
um sentido econômico. Vejam que em Hobbes, por exemplo, interesse
nunca aparece em sentido econômico. É um termo que
aparece de vez em quando, não é relevante. No entanto,
num certo momento, provavelmente no século XVIII, interesse
assumirá sentido econômico e poderemos quantificar
as vantagens que decorrem de tal ou qual forma de elo social, culminando
isso no século XX, quando essa quantificação
chega ao paroxismo. Lembro uma eleição na França,
nos anos 70, em que os socialistas diziam: mande um cartão
postal para o Partido Socialista para saber qual a proposta para
quem ganha tantos francos por mês. Colocava-se diretamente
em cena o interesse. Vai ganhar mais ou ganhar menos?
Passemos agora
ao que mais nos importa aqui, a conseqüência dessa idéia
de interesse ou vínculo para outro sentido da palavra interesse,
que é o afetivo: essa idéia no fundo está vinculada
a uma identidade baseada num ponto só. Para Hobbes é
a defesa da vida. Todo ser humano tem interesse em defender a vida.
No caso dos pensadores mais recentes, é o interesse econômico,
que vai escorar um sujeito da política moderna a ser entendido
a partir da sua posição de trabalhador, de empresário.
Tanto o capitalismo quanto a crítica marxista ao capitalismo
situam as classes ou as pessoas em relação ao modo
de produção, e daí inferem os interesses. Vejam
aquele texto notável, embora hoje pouca gente lhe dê
crédito ou crença, que é "A consciência
de classe", de Lukács, datado de 1920. Entre duas posições
fortes, as do operário e do burguês, temos posições
fracas, oscilantes, denunciadas, que são a do camponês
e a do pequeno burguês. A palavra "pequeno burguês"
é quase insultuosa. Não é uma descrição,
é quase um insulto. O pressuposto são posições
sociais fixas. E a política moderna vai querer articular-se
sobre posições sociais firmes. Uma conseqüência
disso é a possibilidade, captando um aspecto dessas identidades,
de deduzir todo o resto. Pensemos, por exemplo, algumas décadas
atrás, no exemplo do patrão. De sua condição
se decorre que vota à direita, se declara religioso, mesmo
que seja ateu no foro íntimo. Ou de mulher, dona de casa,
se infere que não trabalha, que tem religião, que
educa os filhos. A identidade vem como um pacote, sempre ligado
a um elemento de interesse que é o que permite a conexão
com o outro. O elo com o outro está marcado pelo interesse.
Podemos nos iludir e dizer que o elo está vincado pelo amor
ou pela fé, mas essencialmente o que construía esses
elos era o interesse, o que deu força à forma política
moderna.
Um discurso
usual, especialmente entre nossos amigos cientistas políticos
e sobretudo no PSDB, é o discurso da defesa dos partidos
fortes. Esse tema foi constante na discussão do parlamentarismo.
Diz-se que partidos fortes são os que permitem a uma sociedade
se estruturar politicamente de maneira consistente. E um partido
forte o que é senão um enunciado de interesses que
se fazem precisos? Toda essa construção tem uma lógica,
mas que entra em crise em nosso tempo. Não dá mais
conta das novas formas de sociabilidade, que é aquilo de
que estamos tratando aqui. E não dá mais conta porque
a identidade se pluraliza, a tal ponto que, reativamente, alguns
hipostasiam algum traço identitário em particular,
como por exemplo um traço dissidente em relação
à economia dos interesses, que é a condição
de gay, a ponto de se ter relatado aqui o caso de pessoas que só
vivem entre gays. Porque ou dizem tudo, e nesse caso só são
aceitas por seus semelhantes, ou se omitem e nesse caso se sentem
tendo uma relação meio falsa com as outras pessoas.
De qualquer forma, nada dos interesses infere ou permite inferir
ser gay. Não podemos dizer: porque é operário,
ou patrão ou camponês, segue-se que é gay, como
se seguia antes que deveria ter um padrão heterossexual.
Lidamos aqui
com outra idéia de identidade. Como trabalhar o elo social
numa sociedade em que estão se dissipando essas ancoragens
fortes que a modernidade construiu? Surgem, ao lado delas, outras
ancoragens tão importantes ou mais, que geralmente remetem
ao mundo do afeto.
Por um lado,
vemos então que o interesse racionaliza. Permite um gigantesco
trabalho de destruição das ilusões. Podemos
ver isso já em Maquiavel, quando diz, no Príncipe:
como é meu interesse dizer coisa útil, não
as inutilidades que até agora falaram os filósofos
da política, não vou tratar dos Estados como devem
ser, mas como são e como os governantes de fato agem e não
como deveriam idealmente governar. É a mesma questão
daqui: vamos trabalhar os interesses quer dos governantes, quer
dos súditos, mas o fundamental é que vamos excluir
a fantasia. E com isso vamos excluir também em larga medida
o afeto.
É extremamente
significativo que a figura do déspota oriental ressurja no
Ocidente por volta de 1570. Até essa ocasião, quando
se ouvem menções ao sultão otomano, ele é
pensado no mesmo registro que um monarca ocidental. Ele não
é cristão, mas, tirando isso, o que Maquiavel diz
do sultão não é diferente do que diz de um
príncipe italiano. Mas, a partir do final do século
XVI, o sultão otomano é alguém que governa
pelo seu puro capricho, pelo seu puro arbítrio e não
dá para falar da política dele sem mencionar o harém,
embora esse assunto possa ser inteiramente dispensável e,
quando se faz uma análise da política francesa, não
seja essencial o rol de amantes de um rei da França. A interpretação
que dou para isso é: deporta-se todo o mundo dos afetos políticos
para o Oriente e para o abuso. E se constrói, ao mesmo tempo,
um Estado de direito no Ocidente, que é um Estado racional,
marcando o triunfo da razão sobre o arbítrio, sobre
o capricho, sobre a paixão, mas a alto custo. Esse custo
é a política ocidental ter dificuldade em lidar com
o afeto, e isso vale por extensão para a política
democrática que vai despontar nos séculos seguintes.
É digno
de nota que em nosso país os políticos que melhor
lidam com o afeto são os autoritários, quer dizer,
por exemplo um em São Paulo e um na Bahia. Uma política
democrática lidar com o afeto é muito difícil.
Uma propaganda usual em período eleitoral, pelo menos em
São Paulo, aponta os candidatos do PSDB prometendo seriedade,
honradez e competência. Isso não apela ao afeto, é
pura razão. A escolha política é racional,
portanto vamos escolher o mais competente, o mais apto – eis a idéia.
Mas, com isso, o afeto fica infantilizado, reduzido, diminuído,
sua dimensão decai. Contudo, temos um retorno dele à
cena pública nos últimos anos. O que é rico
numa atuação gay, por exemplo, na cena pública,
é justamente o que extrapola a questão do interesse
e a da identidade. Quando temos um movimento gay, ou negro, ou feminista
– para citar três movimentos que não podem ter seus
equivalentes do outro lado com igual legitimidade, pois não
há um movimento hetero, ou machista, ou branco com a mesma
legitimidade desses movimentos de emancipação – o
forte deles é justamente que rompam com a lógica da
identidade e com a do interesse. Isso implica que, se tivermos um
lobby gay, ele será pouco rico; sua riqueza está em
ser emancipador e pluralizante.
Daí
decorrem certas conseqüências, do ponto de vista político.
Vou tratar de duas experiências que tive nos últimos
meses, ligadas a algum uso de site para pensar o elo social.
A primeira foi um curso de pós-graduação que
dei no primeiro semestre na USP, chamando-se A cultura pela cultura.
A idéia era pensar a cultura no sentido de cultura política,
através de alguns significantes poderosos da cultura, como
mass media ou alta cultura. Usei análises que tinha
feito de algumas obras de arte ou literatura, mas que não
são críticas estéticas ou literárias,
e sim tentativas de captá-las como signa temporum,
como signos do nosso tempo. Por exemplo, estudei o filme Mogli,
de Disney, do ponto de vista da identidade. Nesse filme, há
uma teoria da identidade que é expressa pela pantera Bagüera
e pelo tigre que quer comer o menino, segundo a qual a identidade
é natural e ninguém foge à de sua espécie
– portanto, Mogli é humano. E há outra teoria, expressa
especialmente pelo urso Balu, segundo a qual você pode tornar-se
o que você quiser, tornar-se urso se aprender a dançar,
a brigar e a gingar como urso, tornar-se macaco ou abutre. A questão
no horizonte do curso era: Como está o elo social? Como aparece
em Mogli, nos contos "A hora e a vez de Augusto Matraga"
en "O famigerado", ambos de Guimarães Rosa? É
algo arbitrário dizer que um significante é poderoso,
mas dá para intuir a relevância dessas obras. Contudo,
o que estava difícil, embora a classe estivesse interessada,
era a efetiva participação dos alunos. Consegui deflagrar
uma atuação boa deles quando criamos um site do curso.
A idéia inicial era que, ao terminar o curso, os trabalhos
dos alunos fossem entregues, de público, ao site – mas, para
não deixar a coisa só a posteriori, decidimos disponibilizar
nele textos ou imagens de quem quisesse. Dez ou doze alunos colocaram
seus textos, e num caso pinturas e fotos.
Isso, que
ocorreu na metade do curso, representou um corte. O contato com
os alunos ficou forte, a tal ponto que eles não queriam mais
terminar o curso. Fomos dando-lhe continuidade após as doze
aulas de praxe, chegamos a quinze, até que julho nos interrompeu.
Mas foi interessante, porque falando do elo social, discutindo este
contato efêmero e pouco duradouro, vivemos o que dizíamos:
aquela turma nunca mais vai se reencontrar enquanto turma.
Ao mesmo tempo
eu estava em campanha para a SBPC, numa disputa interessante. Éramos
três candidatos e perdi a eleição por diferença
pequena, de um e meio por cento dos votos. Mas, logo que aceitei
ser candidato, decidi abrir um site de campanha. Foi estranho porque
fui o único; imaginava que todos abririam um site. Se a experiência
do site ficou aquém do que eu desejava - pois imaginava que
um site seria a ocasião de criarmos uma ágora virtual
-, foi interessante o retorno que teve: os e-mails que chegavam,
as discussões, o fato de se colocar uma agenda de idéias.
Publiquei um livro sobre isso, Por uma nova política,
pela Ateliê Editorial, que reúne os textos do site
e discute o tipo de vínculo que uma política conduzida
dessa maneira pode representar. Volto, ali, à questão
do interesse. O que significa usar a internet como instrumento de
campanha? Significa uma economia, sem dúvida, em relação
a utilizar papel. Mas isso não é o mais relevante,
não é uma mudança apenas técnica que
mantém o mesmo conteúdo de antes: o interessante é
assim se quebrar a passagem pelo interesse, apontar outro tipo de
público que esteja interessado. Gosto de notar que a palavra
interesse pode ter esses dois sentidos: interesse econômico
e o verbo interessar, aqui no sentido de conquistar um afeto,
um empenho, um engajamento que não passa pela vantagem, pelo
lucro ou pelo interesse no primeiro sentido. Podemos discutir idéias
e captar as pessoas justamente no interstício de suas identidades,
no intervalo entre seus interesses. O interessante então
(e uso esta palavra de propósito) é que podemos ter
alguém que seja empresário, mas não católico
nem fingindo ser católico, porém ateu, nem pai de
família fingindo ser hetero, mas assumidamente gay. O significativo
nisso é que, precisamente pela justaposição
de identidades que não são mais coesas, pelas cunhas
entre elas, abre-se uma discussão de questões. Este
é o diferencial que a internet pode representar, num curso
ou numa campanha. Dirigimo-nos a pessoas que nos recebem em seu
momento de busca, em seu momento nômade, às vezes de
caça.
Na navegação
há o equivalente à caça: estamos seguindo uma
trilha, encontramos uma pista e passamos para outra, de um link
tomamos outro e assim procuramos. Nessa procura recebemos muita
resposta de gente maluca, isso é inevitável. A maluquice
é constante, e é fabuloso: porque toda a política
do interesse é construída para excluir a loucura da
política. A política do interesse denuncia a política
antiga da virtude, porque a virtude acabava funcionando como uma
gigantesca máquina de engano, acreditando as pessoas que
eram virtuosas quando apenas se enganavam. Já a política
do interesse, dando bases sólidas, fazendo-me pensar na carteira
antes de mais nada, fazendo-me calcular em termos mensuráveis
monetária e financeiramente, garantia uma racionalidade.
Ora, o significativo
no acesso via internet é que entramos em contato com a irracionalidade,
com a loucura. Uso aqui o termo loucura de maneira bem descontraída,
mas por ele entendo a perda; e é claro que isso se pode criticar
apontando como é perigoso, como dá errado, como é
melhor a política da razão, do interesse, a política
do sindicato, do patronato. Mas, em contrapartida, assim se abrem
contatos que passam pela surpresa: novos vínculos, novas
ligações, novas maneiras de pensar – e isso representa
uma contraposição importante a uma política
que está baseada na aliança entre interesses. Nesta
última, prometo tal coisa a seu grupo, a sua região,
e assim diminuo a imaginação. Penso que uma campanha
via Internet abre espaço para prodigar idéias.
Devo prestar
agora uma homenagem a Ana Maria Nicolaci da Costa, porque há
uns três anos ou mais, aqui mesmo, eu a ouvi falar e fiquei
assustado com o que ela disse sobre as relações humanas
via internet. Sendo eu, rousseaunianamente, um tanto adepto da presença,
receei o horizonte de novas relações, de amizade ou
amor, que ela mostrou funcionarem via internet, sem a presença
física das pessoas. Mas hoje isso me parece muito interessante
pelas potencialidades que traz, e diria que, ante o enfrentamento
entre uma visão da internet que privilegia o lado business,
que é a que mais aparece na mídia, e uma internet
que privilegia seu lado democrático, aposto na segunda –
que permite reduzir a desigualdade. A própria diferença
regional num país como o Brasil, hoje, pode e deve ser enfrentada
pelo acesso ao conhecimento que se tem de qualquer lugar; este ano,
dei um seminário sobre A vida é sonho, de Calderón
de La Barca; em outra época, seria difícil conseguir
esta peçca em livrarias ou bibliotecas. Hoje, basta um download
de um site gratuito.
Voltando à
campanha, eu municiava o site todo dia com um texto novo, meu. Infelizmente,
não houve discussão de idéias por parte de
meus adversários. Quando eles discutiam, eram pequenos fatos;
suscitei uma questão importante de princípios e me
responderam só em termos de fatos: meu adversário
disse que no dia tal disse tal coisa e não outra; não
respondeu com idéias. Isso foi pena, mas marcou uma diferença
e certamente respondeu pelo alto número de votos que tive,
tendo entrado em campanha contra uma candidatura já consolidada
e que ostentava uma enorme lista de apoios. O que me impressionou
é que, se você é intelectual, se lida com idéias,
se é cientista e precisa legitimar-se junto a uma sociedade
que não tem noção do papel das idéiasentão
o lógico seria você também achar que as idéias
têm papel relevante na discussão interna.
Enfim, para
encerrar: primeiro, fazer um discurso publico obriga você
a refinar os seus argumentos. Já vi campanhas na universidade
e em outros lugares que passam perto da difamação.
Há uma dicotomia entre um discurso público que é
banal, genérico e igual, não havendo diferença
entre o que os candidatos a reitor dizem – e outro discurso, clandestino,
secreto, sorrateiro, em que as pessoas explicam "o que verdadeiramente
está em jogo". Temos então de público
um discurso genérico e vago e, pela fala dos amigos em quem
você confia, um discurso da acusação, o qual
jamais se alça ao espaço público. Isso é
grave, porque promove um enorme enfraquecimento da esfera pública,
que se empobrece porque fica falsa. Leiam as plataformas de candidatos.
Ontem comentava um amigo meu: não se encontra na plataforma
de nenhum partido político brasileiro a defesa da exclusão
social; na Europa, porém, há partidos que a defendem,
como o de Le Pen, na França, que pretende excluir da dignidade
social os estrangeiros. No Brasil, mesmo quem pratica a exclusão
social não a defende.
Portanto,
nosso discurso público é esvaziado. O desafio é
construirmos um discurso social que seja fecundo. Ora, para ele
ser criativo e produtivo as coisas devem poder ser ditas de público.
Devemos eliminar o mau hábito brasileiro de que a verdade
é sorrateira, escondida e maledicente; se tivermos críticas
a um adversário, elas devem ser publicáveis e publicadas.
Isso é fundamental. Ao publicá-las, preciso construir
um refinamento do meu discurso que não é desprezível.
Não posso publicar meu discurso tal como o pronunciaria pelas
costas. É isso o que significa dar importância às
idéias: é considerá-las produtivas, capazes
de gerar um ambiente de debates e criação.
O segundo
ponto que me parece digno de nota contribui para o elemento fortemente
democrático na internet: é que se pode ter um site
de qualidade a custo barato. A imprensa era até algumas décadas
atrás o espaço pelo qual o elo social se produzia.
Vejam os filmes americanos dos anos trinta, em preto e branco, que
tratam de jornalismo. O jornalista tem um furo notável, publica-o
e toda a cidade comenta. Vemos aquelas pessoas diante da banca ou
do jornaleiro – e esses estranhos comentam, entre si, a notícia.
Forma-se um elo social mínimo entre pessoas que nunca se
viram e provavelmente nunca vão se rever, mas reagem diante
de uma notícia que impacta a sociedade toda. Podem até
ter reações diferentes à notícia, mas
ela estabelece um denominador comum entre elas. A notícia
é um estimulo à associação, mesmo que
esta associação não seja uma Gemeinschaft
e sim uma Gesellschaft, da ordem do conflito e não
da harmonia. Pois bem, esse papel se esvaiu. Cada vez conheço
mais pessoas que não lêem jornal. Colegas meus já
não o lêem. Informam-se das coisas, mas não
se informam pela imprensa. Diante disso, é relevante construir
vínculos mediante um veículo que não requer
todo o custo industrial e, por conseguinte, o investimento de capital
de que a imprensa necessita. O jornal e a TV requerem um capital
que é notável e que, portanto, faz disso já
um agudo fator de desigualdade social. Em suma, a questão
que quero suscitar é: como podemos apostar em novos elos,
sabendo que muitas vezes não vão ter duração,
como num curso – mas como podemos fazer que a intensidade deles,
quando ocorrem e mesmo não sendo presenciais, que essa intensidade
revigore o vinculo social? Todos nos queixamos do enfraquecimento
do vínculo social. Quem estuda a criminalidade diz que o
fortalecimento do vínculo social é excelente antídoto
contra ela, contra a degradação da vida social. Como
fortaleceremos o elo social sem ser pela simples nostalgia de formas
que dificilmente vão voltar, mas pensando no novo, pensando
em elos que, em sendo nômades, nem por isso precisam ser fracos?
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