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Documento
de Síntese para a Reunião Temática: Ciências
Humanas
Este artigo enfatizará
basicamente dois pontos nas ciências humanas, ou nas humanidades:
o da pesquisa de ponta e o de sua aplicação prática.
Dizendo de outro modo, tratará do que nelas é C&T:
1) a ciência, enquanto pesquisa; 2) o equivalente
à tecnologia, como aplicação prática.
Darei menor ênfase à formação graduada
e pós-graduada. Esta escolha não se deve apenas à
razão conjuntural de este texto estar voltado a um seminário
do Ministério da Ciência e Tecnologia, e não
da pasta da Educação, mas a razões mais profundas:
a necessidade, primeiro, de dissipar uma série de preconceitos
muito difundidos sobre o que seria a aplicação prática
das humanas, segundo, de insistir em medidas voltadas a um maior
deslanche das mesmas entre nós, e que também possa
atender a desafios prementes de nossa sociedade.
Caracterização
das ciências humanas e das humanidades.
Começarei
por uma rápida caracterização das ciências
humanas e das humanidades1.
Estas possuem dois traços fundamentais. O primeiro é
que nelas o sujeito e o objeto do conhecimento coincidem.
O ser humano é sujeito de conhecimento, como em todas as
ciências, mas também seu objeto, o que constitui a
diferença específica destas disciplinas. Tal fato
coloca problemas epistemológicos que não existem,
em dimensão comparável, nas demais ciências.
A objetividade se torna muito difícil, e a imparcialidade,
impossível2.
O eixo da discussão epistemológica assim passa pelos
modos 1) de reduzir a parcialidade a um mínimo, se possível
mimetizando o procedimento das ciências exatas, mas com êxito
pequeno ou apenas local 3
ou 2) de levar em conta a parcialidade, reconhecendo-a como inevitável,
e procurar então lidar melhor com ela, elaborá-la
melhor (é o caso das pesquisas de ponta no que se convencionou
chamar pós-moderno, e que em larga medida discutem a quase-impossibilidade
do conhecimento, ou os modos como o conhecimento está condicionado
por imperativos da ação).
Contudo, minha tese
principal é que esta aparente liability das humanas
pode, e deve, ser considerada como um asset. Desde,
pelo menos, Karl Marx e Max Weber sabemos que o conhecimento está
condicionado pela ação. O eixo do conhecimento em
humanas é, sobretudo, a exploração dos modos
como esse mesmo conhecimento é perturbado pela coincidência
do sujeito com o objeto. Isso, que parece às vezes um andar
em círculos, na verdade tem produzido uma série de
reflexões bastante agudas e afiadas. Basta lermos os autores
do começo do século para vermos, a par de contribuições
que permaneceram, a que distância estamos deles, os saltos
que se deram desde então, em suma, se quisermos, os progressos
havidos nas ciências humanas4.
Daí, podemos
inferir que o progresso nas ciências humanas não opera
do mesmo modo que nas demais ciências. Ele é certamente
menos linear, e mesmo as revoluções kuhnianas aqui
funcionam de outro modo. O fundamental, pois, neste primeiro ponto
é que: 1) nas humanas o sujeito e o objeto estão vinculados
a ponto de isso perturbar o conhecimento produzido; 2) mas essa
vinculação, que torna problemático o conhecimento,
é justamente o alvo principal, o principal produto de conhecimento
das humanas; 3) tal vínculo é essencialmente do conhecimento
com a ação, isto é, a posição
do sujeito enquanto agente condiciona-o enquanto cognoscente5.
Uso da linguagem
natural.
Deve-se frisar que
em nosso trabalho científico usamos a linguagem natural.
As demais ciências se foram constituindo e/ou fortalecendo
à medida que formalizavam sua linguagem em especial mediante
o recurso à matemática que, desde os albores da modernidade,
revolucionou o conhecimento, primeiro através da geometria
e, depois, de outros modos de tornar artificial a linguagem científica.
Nas humanas, porém, a linguagem utilizada é a natural,
a mesma do dia a dia.
Evidentemente esta
linguagem é empregada com rigor, e portanto a mesma palavra
que para o senso comum porta um significado ou vários ,
virá a ter outro, mais preciso, em cada ciência humana,
ou em cada vertente da mesma. Submete-se assim a polissemia da linguagem
usual a definições mais precisas. Mas, de qualquer
forma, esta operação incide, no caso de cada discurso
científico, sobre algumas dezenas ou centenas de palavras
dificilmente mais que isso.
O uso da linguagem
natural induz a um equívoco bastante comum, especialmente
por parte de nossos colegas de outras áreas. É que
fica, por vezes, pequena a distância entre nosso texto científico
e o de divulgação, como se pode notar, em particular
nos períodos eleitorais, nos depoimentos de cientistas políticos
à imprensa.
Mas dois recortes
bastante pronunciados nas outras áreas não têm
o mesmo peso para nós: a separação entre
o texto de pesquisa e o de divulgação, em primeiro
lugar, e a diferença entre o discurso científico
e o de opinião, em segundo. Como muitos equívocos
aqui germinam, aprofundarei esta questão.
Pesquisa e divulgação.
Se a linguagem natural
é nossa base, e se ela é o veículo de comunicação
social por excelência, entende-se que tanto a pesquisa quanto
a divulgação a utilizem. Nas demais ciências,
ao contrário, a pesquisa será tão mais refinada
quanto mais se formalizar, esvaziando-se de variáveis inoportunas
ou desprezíveis. Para nós, processo análogo
pode e deve ocorrer no processo de pesquisa, mas com a significativa
diferença de que o refinamento rigoroso procede, não
pela substituição da linguagem natural por uma formalizada,
e sim no interior da própria linguagem natural.
Assim, é curioso
notar que enquanto nossos colegas cientistas estranham que usemos
esta linguagem, a seu ver degradada, para pesquisar, e que portanto
apresentemos eventualmente um mesmo texto como produto de pesquisa
e de divulgação, os jornalistas simetricamente reclamem
de nossa obstinação em não aceitar que uma
palavra seja substituída por outra, em recusar que nossas
idéias sejam resumidas ou explicadas para o comum dos mortais
em termos jornalísticos. Somos pouco rigorosos aos olhos
dos que formalizam, porque usamos a linguagem natural, mas o somos
em demasia porque tornamos rigorosa essa mesma linguagem aos
olhos dos que comunicam6.
E isso porque nossa posição, lidando com o mesmo medium
para pesquisar e comunicar, é desconfortável.
Texto científico
e de opinião.
A segunda separação
que para nós fica reduzida é entre o texto científico
e o de opinião. Neste período eleitoral, quantos cientistas
políticos não assinaram colunas de opinião
nos jornais! Mas isso que o jornal chama de opinião é,
no caso, fruto de uma reflexão, que por vezes chega a ser
exposta em seus próprios termos embora, repito, as mediações
do raciocínio nem sempre possam ser transmitidas ao leitor,
mesmo refinado, de um suplemento cultural.
Essa transição
às vezes pouco perceptível entre a reflexão
teórica e a opinião acarreta um problema que pude
notar, por exemplo, no Plano de Trabalho que nos foi apresentado.
O problema é que, como usamos a linguagem natural e além
disso opinamos, o leigo em ciências humanas muitas vezes
um especialista em outras ciências ou um administrador de
C&T pensa que as questões que discutimos são
de mera doxa, de simples opinião.
Para ser mais preciso:
como uma parte de nossos temas tem a ver com a cidadania, e todo
cidadão tem portanto direito de opinar e inclusive de decidir
a respeito, confunde-se muitas vezes o que é essa opinião
pública com o que constitui uma reflexão científica.
Daí que temas cruciais das ciências humanas sejam discutidos
como se fossem questões às quais não se aplica
racionalidade ou rigor.
Tomo a liberdade
de apontar este fato no Plano de Trabalho, por exemplo, quando ele
trata da necessidade de tornar mais justa nossa sociedade. Tal afirmação
não resulta, porém, em medidas concretas ou sequer
em propostas precisas, num grau de concreção ou precisão
sequer comparável ao dos pontos que envolvem as ciências
exatas e biológicas ou a tecnologia. Veja-se na p. 11 a referência
à necessidade de "eliminar problemas sociais",
e a alusão à "construção de uma
sociedade efetivamente democrática e eqüitativa",
dois pontos que não são desenvolvidos; ao segundo
se segue apenas a menção aos "desafios mais concretos
de geração e incorporação social e econômica
das novas tecnologias", desaparecendo o que possa dizer respeito
a sociedade, a democracia e a equidade. Na p. 12, a referência
ao "potencial produtivo do exercício da cidadania",
que é importantíssima, não é explicada
nem desenvolvida. Mais direta é a alusão à
"cidadania do conhecimento" (também na p. 12),
para a construção da qual se pede, pela primeira vez,
a colaboração das Ciências Sociais mas também
aí a ênfase está posta na incorporação,
por estas, de disciplinas de matriz exata (matemática, estatística
e computação). Poderia prosseguir; apenas anoto que
na p. 18 a "consolidação da cidadania" remete
a "redes de alta capacidade e baixo custo de acesso",
a "códigos de ética para sociedade da informação"
e a "tecnologia de segurança e privacidade". Tudo
isso é muito pouco, para consolidar a cidadania.
O que observo aqui
é que alguns termos, como cidadania, democracia, justiça
são usados por nossos colegas de maneira um tanto imediata,
sem a reflexão que as humanas produziram a esse respeito.
Daí que entre outras propostas as de reduzir desigualdades,
eliminar a miséria, tornar mais democráticas as oportunidades
não apareçam articuladas com ações precisas:
e não aparecem porque sequer se procede a um diagnóstico
adequado das mesmas. Nas análises que tenho lido, as resistências
que impedem a justiça social surgem, quando muito, como resíduo
de uma cultura ibérica patrimonialista, que o empenho racional
de modernizar venceria, ainda que necessitando bastante esforço.
É desconhecer tudo o que as humanas têm a dizer a esse
respeito. Voltarei a isso.
Conseqüências:
a interdisciplinaridade.
As conseqüências
da descrição que propus das humanas a coincidência
entre sujeito e objeto, e o uso da linguagem natural como linguagem
de rigor são várias. Argumentarei que são
globalmente positivas, mas como não são devidamente
compreendidas induzem os cientistas em geral, e inclusive os de
ciências humanas, bem como os administradores de C&T,
a uma série de equívocos.
O ponto principal
é o seguinte: as fronteiras, nas humanas e nas humanidades,
são mais permeáveis. Assim, penso que a interdisciplinaridade
se produz mais fácil e espontaneamente nas humanas do
que em outras áreas, e isso justamente porque o contato entre
uma disciplina e outra é facilitado por sua menor formalização,
ou por sua não-matematização. O comum recurso
à linguagem natural permite maior fluidez na leitura recíproca.
Isso leva, por sua
vez, a dois resultados. O primeiro é que parte dessa leitura
mútua entre cientistas de distintas áreas ocorre,
não só em journals arbitrados com referees,
mas até em textos de jornais, em especial nos suplementos
culturais de melhor qualidade, como os Reviews of Books de
Nova York, de Londres, e ainda os do New York Times e do
Times londrino, para não falar no Mais! do
jornal Folha de S. Paulo, que já publicou textos preciosos.
Esse tipo de órgão, que para um cientista de outra
área seria apenas de divulgação, para nós
pode veicular trabalhos de primeira qualidade. Curiosamente, a publicação
nos journals da área, mesmo os melhores, acaba contemplando
muitas vezes pesquisadores iniciantes, com trabalhos corretos porém
mais escolares, enquanto bonnes feuilles ou primeira leitura
de obras relevantes apareceram, várias vezes, nos suplementos
da grande imprensa. A questão, obviamente, é de mercado.
Um pesquisador destacado pode ser convidado a escrever um longo
artigo de capa de um desses suplementos para não citarmos
brasileiros, lembraria o nome de Robert Darnton, um dos mais importantes
historiadores do século XVIII, que revolucionou em vários
pontos o estudo daquela época7.
O mesmo convite não será dirigido a um pesquisador
iniciante. Embora os critérios de mercado não sejam
necessariamente os da qualidade científica, neste caso tampouco
ocorre que sejam, sistematicamente, opostos a ela. Evidentemente,
um artigo de jornal não se aprofunda tanto como um de revista,
mas em certos casos trata-se de uma diferença mais da forma
da apresentação (o aparelho crítico, as notas,
a linguagem interna corporis) do que de seu conteúdo
efetivo.
O segundo é
que assim opera pelo menos parte de nossa interdisciplinaridade.
O contato com o trabalho de ponta da outra área se dá
de várias formas, mas é facilitado pelo uso da linguagem
natural. Como cada área a trabalha com rigor, as palavras
têm um sentido próximo. Evidentemente, como o rigor
de cada área prioriza certos termos, em detrimento de outros,
ocorrem equívocos. Mas as intersecções entre
os vários rigores acabam permitindo um diálogo, ou
pelo menos uma leitura recíproca, capaz de fecundar novos
trabalhos. Basta observar o papel que tiveram, nas décadas
de 1970 em diante (depois do sucesso da lingüística
na época do estruturalismo, que corresponde a outro padrão),
a antropologia e em certa medida a filosofia, influenciando novos
modos de trabalho nas demais ciências humanas8.
Crítica
às agências de fomento no tocante às ciências
humanas.
Este ponto já
permite uma primeira crítica ao modo como têm procedido
as agências de fomento no tocante às ciências
humanas. A convicção delas tem sido de que é
preciso consolidar as áreas, mas isso segundo um modelo
único, que prioriza, entre outros fatores, a construção
de um espaço interno à área, assinalado por
vários indicadores. Resulta disso um esvaziamento
da interdisciplinaridade.
O trabalho interdisciplinar
é uma das principais baixas (casualties, para ficar
claro do que estou falando) quando se enfatiza a necessidade de
desenvolver uma área, com associação científica,
programas de pós-graduação, revistas com referees,
congressos que fortaleçam o discurso da própria área.
Resulta disso que muitas vezes é prejudicado justamente
o que de melhor se fazia, de maneira espontânea, em especial
o contato interdisciplinar.
O irônico é
que, uma vez esvaziada a interdisciplinaridade pelo relevo dado
ao trabalho interno à área, as agências se preocupam
em abrir nichos para a interdisciplinaridade. Presenciei esse esforço
quando fui membro do Conselho Deliberativo do CNPq. Aprovamos em
1993-94 a criação de um CA interdisciplinar, cujas
atribuições e perfil ficaram vagos. Não se
definiu exatamente se seria um CA para examinar projetos interdisciplinares,
repelidos dos CAs específicos, que faziam espantoso (mas
muito racional) jogo de empurra com os mesmos, a fim de reservar
seus orçamentos para trabalhos puros e fiéis à
área, - ou se seria um CA de primeiro plano, formado de conselheiros
diretos da presidência do CNPq para a matéria científica
de ponta. O caso é ilustrativo, porque mostra, primeiro,
que cada CA tende a fechar-se sobre si e a expelir, a fim de preservar
suas verbas, o trabalho que seja interdisciplinar; segundo, que
um CA voltado para este enfoque acaba se tornando apenas uma câmara
revisora de projetos que caíram no buraco negro de não
terem rótulo preciso de tal ou qual área. Em vez de
considerar o excelente, o inovador, o trabalho de ponta, converte-se
numa câmara recursal para o pior e, eventualmente, o melhor.
Em suma: o empenho em cristalizar as áreas acaba produzindo,
ex post facto, uma tentativa de suprimir aquelas mesmas fronteiras
que a administração de C&T se empenhou, com denodo
involuntário, em erguer.
Voltaremos às
conseqüências de nossos modos de publicar. Por ora, insistirei
na aplicação prática das ciências humanas,
ou seja, o que seria nosso equivalente ao que é a tecnologia
no caso das ciências exatas e biológicas.
Aplicação
prática das ciências humanas: a sua "tecnologia".
Enorme preconceito
paira no tocante à aplicação prática
das ciências humanas. Por um lado, parte razoável,
se não a maior, da comunidade científica de humanas
rejeita a possibilidade de tal aplicação. Equivocadamente,
ela entende que tal aplicação seria óbvia para
as ciências exatas e biológicas, e até mesmo
que seria imposta pelos cientistas dessas áreas. (Pude constatar,
no CD do CNPq9,
que é bastante duvidosa essa suposta adesão entusiástica
dos cientistas exatos e biológicos ao mercado, ao capital
e à tecnologia). Por isso mesmo, a comunidade de humanas
alegra-se quando, entre esses últimos cientistas, encontra
aliados para rejeitar o que considera ser uma intrusão do
mercado numa área a ele imune, que é a da pesquisa
pura. Pretendo criticar estes equívocos da comunidade, mas
antes assinalo que se eles prosperaram foi porque a administração
de C&T tomou, aqui, caminhos também equivocados, desconhecendo
em que consiste a aplicação prática das humanas.
O grande erro, comum
quase a todos os interlocutores, é o seguinte. Afirma-se
que as ciências ou a Universidade devem relacionar-se
com a sociedade. Mas reduz-se a sociedade, num momento seguinte,
ao ambiente produtivo de bens e serviços, que é o
das empresas. Deixa-se de lado tudo o mais que existe na sociedade,
como por exemplo formas de vida, relacionamentos sociais, movimentos
reivindicativos. Prova do que estou dizendo percebe-se no fato
de que quase todo o discurso, em ambiente acadêmico, que se
profere sobre a relação entre Universidade e sociedade
acaba se referindo aos modos de transferir tecnologia para as indústrias
ou empresas.
Assim, o conceito
de sociedade deve ser expandido. A produção de
bens e serviços é um de seus aspectos, mas não
pode ser o único. Ora, como a sociedade inclui os seres humanos
que nela estão e como as coisas (bens e em certa medida
serviços) na verdade são apenas mediadoras entre relações
sociais entre pessoas a relação entre a Universidade
e a sociedade é objeto por excelência das ciências
humanas. Não se justifica, então, o alheamento
destas: nem o que é promovido por uma leitura equivocada
da C&T, empenhada em mostrar serviço vendendo tecnologia,
nem o que constitui reação de autodefesa de professores
que sentem diminuído o seu trabalho porque acaba não
cabendo nas prioridades definidas em nível ministerial.
Há mais que
isso. Não é só conceito de sociedade que está
falho, mas também o de produção. Hannah
Arendt observou que, em grego, há dois termos principais
para designar o que chamaríamos ação ou produção.
Um deles é o de techné, que gera nossas palavras
técnica, tecnologia, e que indica a ação do
homem sobre a matéria: ela traduz esse termo por fabricação.
Outro é o verbo prattein, com o substantivo praxis,
que se refere à ação do homem sobre o homem.
A grande diferença entre a técnica e a práxis
é que, no caso da segunda, ocorre uma interação.
Eu, humano, ajo sobre outro humano, que reage ou age também
sobre mim. (É claro que também as coisas reagem; mas
a diferença é que, na interação humana,
o sujeito e o objeto da ação são da mesma espécie;
a reação da coisa é diferente da reação
do humano). O problema da modernidade, entende Arendt, é
que ela enfatizou em demasia a fabricação e descurou
da práxis.
Ora, meu argumento
é que tanto os cientistas humanos na defensiva, quanto
aqueles a quem eles acusam de obrigá-los a ser produtivos
pensam a produção enquanto techné,
e não enquanto práxis. Para a técnica, é
óbvio que as ciências humanas têm pouco a contribuir.
Não é seu horizonte o da produção de
bens, e o que podem dar à produção de serviços
é mais uma reflexão crítica.
Contudo, elas têm
muitíssimo a dizer sobre a produção enquanto
práxis. E é o desconhecimento desse fato que tem concorrido,
mais que tudo, para um duplo e péssimo reflexo: por um lado,
a pressão das reitorias e das próprias agências,
bem como da imprensa, cobrando as ciências humanas para que
façam o que não será sua melhor obra, isto
é, ajudar um aumento mensurável da produção
de bens e serviços; por outro, um encastelamento de parte
significativa dos pesquisadores da área, recusando-se a pensar
a aplicação prática de seus conhecimentos,
de suas pesquisas, naquilo mesmo em que têm muito a dizer
e a fazer.
Darei um exemplo
do que é feito e outro, do que pode ser feito. Uma das grandes
contribuições da pesquisa em humanas é a que
tem sido conduzida pelo Núcleo de Estudos da Violência,
da USP. Desde vários anos seus membros pesquisam não
só aspectos quantitativos, mas também qualitativos,
da violência. Disso decorre uma série de aplicações
práticas, de que são mais visíveis os Planos,
que redigiram, tanto Nacional quanto Estadual (paulista) de Direitos
Humanos. Recentemente, em 2000, sua ação lhe valeu
vencer uma concorrência da Fapesp na indução
de grandes projetos de pesquisa. Sua atuação é
assim exemplar no modo como articula a pesquisa de ponta
muitos de seus resultados são inovadores em face de um
senso comum equivocado a respeito da segurança e a extensão,
isto é, o que chamei de aplicação prática
do conhecimento obtido. Contudo, deve-se notar que, justamente
por isso, o Núcleo ficou assoberbado de trabalho. Passou
a ser considerado como uma espécie de cartão de visitas
da Universidade, ou de reserva moral, no mundo acadêmico,
dos direitos humanos. Sua ação é requisitada,
muitas vezes, lá onde não se necessita propriamente
de uma intervenção cientificamente habilitada, mas
sim de vontade política10.
Obviamente isso estressa os seus pesquisadores.
O outro exemplo é
o de algo que deveria ser feito e ainda não o foi. Em 1993,
num debate que presidi sobre parlamentarismo, o cientista político
Luciano Martins comentou que a Nova República não
havia promovido uma educação para a democracia. Nem,
por sinal, foi ela promovida desde então, embora existam
Escolas de Governo em São Paulo, Fortaleza e Belo Horizonte,
pelo menos, mas salvo a última, que é da Assembléia
Legislativa nenhuma delas pertencente ao poder público11.
O fato é que dispomos, graças a pesquisas das ciências
sociais mas não só delas, de vasto conhecimento teórico
sobre o autoritarismo e o patrimonialismo, porém, até
o momento, não se converteu esse conhecimento, sistematicamente,
em práticas.
Uma educação
para a democracia não seria apenas a preparação
de novos quadros para a política e a administração,
dentro de princípios como transparência, accountability,
respeito aos direitos humanos, priorização do cidadão
sobre os interesses da administração ou da corporação,
respeito ao patrimônio público. Implicaria também
ações contra a tradição autoritária
nos costumes brasileiros e tudo aquilo que, na sociedade, mantém
ou preserva a desigualdade, a injustiça, a miséria.
Neste sentido, poderia ancorar uma espécie de PADCT para
a área de humanas, talvez funcionando como um dos projetos
que mais possam agregar esforços, uma vez que, além
das três ciências sociais sociologia, antropologia
e ciência política tem implicações
para a psicologia, o direito, a pedagogia, a história e a
filosofia, isto sem falar, mais indiretamente, nas comunicações,
letras e economia12.
Finalmente, um dos
campos em que melhor se deu a contribuição das ciências
humanas para a sociedade é nos artigos de op ed da
imprensa brasileira inclusive rádio e televisão
difundindo uma nova consciência da política. A crítica
ao patrimonialismo, a defesa da transparência e outros valores
básicos do Estado de direito foram, assim, difundidos. Mesmo
no caso de valores mais controversos como no debate da privatização
versus a manutenção do controle estratégico
do Estado sobre a economia ambos os lados foram municiados por
estudos de cientistas políticos e sociais. Inegavelmente
a qualidade do debate político avançou com a democracia,
e isto em boa medida é efeito do trabalho das ciências
humanas.
Em suma, o essencial
é compreender onde se dá a aplicação
prática das ciências humanas e, isso entendido, potencializá-la,
aumentá-la, identificar e arrebentar os gargalos que a limitam.
O que expus mostra que no campo das humanas é problemático
distinguir a divulgação e a aplicação
prática.
Nas ciências
exatas e biológicas, trata-se de dois domínios inteiramente
distintos. A divulgação visa a atrair novas
vocações para a ciência, ou a despertar uma
consciência a respeito dela na sociedade, que aumente seu
peso político (este, o duplo papel da imprensa científica,
quer como editoria nos grandes jornais, quer com revistas próprias).
Já a aplicação prática se dá
em laboratórios, mediante iniciativas que certamente se distinguem
da pesquisa básica, mas que têm em comum com esta estarem
à distância do grande público. Este é
beneficiário da tecnologia, mas nem sequer se imagina que
venha a conhecer os seus meandros.
Já nas
ciências humanas, boa parte da aplicação prática
passa, justamente, por gerar uma nova consciência social,
política e humana. Isso depende diretamente da divulgação.
Por isso mesmo, é raro que seus resultados apareçam,
por exemplo, nas seções da imprensa voltadas à
ciência. A leitura do que as ciências humanas tenham
a dizer não se dá propriamente nos cadernos ou revistas
de ciências, mas sim, antes de mais nada, no caso dos jornais
diários e revistas semanais, nos cadernos culturais e nos
de política brasileira13.
Este dado não
significa, porém, que a aplicação prática
das ciências humanas consista apenas em gerar uma nova consciência
do Umwelt humano. Elas também servem, e bastante,
para formular políticas públicas, que encontram no
Estado, ou nas instituições que foram crescendo para
emular o papel do Estado, à medida que este delegava o setor
social ao voluntariado das ONGs, o seu principal cliente.
Contudo, há
que distinguir dois destinatários principais do trabalho
das ciências humanas. Um é o mercado 14
usual das pesquisas, que são o Estado e o para-Estado
das ONGs, de que acabo de falar. É um destinatário
bem constituído, que remunera, que geralmente mas nem sempre
tem uma visão profissional do trabalho que contrata dos
profissionais da área. Muitas vezes também, embora
nem sempre, as pesquisas de fato resultam em políticas, o
que é muito positivo.
Mas a novidade do
enfoque que aqui proponho está em considerar também
um segundo destinatário, este bem mais difuso, que
é o da formação de uma opinião pública
à luz das grandes descobertas das ciências humanas.
Deter-me-ei neste ponto.
Sabe-se que uma inovação
tecnológica demora cada vez menos tempo para ir da bancada
em que veio à luz até o consumidor. A tendência,
hoje, é que esse prazo chegue a seis meses. O exame de tudo
o que portamos no corpo é muito instrutivo a respeito, embora
obviamente seja difícil ao leigo identificar cada inovação
tecnológica que está vestindo ou usando. A mesma questão
cabe no caso das Humanas: o que, das descobertas científicas
que ela efetuou, resulta ou resultou em mudanças de vida?
Quais os efeitos práticos da pesquisa? De que maneira ela
beneficia a sociedade?
Tentamos sugerir,
acima, maneiras de responder a esta pergunta. Apontamos uma primeira,
evidente e direta apropriação da pesquisa, aquela
efetuada pelo Estado e pela dimensão pública da ação
social em gerar (poderia incluir aqui toda a pesquisa que tem cliente
determinado, que se dá no mercado, como p. ex. a de uma empresa
que contrata a elaboração de um Relatório de
Impacto Ambiental ao projetar uma represa, ou ainda a de uma indústria
caso mais raro mas que precisa crescer que encomende uma pesquisa
sobre os efeitos sociais de sua produção, quer sobre
os seus trabalhadores, quer no mercado de consumo).
Delineamos uma segunda
apropriação, menos evidente, extremamente lábil,
pouco profissionalizada, e que tem a ver sobretudo mas não
só com a constituição de uma opinião
pública republicana, empenhada em contestar o patrimonialismo
e o autoritarismo. O problema desta apropriação,
porém, é que embora talvez tenha um impacto sobre
a sociedade mais forte do que a primeira ela é bem menos
profissionalizada e depende quase por completo de uma demanda dos
órgãos de imprensa. É o caso, por isso mesmo,
de tecer recomendações a respeito, o que farei logo
adiante. Antes disso, contudo, é preciso elaborar o conceito
de apropriação social da pesquisa.
Apropriação
social da pesquisa.
O CNP q sempre
trabalhou, como as outras agências, com o conceito de beneficiário
dos recursos concedidos. O beneficiário é simplesmente
aquele que pede o recurso financeiro e que, ele concedido, recebe-o,
aplica-o e presta contas. Uma sugestão discutida no Conselho
Deliberativo do CNPq em 1995-96 foi a de acrescentar aos formulários
o conceito de beneficiário social da pesquisa. A idéia
é que os recursos fossem solicitados identificando-se qual
o retorno que viria, para a sociedade, da pesquisa em questão.
A discussão
a respeito foi delicada eu a relatei no Conselho e avançamos
significativamente nestes pontos15.
Ficou claro, primeiro, que a idéia de retorno para a sociedade
deveria ser a mais ampla possível, não se admitindo
a identificação de sociedade apenas com o mercado,
o setor produtivo ou as empresas. Segundo, que não se
deveria utilizar esse conceito como critério principal para
concessão ou não de recursos. Mas o lado positivo
dessa indagação é o de identificar quem
são os beneficiários, não apenas de uma visão
contábil da concessão de recursos, mas da pesquisa
a médio ou longo prazo. Nada impede, por exemplo, que uma
pesquisa seja financiada cuja finalidade básica seja formar
quadros para a Universidade numa área que ou está
carente, ou está em plena expansão. O que falta, todavia,
muitas vezes é a nítida percepção de
para que se está financiando tal ou qual pesquisa, em suma:
falta sair da chamada série histórica, ou da inércia
na distribuição de recursos, para se pensar prospectiva
e não retrospectivamente.
E aqui tem sentido
perguntar como se dá a apropriação social da
pesquisa. Um exemplo pode ser retirado das áreas tecnológicas.
Imaginemos que se consiga uma cola perfeitamente adequada para o
couro do gado brasileiro, que portanto melhore a qualidade de nossos
calçados. A questão que se coloca para o CNPq é:
como arbitrar os benefícios sociais dessa pesquisa? Entende-se,
se ela foi financiada pelo CNPq, que parte dos royalties
vá para o Conselho e parte para o pesquisador. Mas, afora
isso, trata-se simplesmente de uma tecnologia que será transferida
graciosamente para as empresas, ou será ela vendida às
que paguem? Deve-se cobrar muito pela invenção, ou
pouco, mas neste caso sob a condição de que o ganho
tecnológico seja repassado, sob a forma de maior qualidade
e menor preço, aos consumidores? Essas questões têm
sido pouco debatidas, embora o estejam sendo cada vez mais, e não
podemos alhear-nos delas16.
As recomendações
no tocante ao impacto social da pesquisa, ou à sua extensão,
em Humanas são as seguintes:
- Recomenda-se ao MCT, e às
agências de fomento em geral, que levem em conta a especificidade
das aplicações práticas das Ciências
Humanas, procurando valorizá-las naquilo em que são
boas e não lhes impor procedimentos que só as atrasarão
ou mesmo prejudicarão. Por isso mesmo, devem envidar esforços
no sentido das recomendações terceira e quarta,
logo abaixo.
- Á comunidade científica
de Humanas, recomenda-se que evite a postura defensiva em
relação à sociedade, assumindo que se as
relações de compromisso social da Universidade são
com a sociedade esta última é o objeto científico
justamente da maior parte das ciências humanas, de modo
que elas podem e devem assumir atitude mais afirmativa. Por isso
mesmo, convém que a comunidade discuta e adote políticas
as mais diversas, desde que fecundas de transferência
de sua pesquisa para a sociedade, para que esta transmissão
deixe de acontecer somente sob controle do mercado ou dos intermediários
entre a comunidade e o público. Em suma, é desejável
que a comunidade científica seja mais ativa na determinação
do que vai passar para a sociedade.
- No tocante à pesquisa
que já é feita para uma clientela ou mercado
definido, sugere-se que seja reforçada. Em especial,
convém se ressaltar a necessidade de que as empresas levem
cada vez mais em conta os aspectos culturais (no sentido antropológico)
de suas políticas de recursos humanos no interior da planta,
e de relação com o mercado em geral, utilizando
para tanto uma capacidade instalada, mas ainda ociosa, de pesquisa
em ciências humanas. Muitas vezes, problemas que aparecem
simplesmente como obstáculos ao aumento da produção
ou à difusão do produto (bem ou serviço)
na verdade têm sua explicação em aspectos
culturais que não foram levados em conta, ao se pensar
apenas na maximização econômica da produção.
E com isso se anda em círculos, reinventando-se a roda;
desperdiça-se muito dinheiro e tempo, para considerações
genéricas e pouco eficientes (o que acontece sobretudo
no nível da diretoria e assistência de diretoria
de muitas empresas). Isso quando existem pesquisas, instrumental
analítico e pessoal qualificado que podem ajudar de maneira
racional e científica a elaborar estratégias para
lidar com esses obstáculos, em vez de se fazer isso de
maneira intuitiva, confusa e contraproducente. Na verdade, com
isso se ampliará o alcance de pesquisas que por enquanto
têm seu principal mercado nos setores estatais ou que assumem
a perspectiva do público, mas que podem expandir-se para
contribuir para o avanço econômico do setor privado,
ao dar conta de aspectos que usualmente são ignorados.
Seria conveniente, por parte do MCT, talvez em parceria com
os ministérios econômicos, uma divulgação
junto ao setor empresarial privado da importância dessa
possível contribuição das ciências
humanas.
- Já a difusão
do conhecimento em Humanas na sociedade como um todo, na constituição
de uma opinião pública democrática,
é o ponto que merece maior detalhamento nesta secção.
Aqui tratamos propriamente de público,
mais que de mercado (que foi o alvo do item anterior). Contudo,
o fato de se tratar de público não quer dizer que
a relação seja direta, entre a comunidade científica
de Humanas e ele. Ao contrário, tal relação
tem uma série de intermediários, que são
os meios de comunicação em geral, indo desde as
redes de TV nacionais, passando pelos rádios e jornais,
até chegar às editoras, e entre estas ainda se distinguem
as mais comerciais e as mais acadêmicas. O problema é
que atualmente essa difusão, embora tenha por mérito
o de constituir uma opinião essencial para o desenvolvimento
social e político do Brasil, se faz segundo os critérios
desses intermediários. Se lembrarmos que estes últimos
formam um mercado, veremos que o papel do mercado nesse item é
ainda mais forte do que no anterior. Aqui se torna então
necessário mudar o peso respectivo dos atores envolvidos.
É desejável, primeiro, que a atuação
profissional seja com o perdão da redundância -
mais profissionalizada. Muitas vezes ela sequer é
remunerada, ou o é mal. Esse fator, contudo, é apenas
decorrência de uma causa mais profunda: é
que até o presente momento a transferência à
sociedade dos resultados da pesquisa em Humanas não foi
alvo específico de uma política, nem da comunidade
científica nem das agências (e por isso insisti
tanto neste ponto). Disso resulta que tal apropriação
social da pesquisa se faz de maneira sobretudo diletante. Um século
depois de Freud dizer que "não acredit[ava] mais na
[sua] neurótica", e com isso iniciar a psicanálise17,
a convicção da maioria esmagadora de nossa sociedade
é que a contribuição dele ao conhecimento
do ser humano se resume numa obsessão com a sexualidade.
Isso é muito pouco, e conviria para ressaltar este exemplo
que a comunidade psicanalítica pensasse como o seu conhecimento
pode beneficiar a sociedade como um todo. A mesma questão
cabe para as demais ciências humanas. Em síntese,
o que se sugere é que se formulem projetos de transferência
de seu conhecimento à sociedade, projetos que obviamente,
numa sociedade democrática e numa economia de mercado,
não podem ter caráter impositivo, mas podem constituir
programas de contribuição das ciências à
sociedade. Repito que aqui estamos lidando numa área
que, nas ciências exatas e biológicas, seria a da
divulgação, mas, no caso das humanas, se converte
na da aplicação prática. O importante é
que a aplicação prática das ciências
humanas se faça de maneira mais consciente e, na medida
do possível, mais deliberada.
Pesquisa de ponta.
Passamos agora à
questão da pesquisa de ponta. Era importante começar
pela caracterização das ciências humanas e,
depois, passar à sua aplicação prática.
Parecerá à primeira vista que, fazendo a aplicação
preceder a pesquisa, invertemos a ordem normal dos fatores. Mas
foi proposital. Era preciso insistir nas especificidades de Humanas
e, sobretudo, naquilo que é causa de incompreensão
e de equívocos a seu respeito, tanto por quem é de
fora como por quem é da área. Era preciso, sobretudo,
recusar o consenso vigente sobre as Humanas e sua aplicação
prática. Tudo o que foi dito pressupõe as proposições
iniciais sobre a relação diferenciada entre sujeito
e objeto, nas Humanas, e o conceito de produção com
que elas lidam.
Já observamos
algumas peculiaridades da interdisciplinaridade em Humanas. O interdisciplinar
não deve, nas Humanas nem em quaisquer ciências que
sejam, ser entendido como algo que se faz preservando-se as próprias
fronteiras. O cerne de sua importância está em uma
linguagem de uma área permitir revolucionar outras. Assim
sucedeu, no século XVII, que dá a matriz das atuais
ciências exatas, quando um recurso duas vezes milenar de agrimensores
e tabeliões a geometria se viu alçado ao papel
de fornecedor de paradigmas para todo conhecimento que quisesse
ser científico. Assim ocorreu, em nosso século, nas
Humanas, quando a lingüística trouxe rigor às
demais ciências, no auge do estruturalismo, e quando a antropologia
transmitiu a preocupação com as significações
como são vistas pelos diversos agentes sociais, revolucionando
a percepção das relações humanas. O
específico em Humanas é que a interdisciplinaridade
se vê facilitada por usar-se a linguagem natural como veículo
de comunicação científica. Tal facilidade
deve ser explorada ao máximo. Um ponto importante é
abrirem-se, sempre, espaços experimentais para que se testem
linguagens fora de seu lugar de origem, de modo que da interrogação
recíproca entre linguagens e corpus possam resultar novas
hipóteses e perspectivas, mesmo que boa parte destas malogre.
Dúvidas
quanto à internacionalização.
Outro ponto a frisar,
e no qual vou a contracorrente da doxa reinante, especialmente
nas agências, que nisso seguem o modelo das ciências
exatas e biológicas, é que a exigência de internacionalização
da pesquisa não terá sido muito positiva para as Humanas.
É óbvio que não tem sentido a pesquisa fechada
num só país. Mas convém dizer com toda
a clareza que parte da propalada internacionalização
de nossa pesquisa, pelo menos em Humanas, não tem ido além
da constituição de grupos ou indivíduos
nacionais como franqueados de seus congêneres estrangeiros
o que não traz nenhum ganho maior para a qualidade da pesquisa
que aqui se faz.
Antes disso, porém,
e mais importante: as ciências humanas não têm,
atualmente, de modo geral, centros de excelência mundiais.
Não vivemos um período como o dos anos 60, em que
o estruturalismo pontificava, ou como o dos anos 70, em que pensadores
da estatura de Foucault ocupavam claramente uma posição
da qual se irradiavam perspectivas inovadoras para as ciências
humanas. Infelizmente ou não o presente momento é
marcado pela falta de centros dos quais se irradiem propostas, conceituais,
metodológicas ou outras, de forte impacto qualitativo18.
Isso torna então mais absurdo ainda o modelo de internacionalização,
que, mediante uma imitação pouco apropriada das ciências
exatas e biológicas, e por forte recomendação
das agências, se tenta aplicar às humanas. O que acaba
acontecendo é, assim, uma associação subalterna
de nossos pesquisadores a outros que não têm, necessariamente,
uma liderança tão grande que os capacite a exercer
esse papel dominante.
Daí, também,
outra decorrência perversa. Como o imperativo da internacionalização
é relativamente recente, e nossa língua desconhecida
internacionalmente, os pesquisadores que se internacionalizam são
simplesmente os que mostram empenho em fazê-lo. Isso pouco
ou nada tem a ver com sua qualidade. Muitos seniores não
o fazem, até porque se sentem, nesse caso, forçados
a entrar num papel subalterno que sua biografia e bibliografia já
não admitiriam. Ora, o efeito disso é muito deformador
sobre a pesquisa dentro do País, bem como sobre as relações
internacionais. O esquema da franquia é muito vantajoso para
o pesquisador mau ou medíocre. Ele se torna representante
nacional de um pesquisador estrangeiro, com quem troca convites
e textos, sempre, obviamente, numa posição subordinada.
Recursos públicos financiam visitas do pesquisador estrangeiro
e viagens do nacional. E isso num contexto em que geralmente o pesquisador
estrangeiro é de qualidade mediana, não mais que isso19.
Uma palavra sobre
a nossa língua. Ela é desconhecida no exterior,
e daí tem vindo a insistente recomendação de
que publiquemos em inglês ou, pelo menos, em francês
ou alemão. É preciso matizar essa sugestão.
Em primeiro lugar, lidamos com a linguagem natural e com freqüência
nosso texto tem elementos polissêmicos eis uma das pontes
entre as ciências humanas e as humanidades, assim entendidas
sobretudo as artes e literaturas , o que torna sua tradução
difícil e problemática. O trabalho de converter em
inglês um texto é assim mais difícil do que
quando a linguagem científica é, já por ser
formalizada, internacional por princípio. Há mais
que isso, porém. Em segundo lugar, boa parte de nossas publicações
no exterior acaba se dando em veículos confinados à
produção sobre nosso país. Não necessariamente
se difunde além disso. Precisamos definir estratégias
que arrebentem este confinamento.
Recomendação
para a pesquisa de ponta.
O quadro que assim
desenho é preocupante. Mas acho que o preocupante não
é o diagnóstico, mas o diagnosticado: o panorama da
cooperação internacional num viés subalterno.
É preciso, a contrario, frisar que a comunidade científica
em humanas tem produzido bem em diversas áreas, uma das quais
a já mencionada antropologia. O problemático é
justamente aquilo que, ao ver das agências de fomento e de
colegas bem intencionados mas pouco informados de outras áreas,
deveria ser a solução e, insisto, apenas cria ou
agrava problemas. A solução pode ser encaminhada se,
em vez de associações subalternas de cada pesquisador
ou grupo nacional com um congênere estrangeiro, nos ocuparmos
inicialmente em detectar questões novas na área
de Humanas.
O ponto estratégico
que nos facilita isso é justamente a ausência de centros
internacionais de excelência. Não estamos necessariamente
inferiorizados em relação à pesquisa que
se dá em tal ou qual lugar. Por isso mesmo, não precisamos
retomar questões lá colocadas, cuja relevância
não é tão grande. Já recomendei isso,
ao CNPq, e volto a recomendar: o fundamental é aumentar
a interlocução entre os pesquisadores nacionais de
ponta. Ela existe muito pouco. Não necessariamente aumentará
em congressos da área ou em outros modos usuais de sociabilidade,
pouco adequados a um aprofundamento de questões. É
preciso detectar questões de ponta, suscitar em torno dela
indagações, reunir grupos pequenos de pesquisadores
de alta qualidade aqui agregando seniores abertos à
novidade e juniores inventivos e a partir disso gerar conhecimento.
Neste ponto, a contribuição do CNPq e do MCT poderia
ser decisiva, em três etapas: 1) suscitando algumas questões,
relevantes cientificamente e por sua possível aplicação
prática; 2) financiando os encontros e 3) publicando os resultados
em livros.
Sugiro já
um tema, a meu ver até o presente pouquíssimo estudado20:
o impacto das pesquisas sobre o genoma e as neurociências
sobre a fronteira entre natureza e cultura. Ao longo dos séculos
XIX e XX, uma fronteira bastante instável se constituiu,
entre o domínio das ciências biológicas e o
das humanas. Sempre houve escaramuças e tentativas de mudar
o traçado das fronteiras. Contudo, o princípio das
mesmas e sua localização genérica eram aceitos.
Mas, com os estudos de ponta nas neurociências e o projeto
genoma humano, está-se difundindo a idéia de que muito
do que dependia da cultura e da educação isto é,
que era histórico, contextual e objeto de estudo das ciências
humanas pode estar já inscrito nos genes e ser trabalhado
pelas ciências biológicas. Caso se confirme essa hipótese,
que tem maciço apoio financeiro e forte apoio da mídia,
as fronteiras serão modificadas em detrimento da cultura
e das ciências humanas, e em favor da natureza e das ciências
biológicas. Sofrerão, em particular, a antropologia
e as várias psicologias, sobretudo, talvez, a psicanálise21.
Ora, é premente
discutir esse cenário. Dificilmente se terá um consenso
a respeito, e convém evitar reações apenas
imperialistas (por parte dos pesquisadores do genoma e das neurociências)
ou somente defensivas (do lado das ciências humanas). Mas
é preciso suscitar esse debate, ou para reduzir o otimismo
por vezes ingênuo de nossos colegas hoje de ponta, ou para
questionar o sentido das ciências humanas no day after
o genoma.
Outras discussões
poderiam ocorrer sobre outros pontos que possam ter o sentido de
fecundar a pesquisa. Em suma, o que sugiro é algo como a
constituição, muito informal, até porque
qualquer formalização contradiria o espírito
do que se está recomendando, de um instituto de estudos
avançados em humanas, de âmbito nacional. A
renovação nas ciências está sendo brutal,
no melhor sentido do termo, e isso requer que se procure suscitar
o máximo de novas pesquisas, mas somente o faremos se aumentarmos
o diálogo, em torno de pautas precisas, entre nossos melhores
pesquisadores.
Para isso é
primordial entender que a aplicação prática
do conhecimento que geramos, em Humanas, não é externa
ao próprio conhecimento gerado (como sucede nas exatas e
biológicas), mas está no cerne dele mesmo. A aplicação
dos resultados de uma pesquisa biológica, por exemplo, depende
de questões que a própria biologia não pode
examinar a existência de mercados, de fatores de produção,
de aceitação social, por exemplo; ora, esses pontos
são objeto de conhecimento das ciências humanas (e
deveria aumentar o papel dela nessa apropriação social,
no caso pelo mercado, dos resultados de outras ciências).
Mas, no caso das ciências humanas e sociais, como seu principal
objeto de estudo é justamente o mundo humano, a transferência
do conhecimento delas para a sociedade é tema de seu estudo.
O que precisamos é enfatizar isso, e sair de uma postura
defensiva para uma claramente afirmativa, em que fique bastante
nítido que nossas disciplinas podem e devem discutir o social,
contribuindo para sua melhoria.
Apêndice:
sobre os estudos em torno da democracia.
É mais que
tempo de encontrar questões que permitam articular a reflexão
mais pura e mesmo descompromissada, com a sua aplicação
prática. Isso vem sido praticado de várias formas,
e projetos têm sido apoiados nessa direção.
Darei um exemplo do que entendo por um possível PADCT de
Humanas, em torno da democracia.
1) Cabe aqui uma
reflexão teórica, filosófica mesmo:
com que conceitos de democracia se lida? Uma dimensão histórica
também entra em cena como se constituiu a democracia moderna,
o que a distingue da grega, que outras práticas democráticas
existem, que não pertençam a essas duas tradições.
O avesso da democracia
precisa ser estudado. O que são tirania e despotismo,
conceitos que remontam aos gregos e reaparecem, com vigor, nos séculos
XVI a XIX; ditadura, termo romano, que muda de sentido na
modernidade; totalitarismo, conceito do século XX,
que congrega as experiências fascista e stalinista. Também
isso implica estudá-los não só teoricamente,
mas no plano histórico. E, a par dessas formas veementemente
anti-democráticas, há que levar em conta formas tenuemente
avessas à democracia: autoritarismos, monarquias, democracias
de fachada.
2) Devem ser realizados
não só estudos teoréticos, em torno dos conceitos
e da história mais dura dos mesmos, mas pesquisas de campo,
investigações da ordem das ciências sociais,
que permitam repertoriar as formas de autoritarismo e inversamente,
de emancipação democrática vigentes no Brasil.
Tratar-se-ia de considerar a) as formas de autoritarismo e de democracia
no plano mais diretamente político (plano da ciência
política), b) no da sociedade (sociologia), c) no de outras
comunidades e grupos, como de gênero (talvez, objeto sobretudo
da antropologia).
3) Finalmente, desse
conjunto de estudos teóricos e empíricos se poderia
chegar a um conjunto de aplicações práticas,
por exemplo: a) projetos de organização democrática
da sociedade, como cursos para administradores e mesmo políticos
que estejam municiados dos últimos conhecimentos técnicos
a respeito, a fim de gerar uma administração republicana
(comprometida com o bem comum) e democrática (comprometida
com o bem do povo); b) projetos de organização autônoma
da sociedade e de seus grupos, levando portanto a questão
da democracia e da república para além das instituições
apenas políticas e constitucionais do Estado, para o da sociedade
como um todo; c) projetos de educação democrática
e republicana, a serem aplicados em escolas desde o 1o
grau; d) publicação tanto de clássicos quanto
de textos novos e inovadores.
Obviamente, este
plano, que aqui delineio a título de um exemplo de projeto
bastante abrangente e ao mesmo tempo preciso, tanto pode ser implantado
mediante um esquema de indução suscitada (um board
suscita temas e convida pesquisadores), quanto mediante um de
projetos de balcão a serem examinados por um órgão
isento (como os CAs do CNPq). O ideal é, evidentemente, que
prevaleça a indução, mas sem eliminar o balcão.
São Paulo,
2 de novembro de 2000.
Notas
1
Não darei maior importância, aqui, à distinção
entre ciências humanas e humanidades. Esta é difícil.
As humanidades são um corpus antigo, revigorado na
Renascença e que corresponde em certa medida aos estudos
clássicos; tinham forte papel pedagógico, formando
as pessoas com base num patrimônio cultural. Já as
ciências humanas datam do século XIX e do XX, embora
devam bastante a precursores e variem muito em seus critérios
epistemológicos. Mas a distinção não
pode ter por base elementos apenas históricos.
Em tese, diria que as humanidades
se caracterizaram por não operar com a idéia
de progresso e por darem menor importância ao referente que
nas ciências recebe o nome de "realidade". Por isso,
são humanidades as literaturas, as artes, a filosofia. Em
nenhuma delas, o dernier cri abafa as vozes anteriores. Já
nas ciências humanas, diversamente, existe uma evolução
da ciência e aumenta a importância da "realidade".
Note-se que, com esta distinção,
1) deixei de lado a velha idéia de que as humanidades trariam
lições de vida, tendo um papel pedagógico,
e 2) incluí entre elas tanto uma disciplina voltada para
o conhecimento (a filosofia) quanto outras, as artes e literaturas,
cuja inclusão entre as disciplinas cognoscentes é
menos óbvia.
Para simplificar, priorizarei
o termo "ciências humanas" (ou "humanas"),
para integrar todas as disciplinas de conhecimento, inclusive a
filosofia, que têm o homem por objeto.
Na verdade, se considero difícil
a distinção, é porque sustento que a diferença
entre ciências humanas e humanidades é menor do que
se pensa. A idéia de que nelas se modifica o sujeito, no
ato mesmo de conhecer, é um traço mais visível
nas humanidades, mas que se percebe também presente nas humanas.
Por isso, excluir humanidades como artes e literatura deste campo
pode fazer perder a especificidade das humanas. (Cf. meu projeto
de curso de graduação interdisciplinar em Humanidades,
elaborado a pedido da Pró-Reitoria de Graduação
da USP).
2
Evidentemente, desde a teoria da relatividade e o destaque dado
pela física do século XX à posição
do observador, diminuiu a distância, neste ponto, entre as
humanas e algumas outras ciências.
3
Os grandes exemplos podem ser os projetos de Durkheim, querendo
tratar os fenômenos sociais como coisas; de Freud,
no fim da vida, querendo chegar às condições
físico-químicas da psique; de Lévi-Strauss,
formalizando as relações sociais mediante intenso
uso da matemática. Não nego que estas tentativas tenham
alcançado sucesso embora menor no caso de Freud. Apenas,
assinalo o caráter local desse sucesso, que não
pode ser generalizado para as ciências humanas como um todo.
4
Recentemente fiz esta experiência com a Psicologia de massas
e a análise do eu, de Freud (1921). Este texto, um daqueles
em que Freud se debruça sobre a sociedade, tem hoje seu mérito
mais no fato de existir do que nos seus conteúdos, em boa
parte superados pela antropologia mais recente.
5
Cf. a frase clássica da sociologia: só pensa algo
sociologicamente quem quer algo socialmente. É a posição
de agente na sociedade que permite construir um saber sobre a mesma.
6
Isto é, aos olhos dos que vêem a linguagem como comunicação.
Hobbes, em meados do século XVI, distinguia na linguagem
dois usos principais, o seu como comunicação,
passível de polissemia, de equívocos e de perda de
sentido, e o seu como veículo da ciência, rigoroso,
mas que dificulta a comunicação. Qualquer teórico
da linguagem sabe, hoje, que a linguagem mesmo natural está
longe de ser um veículo para uma comunicação
transparente.
7
A valorização pouco matizada das publicações
com referees acaba levando, também fora do Brasil,
a injustiças. Nos Estados Unidos, por exemplo, em certos
concursos se dá tanto peso a artigos publicados depois de
arbitragem cega que não são levados em conta artigos
para os mais importantes periódicos quando tenham resultado
de convite. Ora, é óbvio que o convite se dirige a
pesquisadores de destaque, que assim acabam discriminados. A revista
Lingua Franca discutiu este assunto em 1999.
8
Georges Duby, talvez o maior medievalista dos últimos tempos,
comenta em seu Guilherme Marechal que a história das
mentalidades, que ele praticava, era essencialmente a aplicação
da etnologia à história. Por sinal, este livro,
da mais alta qualidade, foi escrito a partir de uma série
de emissões na rádio France Culture: veja-se como
é difícil separar, nas humanas, a melhor pesquisa
e a divulgação.
9
Do qual fui membro, de agosto de 1993 a agosto de 1997, como representante
da comunidade científica.
10
Exemplo de um equívoco muito comum no julgamento do que cabe
à pesquisa universitária e do que pertence à
ação política: recentemente ouvi um líder
estudantil acusar a USP de gastar mais com pesquisa em cosméticos
do que com a cura da malária. Não sei se isso é
verdade, mas aceitando a discussão em tese com freqüência
a universidade e a pesquisa já fizeram o que podiam fazer
(no caso, a pesquisa para a cura da malária). O que falta
é a vontade política, que deve ser do Estado e da
sociedade, no sentido de implementar políticas contra essa
ou outra doença. Não falta pesquisa. Falta política.
Mas poderíamos dizer
que aqui, justamente, podem entrar as ciências humanas. É
possível que já se saiba tudo sobre a malária,
no plano biológico. Sabe-se, porém, como é
a vivência dos seus doentes? E sobretudo: sabe-se por que
não é priorizada a sua erradicação?
(Notem que estou sempre argumentando em tese, mas sirva o exemplo
para assinalar a importância de pesquisas, em Humanas, sobre
as resistências sociais, políticas e mesmo estatais
àquelas medidas que soam como absolutamente necessárias
de outros pontos de vista. Estudar isso pode ser muito útil
para a sociedade brasileira).
Exemplo de outro tema de estudo:
que resistências há, na sociedade brasileira, a uma
cultura da ciência e tecnologia?
11
A Escola de Governo paulista é iniciativa de Fabio Konder
Comparato e outros, e pertence a uma fundação cujos
principais membros são de linhas políticas distintas.
A cearense é de uma fundação de estudos ligada
majoritariamente ao PSDB. De modo geral, são entidades que
se empenham em não ser partidárias, mas por seu
empenho pela cidadania obviamente se voltam contra o legado da
ditadura, o que as aproxima do centro e da esquerda.
12
Dois outros exemplos, para não assoberbar o texto:
1) Em 1994, a cidade de São
Paulo conheceu o episódio da Escola de Base, uma creche na
qual crianças de dois ou três anos acusaram seus professores
e diretores de abusarem sexualmente delas. A opinião pública
crucificou os acusados que, descobriu-se depois, eram inocentes,
mas tiveram suas vidas pessoais e econômicas devastadas de
maneira irreversível. É chocante que ninguém,
da profissão psicanalítica, tenha vindo a público
lembrar que o estalo que inaugura a psicanálise se deu quando
Freud descobriu que crianças são perversos polimorfos,
isto é, têm fantasias sexuais. Longe de serem inocentes,
à maneira de Rousseau, elas fantasiam com sexo. Este é
um exemplo pelo negativo: se a profissão psicanalítica
tivesse uma preocupação sistemática em transmitir
à sociedade os resultados de suas pesquisas, males teriam
sido evitados.
2) O outro exemplo é positivo:
estudos têm sido feitos sobre a formação dos
profissionais que vão para a magistratura, o Ministério
Público, as polícias, do ponto de vista de seu conhecimento
e endosso aos direitos humanos. As revelações de tais
pesquisas são, claro, decepcionantes, mas por isso mesmo
é de se esperar que contribuam para melhorar a formação
de tais operadores do direito e da segurança.
13
Por exemplo, a maior parte da contribuição da ciência
política à sociedade lê-se nas páginas
de opinião e nos cadernos de Brasil; o que a sociologia
tem a dizer muitas vezes aparece nos cadernos Cotidiano, Cidades
ou Geral; e o que a antropologia traz de pesquisas se vê
sobretudo nos suplementos culturais. Esta distinção
é significativa, e poderia ser aprofundada. Tentemos:
A ciência política
é vista sobretudo como a que permite entender o funcionamento
do Estado e, em especial, as opções do eleitorado.
A sociologia contribuiria para uma organização
melhor do social, mas de um social que é mais alvo de ações
da administração pública ou de ONGs beneméritas
do que compreendido em sua dimensão política (por
isso, não está no caderno Brasil). E finalmente as
contribuições da antropologia à compreensão
da sociedade não aparecem nem no plano das grandes opções
políticas nacionais (caderno Brasil), nem no da ação
sobre a sociedade (Cidades, Geral, Cotidiano), mas no de sua inovação
enquanto ciência social, que portanto encontra lugar nos suplementos
culturais. Dificilmente se pede a um antropólogo sua opinião
sobre a política brasileira. As duas outras ciências
sociais são valorizadas por seus efeitos práticos,
enquanto a antropologia o é em sua dimensão teórica.
Análise equivalente
poderia ser realizada no tocante a outras ciências e disciplinas.
Por exemplo, a psicanálise também aparece como disciplina,
nos cadernos culturais, e raramente como instrumento de conhecimento
do social e isso embora alguns psicanalistas venham, desde anos,
afiando sua leitura sobre o País. É raríssimo
ela surgir nas páginas de opinião. Já a filosofia
encontra lugar nestas últimas e também nos cadernos
culturais.
14
É curioso que esse termo haverá de despertar reações
tão opostas nos leitores deste texto. Parte deles, sobretudo
os ligados à administração de C&T e ao
mundo empresarial, vê no mercado um fator importante de solução
dos problemas tanto da área quanto do País. Outra
parte, porém, sobretudo em meio aos pesquisadores de humanas,
opõe-se à própria palavra.
15
Refiro-me à operação 4, no Planejamento Estratégico
promovido pelo presidente do CNPq, dr. José Galizia Tundisi.
16
Nas concessões mais recentes de estradas e de saneamento
básico, a idéia inicial do Estado que era obter
o máximo preço no leilão, mas sem se importar
com as tarifas que depois serão cobradas do usuário
está sendo substituída por outra, que é a
de cobrar pouco ou nada do concessionário, desde que este
repasse as economias assim geradas para o usuário final.
17
Depois de outras pesquisas, como com a cocaína, Freud percebe
que a dor psicológica está ligada à sexualidade
e, em especial, a traumas sofridos na infância. Vale-se da
hipnose, por exemplo, para despertar a lembrança causadora
da dor e, tratando-a, vencer a neurose. Contudo, em fins da década
de 1890 ele escreve a Fliess que não acredita mais que esses
traumas tenham de fato ocorrido. Terão sido fruto de fantasias
sexuais infantis. É a descoberta da sexualidade infantil.
Curiosamente, a opinião pública conserva da psicanálise
uma imagem justamente ligada ao que vem antes da psicanálise,
isto é, as idéias de trauma, de abuso sexual, de sexualidade
imposta.
18
Alguns lêem esse fenômeno como sendo o do fim da grande
teoria em ciências humanas. Teriam desaparecido as grandes
teorias, como a de Marx, a de Weber e outras, em favor de uma pulverização
da pesquisa em monografias, ou em micro-teorias. Discordo dessa
avaliação. Foucault teve justamente papel importante
na substituição da grande teoria pelo que ele chamou
de "microfísica" do poder e no entanto ele representa
talvez a última excelência de nível mundial
que tivemos em Humanas. O que interessa aqui discutir não
é a simpatia que tenhamos por leituras totalizantes ou microfísicas
da sociedade, mas sim a fecundidade que umas ou outras possam
despertar na pesquisa de ponta. (Como dizia Goethe, a marca da
verdade é ser ela fecunda). E inexiste, hoje, um centro
reconhecido de tal fecundidade, embora ela exista em inúmeras
pesquisas particulares.
19
Já participei de um congresso no qual os convidados estrangeiros
interagiam somente uns com os outros, comentando encontros futuros
e passados entre si, ao passo que os brasileiros multiplicavam as
deferências para com eles: imagino que assim se passassem
as coisas na África colonial.
20
Tanto quanto conheço, nada foi desenvolvido, até hoje,
a respeito. Daí que tenhamos boas chances de inovar mundialmente.
21
Tenho suscitado esta questão em congressos de psicanalistas.
A reação deles ao "coquetel da felicidade",
pelo menos supostamente masculina (Xenical, Prozac e Viagra) consiste
em negar que o objetivo da psicanálise seja tornar as pessoas
alegres ou, mesmo, felizes. O que está em jogo é a
questão do sujeito, isto é, dizendo-o em linguagem
leiga, como fazer que a pessoa enfeixe em suas mãos o seu
destino (em linguagem técnica, é reforçar o
ego como instância que administra o próprio ego, o
id, o superego e a realidade externa). Mas, de qualquer forma, pode
cair a demanda das terapias psicológicas, e quem sabe da
própria análise.
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