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Artigo publicado na revista Cult,
em novembro de 2004.
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O
que forma o elo social?
O
que constrói o elo social, o que faz existirem nossos vínculos?
Está ficando cada vez mais difícil viver em sociedade,
bem sabemos. Nossos tempos privatizaram muito do que era público.
"A praça é do povo, como o céu é
do condor": o verso de Castro Alves parece, hoje, estranho.
Quem vai à praça? A praça, aliás, era
já uma herdeira pobre da ágora, da praça ateniense,
que não foi lugar do footing ou da conversa mole, mas da
decisão política. A ágora era praça
no sentido forte, onde as questões cruciais da coletividade
eram debatidas e decididas.
Mas mesmo a praça,
na acepção de espaço em que as pessoas se socializam,
se enfraqueceu. É significativo que Roberto DaMatta, ao analisar
a oposição entre o mundo doméstico e o público
na sociedade brasileira, oponha à casa a rua, e não
a praça. A praça favorece a circulação,
no sentido quase etimológico, do círculo, da ida e
vinda, do encontro e reencontro: quem se lembra do que se chamava
footing nas cidades do interior (os rapazes e moças
dando voltas na praça, uns no sentido do relógio e
outros no contrário, de modo a se cruzarem seguidas vezes)
sabe do que falo. Já a rua é caminho de ida sem volta.
Fica-se na praça, anda-se na rua. Vai-se, sai-se.
Ou tomemos outro
lado da mesma questão. Como puxamos assunto com um estranho?
Alfred Jarry, o autor de Ubu rei, dizia que um dia encontrou
uma moça linda, na sala de espera de um médico. Não
sabia como abordá-la – como iniciar a conversa. Sacou então
de um revólver, deu um tiro num espelho que havia ali, voltou-se
para ela e disse: Mademoiselle, agora que quebramos la
glace (palavra que quer dizer tanto o gelo quanto o
espelho)... É óbvio que era uma brincadeira; a
piada valia mais para ele do que a conquista amorosa; imagino a
moça gritando, fugindo; mas a questão fica: como quebrar
o gelo, como criar um elo?
Stendhal, no seu
ensaio "A comédia é impossível em 1836",
diz que os cortesãos, reunidos em Versalhes por Luís
XIV, obrigados a ficar lá o dia todo, ou achavam assunto
– ou morreriam de tédio. Assim, diz ele, nasceu a arte da
conversa. Temas pequenos, leves, mas sobretudo agradáveis
começaram a constituir um ponto de encontro de seus desejos
e interesses. É nesse mesmo século XVII, segundo Peter
Burke (A arte da conversação, Editora Unesp),
que franceses, ingleses e italianos reivindicam a invenção
da conversa como arte. Regra suprema: não falar de negócios
ou trabalho. Regra suplementar: agradar às mulheres. A arte
da conversa é uma retórica no dia a dia. Ela se abre
até mesmo para uma dimensão segunda, que é
a arte da sedução. Casanova era grande conversador
e sedutor renomado.
Eis a questão:
uma sociedade que se civiliza precisa de assuntos que sirvam de
ponto de encontro para as pessoas, e sobretudo para os estranhos
que assim entram em contato. No campo, conheço quase todos
os vizinhos; na cidade grande, porém, a maioria é
de estranhos. Sai-se do mundo rural quando se começa a conhecer
o diferente, o outro – e a aceitá-lo. Isso se dá mediante
a oferta de assuntos que abram uma conversa.
Daí, a importância
de expressões que minimizam ou mesmo aparentemente humilham
essa conversa mole, como o small talk, o papo furado ou a
bela expressão "jogar conversa fora", que é
muitíssimo sutil, porque dilapidamos palavras justamente
para construir amizades, isto é, dissipamos nosso tempo,
como num potlatch indígena, precisamente para criar o que
há de melhor na vida.
Mas mudou o que dá
assunto. Gosto de ver filmes norte-americanos dos anos 30 e 40,
em preto e branco; um tema freqüente neles, tanto em Cidadão
Kane quanto nos menos conhecidos, é o impacto da imprensa
diária sobre as pessoas. São temas recorrentes o "furo"
do repórter ou a notícia inesperada que suscita uma
edição extra do jornal. E aí vemos as pessoas
conversando a respeito, trocando palavras – diante da banca ou do
jornaleiro – com perfeitos estranhos. A imprensa dava assunto. Ela
permitia esse elo leve com o outro que, justamente por ser leve,
é tão importante, porque acaricia nosso vínculo
social.
Mas havia um pressuposto
nisso: que toda a sociedade vibrasse ao toque de um só assunto.
Havia temas de interesse universal. Podia ser a guerra, a fuga de
um preso, uma condenação. Mas supunha-se que todos
os cidadãos se interessassem por isso. Certamente isso nunca
foi verdade. Porém, no horizonte, imaginava-se que um dia
todos leriam jornal, e todos adotariam como agenda diária
o leque de assuntos, da política internacional à nacional,
dos faits-divers às variedades, que a imprensa fornece.
Não foi assim. Caiu o número de leitores. Até
no mundo acadêmico, conheço bons intelectuais que não
lêem jornal.
E os interesses se
segmentaram. Falou-se, uns anos atrás, em imprimir exemplares
personalizados: você, ao assinar seu jornal, diria quais assuntos
quer em destaque. Tecnicamente, é possível editar
um exemplar do jornal que lemos, digamos, o Planeta Diário,
diferente para cada um de nós, talvez sem grandes custos.
Não haveria dois jornais iguais, pelo menos para os assinantes.
O comum, a língua franca, a koiné ficaria para a venda
em banca. Mas, se essa técnica não foi adotada, o
resultado prático valeu. Pouquíssimos lêem o
jornal de ponta a ponta. Ele não dá mais a linguagem
comum para se ter assunto em comum.
Isso não quer
dizer que precisemos, para falar com estranhos, voltar à
tática de Jarry e atirar nos espelhos. Mas parece que tivemos
duas conseqüências dessa mudança. A primeira é
que hoje a televisão dá essa linguagem comum, mas
para hoi polloi, os pobres ou os menos cultos. Sua linguagem
é a das variedades, a do circo. Não é a da
política. Perdura assim em nosso mundo uma língua
franca, que permite o elo, mas um elo despolitizado.
A segunda é
que, quanto mais culto for o público, provavelmente mais
segmentado ele será. Estará diferenciado por seus
interesses e gostos. É claro que na ante-sala de um cinema
cult você pode puxar conversa sobre filmes de arte,
mas num território sem marcas – o transporte coletivo, uma
sala de espera – isso é improvável. Não é
por acaso que esses lugares ofereçam à leitura revistas
para quem não gosta de ler, como as de fofocas ou as de imagens.
Diante do estranho, daquele cuja história desconheço,
daquele que é opaco para mim, a melhor técnica para
abrir uma conversa não passa pela cultura ou pela política,
mas pelas variedades, pelos excessos – até mesmo pelo circo.
Notem, aliás, que os pregadores da violência pelo rádio
e pela televisão perderam a seriedade, tornando-se circenses.
Talvez seja bom que Ratinho se leve hoje menos a sério do
que no passado. Mas também mostra que a diversão tem
um poder enorme, e que ele pode mais ao divertir do que ao atemorizar.
Começamos
falando do elo social para mostrar como ele se foi despolitizando.
No entanto, nosso engajamento na política exige que tenhamos
elos com os outros. O elo forte da política depende dos elos
leves do dia a dia. A conversa séria precisa da conversa
mole. Para haver políticos que nos representem, precisamos
todos ter amigos com quem convivemos. Políticos sem amigos
podem aterrorizar, como foi o caso de Robespierre, que por sinal
nas últimas décadas perdeu boa parte do que lhe restava,
à esquerda, de popularidade. Ora, como fica a política
quando os elos sociais se afrouxam ou saem da praça para
entrar no picadeiro? Fica fraca. Fica difícil, sobretudo,
dizer onde nos encontramos todos – onde é nossa ágora.
E provavelmente isso é irreversível. Vivemos numa
sociedade complexa, e nossas exigências são cada vez
mais diferenciadas.
Isso é ruim,
se temos como ideal a ágora como centro da cidade. Mas pode
não ser tão mau, se pensarmos que nunca houve uma
ágora que integrasse todos – nem em Atenas, onde se excluíam
mulheres, escravos e não-atenienses. O que podemos ter hoje
é uma pulverização de centros. A periferia
prevalece. Há amizades via Internet, como as havia por telefone,
que dispensam e talvez até excluam o encontro físico.
A comunicação é segmentada, não se concentra
no político, mas ocorre assim mesmo. Talvez precisemos nos
habituar a elos fracos, leves, temporários. Não quer
dizer que sejam maus. Continuam existindo elos fortes, os da intimidade,
do amor, da grande amizade. Mas os elos que se abrem para o social
mudaram de natureza: são mais fracos, porém mais numerosos
do que antes. Precisamos nos acostumar à riqueza do efêmero.
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