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Artigo publicado na revista Cult,
em fevereiro de 2004.
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economia como mistério
Na política
vivemos hoje um paradoxo, mais que isso, uma contradição
fundamental: por um lado, nunca houve tantas liberdades democráticas
no mundo, com tanta gente com direito a se expressar, a se organizar,
a votar em eleições minimamente livres. Por outro
lado, atualmente toda a escolha eleitoral está hipotecada
pela economia. Mesmo quando se elege alguém propondo que
"um outro mundo é possível", para usarmos
a bela frase que o Fórum Social Mundial cunhou, um terceiro
turno não-democrático acaba fazendo as decisões
econômicas se aproximarem das impostas pelo chamado "pensamento
único", isto é, o consenso neoliberal de Washington.
Assim, temos liberdade
de escolha. Mas não nas questões fundamentais. Qualquer
pessoa que hoje vá discutir seriamente os rumos do Brasil
começa debatendo a política econômica ou monetária,
e os modos (ou a impossibilidade?) de mudá-la. Muitos entendem
que com a política vigente nessa área, que lembra
a do governo passado, não poderá o governo atual realizar
suas promessas sociais, nem o PT honrar seus princípios.
E o nó dessa impossibilidade se chama economia.
Quero tratar aqui
de um aspecto desse nó, que vale para o mundo inteiro: é
que a economia soa, para a maioria esmagadora das pessoas (inclusive
para mim), como misteriosa. Isso a coloca, estruturalmente, em conflito
com a democracia. Uma sociedade democrática significa que
todos discutam – e decidam – as grandes opções. Como
eleitores, devemos ter alternativas diferentes e legítimas.
No debate e no voto, escolhemos qual sociedade preferimos. Mas escolhemos
mesmo? Porque a principal escolha está vinculada ao caráter
da economia: solidária ou competitiva, socialista ou capitalista,
voltada para o mercado interno ou para a exportação,
etc.. E essa escolha não está ao alcance do leigo.
Ora, um traço
fundamental da democracia é justamente que ela é um
regime de leigos! Platão, que não a amava, procurou
confiar a política a especialistas: é a idéia
do "filósofo-rei", do sábio capacitado a
decidir porque tem conhecimento científico. Ao contrário
disso, porém, os atenienses entendiam que qualquer um tinha
o direito de falar e votar. A democracia não é techné
nem episteme, não é técnica nem ciência.
E no entanto hoje
as questões básicas aparecem como um saber de técnicos,
um saber qualificado e, mais que isso, muito difícil. Como
fica então o caráter democrático da escolha?
Fica amesquinhado. Elegemos quem promete uma coisa e depois, no
governo, faz outra. Vejam: não se trata de acusar alguém
de traição. Trata-se de entender qual o inquietante
caráter da política atual que torna as liberdades
reféns da economia.
Devemos lembrar o
começo da era moderna. Um pouco antes da Revolução
Inglesa de 1640, os reis insistem na natureza sagrada da realeza.
Isso implica que haja arcana imperii, dizem os pensadores
monarquistas, segredos do governo, "mistérios da realeza",
explica o filósofo Francis Bacon, ministro do rei Jaime I.
Em tais mistérios não se intrometa o súdito.
Não os entenderá. Um véu, continua o filósofo-ministro,
separa os homens comuns do poder, como no tabernáculo do
Antigo Testamento.
Pois o que as revoluções
modernas, do século XVII em diante, fizeram foi exatamente
destruir esses mistérios do poder: o governante deve prestar
contas a todos, sendo eleito ou referendado pela maioria. As Luzes
abriram os mistérios, devassaram os arcanos. Avançou-se
muito nesta direção. Mas curiosamente, em especial
após a vitória do capitalismo sobre o comunismo, a
economia ocupou esse lugar de difícil acesso que era, há
três ou quatro séculos, o dos segredos do poder.
É claro que
a economia, ao contrário da política de inspiração
sagrada, não se apresenta como religião, mas como
ciência. Seus mistérios não são divinos,
mas vêm da dificuldade de sua matéria – na verdade,
de uma dificuldade comum às ciências humanas, nas quais
é difícil ser objetivo uma vez que estão envolvidos
os interesses de quem conhece. Contudo, vários economistas
falam e agem com algum fundamentalismo; sua linguagem é arcana,
suas previsões falham; e, ao menos no Terceiro Mundo, com
freqüência eles não se responsabilizam pelos maus
resultados alcançados. Esses três traços não
são democráticos e evocam o que houve de pior na religião
– o extremismo, a indiferença à realidade, a irresponsabilidade
do pregador.
Há um ponto
a acrescentar. Destaquemos, entre os primeiros a praticar uma reflexão
capitalista sobre as relações sociais, dois pensadores
do mundo inglês, John Locke e Bernard Mandeville, um logo
anterior a 1700, o outro logo posterior. Locke é o filósofo
público do liberalismo. Ele pensa Deus à imagem do
proprietário, como se vê em seu Segundo Tratado
sobre o Governo (ed. Martins Fontes). O homem livre e racional
é o que sabe usar sua propriedade. As liberdades individuais
são valorizadas, mas sempre dentro de uma ordem divina.
Já de Mandeville
podemos dizer que é o filósofo oculto do capitalismo.
Seu moto é o célebre "Vícios privados,
benefícios públicos", como mostra em sua Fábula
das abelhas. Diz que, se para produzirmos uma sociedade boa
dependermos da bondade de cada um, nada funcionará. Devemos
pois apostar nos homens como são, egoístas, ambiciosos,
luxuriosos – e construir instituições que canalizem
essas paixões nada utópicas, para que gerem um resultado
vantajoso socialmente. A livre concorrência é o grande
exemplo que ele dá. Cada concorrente é movido pela
sua ganância, que é um pecado – mas com isso melhora
a qualidade dos produtos e abaixa os preços, o que é
um ganho social.
Resumindo, Locke
produz a ideologia do capitalismo, da qual todo liberal pode orgulhar-se,
ao passo que Mandeville revela suas entranhas. Não dá
para o capital sair a público elogiando Mandeville. Pegaria
mal. Mas ele é quem conta o segredo de uma política
e de uma economia que não precisam do bem moral para funcionar
bem.
Ora, esse segredo
tem dois lados. Primeiro, significa que, para haver uma sociedade
que funcione, não temos de ser pessoalmente éticos
e bons. Isso traz um enorme alívio para a vida social, porque
nos permite lidar com o homem como ele é (Freud provavelmente
diria que isso reduz nosso dispêndio psíquico) e não
como alguns sonham que deveria ser. Essa, aliás, foi uma
enorme vantagem – na prática – do capitalismo sobre o comunismo.
O capital se contenta com o homem "como é", com
seus vícios. Os comunistas queriam liberar o homem, construir
o "homem novo". Não o conseguindo, ficaram aquém
do capitalismo. Mais uma vantagem: essa redução da
ética, que o capitalismo efetua, eliminou o peso dos moralistas
religiosos, que – no poder – sempre foram intolerantes, levando
às fogueiras da Inquisição ou de Salém.
Esse, o saldo positivo de Mandeville.
Mas o segundo lado
é que assim se chega a uma desqualificação
dos princípios morais. Estes passam a ser entendidos como
insuficientes e mesmo contraproducentes. Albert Hirschmann mostrou
como funciona essa desqualificação, em seu livro A
retórica da intransigência: todo projeto progressista
ou apenas justo seria considerado inútil. Subir o salário
mínimo, abolir a escravidão, investir no social reduziria
os salários reais, lançaria os negros na miséria
e na exclusão, geraria desemprego. Toda política social
daria no contrário do que ela sonha. Esse discurso intransigente
contra os direitos sociais é o legado complicado de Mandeville.
Os dois aspectos,
os que chamei de positivo e de complicado, obedecem a uma lógica
parecida, mas se distinguem. Não precisamos ser bons
para que a sociedade funcione bem, diz o aspecto positivo. Alívio.
Para que a sociedade funcione bem, não podemos ser
bons, enfatiza o aspecto negativo. Inquietante. Não basta
uma política ser moral, diz o primeiro. Uma política
não pode ser moral, brada o segundo. Boas intenções
não são suficientes, afirma o primeiro. O segundo:
boas intenções necessariamente causam o mal. De volta
ao primeiro: más intenções podem ter
bons resultados. Ao segundo: bons resultados só virão
de medidas que parecem más.
É claro que
uma política econômica capitalista não precisa
seguir o tempo todo a segunda linha, a duvidosa. Mas às vezes
o faz. Temos a impressão de que o fez demais, até.
Assim, para produzir resultados que todos almejam, como a redução
da miséria e da injustiça social, ela pode usar instrumentos
que, a curto ou médio prazo, geram o contrário. E
dirá que, se queremos o crescimento, devemos começar
pela recessão; para uma justiça social a longo termo,
deveríamos agravar a desigualdade a curto prazo. O problema
é que muitas vezes os meios se perpetuam, a meta não
se atinge.
É assim, e
não pela religião, que a economia se constitui como
um discurso de difícil compreensão. Ela é um
saber leigo, no sentido de que aspira à ciência. Não
é uma teologia. Mas, tanto pela sua linguagem cifrada (como
a de tantas ciências) quanto, sobretudo, por esse dispositivo
mandevilliano, que nos mostra um mundo opaco, um mundo no qual as
intenções geram amiúde o contrário do
que queríamos, ela se torna um território de difícil
acesso ao leigo, no sentido de que se fecha ao não-profissional.
Não estou
dizendo que esse modelo teórico da economia capitalista seja
necessariamente errado. Basta ver o filme Adeus, Lênin,
que mostra como a Alemanha Oriental, comunista, vivia um enorme
descompasso entre os sonhos (que alguns idealistas compartilhavam)
e a realidade repressiva. De boas intenções certos
lugares estão cheios, sabe-se. Melhor, então, ser
mais realista e menos utópico. Mas isso acarreta problemas
sérios, nos quais nosso mundo está enredado e com
os quais concluímos.
Do alerta muito oportuno
(e que Maquiavel já fazia) contra os males de uma política
(ou economia) baseada na moral e nas boas intenções,
se passa ao extremo de uma política ou economia fundada na
negação da moral. Viviane Forrester é simplista
no desabafo que é seu livro O horror econômico,
mas uma nota sua merece ser lembrada: que certa vez, ao cair o emprego,
a Bolsa francesa festejou. Isso cria – numa sociedade que cada vez
mais apela publicamente para a moral, convencendo-se de que não
pode haver uma democracia de massas sem transparência e sem
combate à corrupção – um cerne imoral, um núcleo
duro que é contrario a bons propósitos, como o fim
do desemprego. O discurso político proporá a inclusão
social, mas a prática econômica aumentará a
exclusão. Daí, uma esquizofrenia entre a política,
que tenta ser democrática à medida que aumentam as
liberdades, e a economia, que gera desigualdades e exclusões.
Pois como atender
uma agenda política, que é basicamente social, sem
uma economia pujante? E essa economia pujante, no mundo capitalista,
apela a sentimentos – em especial dos investidores – que nada têm
em comum com os ideais democráticos. Os investidores dispõem
de um poder de fogo muito superior ao dos cidadãos comuns.
Tornam-se cidadãos de primeiro escalão, que podem
perder no primeiro e no segundo turno, mas ganham no terceiro –
o mais longo, que no Brasil dura três anos ou um pouco mais.
No século
XIX, ao avançarem os regimes que um dia se tornarão
democráticos, tentou-se conter a representação
popular, eleita diretamente pelo povo e presente na Câmara
Baixa, mediante um "Senado conservador" (o termo é
de Napoleão), formado dos nobres ou dos ricos. O saber das
elites conteria o clamor das massas. Temia-se (diziam) que a demagogia
levasse os pobres a eleger uma Câmara que iria expropriar
ou taxar os ricos. Por isso, os senadores têm mandato vitalício
ou, pelo menos, mais longo que os deputados. Se a maioria de pobres
elegesse uma Câmara de esquerda, precisaria manter essa maioria
por duas ou três eleições seguidas, antes de
controlar também o Senado. Isso daria tempo a uma reação
conservadora, até porque o governo de esquerda pouco poderia
fazer de sua agenda e se tornaria impopular.
Hoje, o espaço
das instituições se democratizou, os senadores são
eleitos – mas a riqueza forma, fora das próprias instituições
e portanto num território indefinido e ameaçador,
um outro poder. Isso pode até dar saudades do tempo em que
o Senado era explicitamente conservador. Um poder visível
e, além disso, submetido a algum tipo de eleição
é preferível a um poder invisível e que a sociedade
não controla. É como se o capital fosse um Senado
do século XIX, só que reforçado.
Nada disso desculpa
– embora talvez explique – que governos eleitos com uma agenda alternativa
acabem adotando o pensamento único. É isso o que temos
a recear, em nosso país como no mundo todo. Se quisermos
um outro mundo, precisaremos mudar esse recorte entre o econômico,
como espaço sério, e o político, que acaba
se tornando um lugar só das aparências, quase que dos
folguedos. Nesse buraco negro, corre o risco de ser tragada a democracia
e a própria política.
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