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a Campanha: O Manifesto No
dia 28 de abril, abri o site com um texto de programa um verdadeiro manifesto
que, antes, havia discutido com vários companheiros, de quem recebi sugestões,
em especial de Carlos Vogt, Aldo Malavasi e Regina Markus, bem como de Myriam
Krasilchik, que foi vice-reitora da USP, e de Renato Dagnino, que é professor
titular no departamento de Política Científica e Tecnológica
da Unicamp. Por
uma sbpc com maior atuação social Renato
Janine Ribeiro, Professor titular de Ética e Filosofia Política
na USP Candidato a Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência Dois
pontos básicos Aceitei
ser candidato a presidente da SBPC, nas eleições para o biênio
2003-05, porque acredito em dois pontos básicos. Primeiro: a ciência
e o conhecimento em geral têm um papel social que, num país com as
desigualdades que tem o Brasil, se torna decisivo. Isso quer dizer que não
podemos pesquisar sem levar em conta a responsabilidade social. Em condições
mais justas, numa sociedade sem miseráveis e sem problemas graves de sustentabilidade
ambiental, seria legítimo pensar só por pensar. No Brasil, mesmo
o criador mais desligado do mundo tem que dar, a este último, um pouco
de seu pensamento. Mas isso não significa que a ciência deva ser
atrelada à política, menos ainda à política partidária.
Se somos cientistas (no sentido mais abrangente do termo, incluindo as ciências
humanas e a própria filosofia), é nessa condição que
melhor podemos contribuir para o que quer que seja. Não podemos abrir mão,
em hipótese alguma, da qualidade da pesquisa. Nosso maior erro seria tornar
a ciência dependente da política. Por isso mesmo, a SBPC deve conservar
o perfil de uma sociedade formada antes de mais nada por cientistas, isto é,
por pesquisadores. Ela
é o braço político da ciência brasileira. Isso significa
que podemos nos filiar individualmente a sociedades científicas de outros
perfis, como de sociólogos, ou físicos, ou biólogos, mas
o momento em que a nossa voz é mais forte em face do governo ou da sociedade
é quando estamos unidos na SBPC. Falamos, então, não apenas
pela ciência, mas também pela presença da ciência na
sociedade. Por isso mesmo, devemos ampliar nossa Sociedade, em quantidade e qualidade
de sócios, bem como em sociedades científicas porque somos, e
só nós podemos ser, a representação política
da ciência brasileira, o interlocutor do Governo e da sociedade em Ciência
e Tecnologia. Ciência,
Educação, Cultura Na
SBPC, a ciência fala política. Não é política
partidária, porém, e sim as grandes questões nacionais. Nossa
Sociedade esteve presente em grandes momentos de nossa história, batalhando
pela democracia e também pela destituição de um presidente
acusado de corrupção. São cartuchos que não podem
ser gastos à toa, para não serem banalizados. Não devemos
apoiar governos, nem nos opor a eles, a não ser em situações
excepcionais. Mas é claro que não somos nem uma agremiação
de recorte partidário, nem um ambiente de discussões estritamente
técnicas. Acredito
que nosso papel esteja no difícil, porém necessário, encontro
do campo científico com o político. Uma das missões de nossa
Sociedade (a SBPC) é como assegurar a soberania de nossa sociedade (a brasileira),
isto é, a capacidade do povo brasileiro de decidir seu futuro, num mundo
em que as independências estão ameaçadas. Mas só podemos
garanti-la ou instaurá-la com base em nossa capacidade científica.
Para tanto, a SBPC deve ampliar sua voz. E isso significa que no aparelho
de Estado ela não dialogue só com o Ministério de Ciência
e Tecnologia. Sim, é fundamental ela defender a ciência no seu fórum
mais específico. Mas ela também tem muito a dizer no âmbito
da educação, e não só da superior, e no da cultura.
Se eu for eleito, fortaleceremos nos próximos anos a interlocução
com esses ministérios da Educação e da Cultura e o que
eles representam. Isso não pode ser feito de um dia para o outro. O diálogo
tem que ser permanente e não pontual e ocasional. Para isso, formaremos
grupos que possam manter essa interlocução de maneira rica, sempre
com a presença de membros do Conselho e da Diretoria da SBPC. A
percepção social da importância das ciências Provenho
da área que é chamada de Ciências Humanas ou de Humanidades.
Sem nenhum espírito bairrista, penso que é hora de integrar mais
a nossa área no centro de decisões da SBPC. Tenho a meu favor a
experiência como pesquisador de Humanas, autor de vários livros de
filosofia política e, recentemente, de uma obra que procura fazer dialogarem
a filosofia e a sociedade brasileira. Como além disso montei o projeto
de um curso experimental para a USP (o de Humanidades, inspirado no de Ciências
Moleculares) e fui diretor de entidades científicas (a própria SBPC
e, antes dela, a ANPOF), bem como membro do Conselho Deliberativo do CNPq, sinto-me
à vontade para notar alguns pontos importantes, que valem para todas as
ciências. As Ciências Humanas aparecem socialmente com menor importância
do que de fato têm. Gosto de perguntar às pessoas quanto, do que
levam sobre o corpo, vem da pesquisa científica mais recente. É
quase tudo! É difícil eu vestir uma roupa, calçar um sapato,
sem ter neles uma tecnologia nova. A maior parte das pessoas não sabe exatamente
quanto vestem de ciência, mas é admirável. Fazer que toda
a sociedade tenha consciência disso é fundamental: é o que
legitima aos olhos da população a ciência. Mas isso é
mais claro no caso das Ciências Exatas e Biológicas. A opinião
pública não tem tanta noção da importância delas
quanto deveria ter, mas já tem alguma. Devemos
aumentar esta percepção social da importância das ciências
em geral, de todas as ciências! Penso, com freqüência, no que
é a conversa em sociedade, a conversa entre pessoas que não se conhecem
mas se encontram numa fila de ônibus ou no check-in de um aeroporto, numa
sala de espera de médico ou numa festa. Quais assuntos espontaneamente
nascem entre elas? A conversa assim descompromissada, "social", está
pautada pela televisão, pelos cadernos de fofocas, por pouco mais que isso.
Gostaria que conquistássemos uma fatia dessas conversas. Gostaria que na
consciência das pessoas comuns de nosso povo dos cidadãos em geral
uma parte pelo menos do que pensam tivesse a ver com a importância da
ciência para suas vidas. Embora eu até ache engraçada a imagem
do cientista como inventor e nada tenha contra o professor Pardal, penso que devemos
mostrar melhor o que fazemos, para que fazemos, para quem fazemos. Aumentar
o diálogo com a sociedade Estamos
num momento da História do mundo no qual cada corporação
que é paga pelo Estado precisa prestar contas do que faz. É justo
que assim seja. Mas isso nos coloca diante de necessidades que nunca tivemos em
escala tão grande. Desde que existimos, vimos a ciência ameaçada
muitas vezes por cortes de verbas públicas. Lutamos seguidas vezes para
defendê-la de iniciativas perigosas por parte do Poder Executivo. Tivemos
êxito, não tanto quanto gostaríamos, mas tivemos. Evitamos
o pior. Enquanto um governo quase extinguia o cinema brasileiro, no começo
dos anos 90, nós conseguíamos sobreviver e, depois disso, voltar
a crescer. Diretorias passadas da SBPC cumpriram o seu dever, defendendo a ciência
brasileira junto ao governo federal e, no caso das FAPs, diante dos estaduais,
como o do Maranhão, que extinguiu e depois acabou recriando sua Fundação
de Amparo à Pesquisa. Mas
nosso diálogo deve ser cada vez mais com a sociedade mais do que com
o Executivo. Precisamos desestatizar a nossa fala. Não vamos parar
de conversar com os ministérios e as agências de fomento. São
o nosso alvo primeiro e mais próximo. Mas precisamos ampliar o foco. A
diretoria atual fez bem ao escolher um representante da SBPC junto ao Congresso
Nacional. Não basta o Executivo, é preciso o Legislativo. E há
vários anos que agimos nos Estados, em especial lutando pelas Fundações
de Amparo à Pesquisa. Só que precisamos ir, mais, para a sociedade.
A grande batalha dos próximos anos é a da opinião pública
e social. E, aí, o que entra em jogo não são tanto os números,
nem as quantidades, mas a compreensão de que a ciência tem um papel
decisivo na melhora da vida dos nossos cidadãos. Nos Estados Unidos, um
cidadão de 45 anos está processando as redes de fast food porque
comeu nelas a vida toda, e só agora descobriu que esse tipo de comida faz
mal. Nunca foi avisado disso, alega. Ele está sendo ridicularizado, mas
tem uma certa razão. A propaganda do fast food devia ser como a
de cigarros ou de álcool, com advertências quanto aos perigos para
a saúde. Mas
não é esse o nosso ponto. Podemos, e devemos, como cientistas, transmitir
às pessoas o que sabemos. Por que não criar duzentas vinhetas curtas,
de meio minuto, pela TV e pelo rádio, nas quais cientistas e pesquisadores
da Medicina diriam ao público em geral o que a ciência descobriu
que é bom para a sua saúde? Tenho certeza de que seria um sucesso
de audiência. Não falo apenas de divulgação da ciência.
A questão é fazer que ela chegue não só a nossos públicos
mais próximos, como os jovens letrados, que podem ler Ciência
Hoje ou Ciência e Cultura (duas notáveis realizações
nossas) ou Galileu ou Super Interessante revistas estas que surgiram
e conseguiram sucesso somente porque, antes delas, a SBPC entrou nesse gênero
literário e o converteu num público e num mercado. Devemos
ir mais longe e captar o público em geral. E isso por duas razões.
Primeira, é justo que prestemos contas. Acreditamos mesmo que a ciência
pode melhorar a vida das pessoas! Estou convencido de que esta é a principal
razão pela qual a maior parte de nós escolhe o caminho da pesquisa.
E a segunda razão é nosso interesse. Numa configuração
mais democrática do mundo, se não entrarmos na pauta dos assuntos
que as pessoas conversam, estaremos enfraquecidos. Escrevi
na revista Bravo, de março, que a política pública
para a cultura não pode ficar só nas mãos dos artistas.
Ou ela é assunto de interesse geral, e os cidadãos descobrem que
precisam de arte para viver, ou sempre ficará como um resto, como um ministério
que tem fatia pequena e quase imperceptível do orçamento. A situação
da ciência é melhor, mas não muito. Temos mais recursos que
a cultura, no Orçamento da União. Construímos um esquema
eficaz de representação, através das sociedades científicas
e da SBPC, chegando até o Conselho do CNPq e os órgãos colegiados
de outras agências de fomento um esquema que não tem igual na área
de cultura. Mas precisamos, também, que a opinião pública
nos respalde. Só ela legitimará nossos pleitos. E para isso a melhor
via é mostrar a necessidade, a utilidade do que fazemos. Talvez o que me
dê tanta convicção desta premência seja eu vir da área
de Ciências Humanas. A disposição social é menos favorável
a elas do que às Exatas e Biológicas. Isso acaba levando os próprios
pesquisadores da área a se mostrarem receosos, toda vez que lhes perguntam
o que fazem para e pela sociedade. Sentem-se cobrados para realizar uma aplicação
técnica ou tecnológica que não é a sua missão
social. E
no entanto poderíamos fazer uma pergunta parecida à que formulei
acima: quanto, do que você tem em sua cabeça, vem da pesquisa científica
em Humanas? Não é pouca coisa! Vejamos a democracia no Brasil. Sem
os cursos e as pesquisas das Ciências Sociais e Humanas em geral, teríamos
construído uma consciência democrática como esta, que avança
cada vez mais? É claro que podemos explicar o fim da ditadura, o impeachment
de Collor, o crescimento dos movimentos sociais como resultando de lutas sociais.
Mas lutas não são apenas o exercício de alguma força.
Ninguém luta só com a força que se exprime nos braços
e pela garganta. O discurso democrático é o que dá forma
e orientação a isso tudo. Não é um discurso pronto,
não vem dos cientistas para a sociedade e tem muito a aprender com ela
mas, que ele contribuiu e contribui para a democracia e a liberdade, é
fato. Contudo, temos menos consciência e menos orgulho dessa contribuição
do que deveríamos. Daí que as Ciências Humanas (e quando uso
este termo penso também nas Humanidades, incluindo o estudo das Artes e
da Literatura, bem como a Filosofia) não devam ficar na defensiva. Muitas
vezes nos sentimos ameaçados por critérios que não são
os nossos por exemplo, pela ênfase dos gestores de ciência e tecnologia
na questão da aplicação tecnológica. Ora, não
geramos patentes, mas trabalhamos com um hardware e softwares preciosos, que são
o pensamento humano. Geramos poucos produtos (alguns, sim: pesquisas de campo
nas ciências sociais, por exemplo), mas ajudamos a construir um público,
com valores como os da cidadania, da ética, da participação,
da democracia, dos valores republicanos. Os produtos que geramos podem ser colocados
no mercado e devemos fazê-lo. Mas nossos principais resultados estão
na formação de um público. Lidamos com o modo como uma sociedade
se pensa a si mesma, e assim se capacita a pensar as coisas, o mundo, e a melhorar
a realidade. Quando
amigos franceses (isto é, do país que inventou a figura que conhecemos
do "intelectual") me dizem que no Brasil o professor universitário
escreve mais na imprensa cotidiana do que na França, vê-se como é
forte aqui a transmissão de conhecimentos gerados na academia para a sociedade.
Já fazemos isso. Podemos e devemos ter consciência disso para fazer
isso mais e melhor. Mas não precisamos nos defender quando alguém
nos cobra aquilo que já fazemos. Cooperação
entre as ciências Nada
do que afirmei acima vai no espírito de uma contraposição
entre as Ciências Humanas e as Ciências Exatas e Biológicas
ao contrário, o que pretendo é uma melhor compreensão e
cooperação recíprocas. Quatro anos no Conselho do CNPq e
oito na SBPC, como membro de sua Diretoria ou de seu Conselho, me mostraram que
é enorme a proximidade entre nós todos, pesquisadores de todas as
áreas da Ciência. Assim como há equívocos das outras
áreas na percepção do que são as Humanidades, há
erros dos pesquisadores de Humanidades na compreensão do que são
as outras ciências. Dois exemplos. As Ciências Exatas e Biológicas
tendem a achar que as Ciências Humanas são pouco formalizadas. São,
mesmo. Elas usam pouco a linguagem matematizada. Mas
isso não quer dizer superficialidade. Quer dizer que elas trabalham com
a mesma linguagem do dia-a-dia, só que (e esse só que faz
toda a diferença) convertida em rigor. Inversamente, muitos estudiosos
das Ciências Humanas acham que o trabalho das outras ciências não
envolve a imaginação e a criatividade, sendo mecânico. Envolve,
sim. O pesquisador, de qualquer área "dura", é quase um
artista. Muitos também pensam que a pesquisa em Exatas e Biológicas
está diretamente ligada a uma aplicação prática. Ledo
engano. Ela pode, sim, resultar em patentes e em tecnologia e é bom que
assim seja. Mas a defesa da ciência básica, da pesquisa pura, de
sua autonomia em face dos interesses do dinheiro e do mercado, é igualmente
forte em todas as ciências. O ponto, então, é o seguinte.
Tivemos uma atuação admirável em face do poder público,
melhor dizendo, do Executivo Federal. Devemos dar-lhe continuidade. Iniciamos,
contra ventos e marés, uma atuação articulada com o mundo
das empresas. Também precisamos desenvolver essa cooperação,
que permite a toda uma gama de pesquisas se converter em produtos que estejam
ao alcance das pessoas em geral. Mas é preciso escancarar uma terceira
frente. Essa é a da sociedade em geral, em seu sentido mais amplo, que
inclui a opinião pública. Já estamos jogando este jogo. Já
temos o jornalismo científico. Temos a mídia da SBPC. Há
toda uma mídia externa que nos quer ouvir. Mas isso pode e deve crescer,
exponencialmente. Esse é o jogo político amplamente democrático
em que devemos apostar cada vez mais. E é este o jogo que nos permitirá
maior eficácia naqueles outros em que já estamos em campo. Responsabilidade
social Com
estas palavras, o que procuro é mostrar que entre a responsabilidade social
e a qualidade da pesquisa não pode haver contradição. Devemos
acentuar o primeiro ponto. Foi votada no governo passado uma lei de responsabilidade
fiscal, que em termos gerais eu aprovo mas na ocasião escrevi que faltava
uma lei de responsabilidade social. Um
governante eleito pode sair de seu cargo com a mortalidade infantil mais alta,
com os indicadores sociais piorados, e isso tudo sem problemas. Está errado.
Um campo em que esta questão pode ser pensada são por exemplo
os programas dos cursos de graduação nas universidades brasileiras,
para que os alunos tenham maior noção de sua responsabilidade perante
a sociedade que os criou. Se eles estudam numa universidade, sobretudo nas públicas,
é porque seu curso está sendo pago pela sociedade. Por isso mesmo,
não podem sair da universidade tratando seu diploma como patrimônio
pessoal, como propriedade privada. Devem alguma coisa à sociedade, sobretudo
aos setores que, como sabemos, com maior sacrifício os financiam. E isso
precisa estar mais presente em sua formação. Um acadêmico
de Medicina deve pelo menos se perguntar se a especialidade que escolheu traz
alguma coisa para a sociedade; deve se perguntar que valores há na vida,
além do sucesso financeiro, pessoal ou mesmo profissional; deve se indagar
sobre o modo de tratar respeitosamente seus pacientes; deve examinar como prevenir
as doenças, antes de precisar tratá-las. Tudo isso já se
faz, sim, mas devemos acentuar essa formação ética
e cidadã dos alunos. E não só dos de Medicina até
dos de Filosofia. Corremos
o risco de ser técnicos demais e de deixar de lado as perguntas para
quê, para quem. O aluno, depois disso, pode fazer a escolha que
quiser, mas pelo menos devemos evitar que ele saia da universidade sem nunca ter
sido exposto a questões assim candentes e, por vezes, duras. Hoje, se ele
decidir simplesmente ganhar dinheiro, ficará com a consciência tranqüila
e, tranqüilamente e com razão, poderá dizer que nós
professores nada fizemos para que não fosse assim. É isso, só
isso, o que devemos impedir. Nossa sociedade tem percorrido um caminho de injustiça
quase suicida e, enquanto não priorizarmos a solução de seus
problemas sociais, ela não melhorará. Quanto à qualidade
da pesquisa, ela é nossa galinha dos ovos de ouro. Entender a qualidade
em pesquisa como fazem os países líderes em Ciência, como
um conceito construído com base nos sinais de relevância emitidos
pelo conjunto da sociedade, não quer dizer cobrar dela resultados imediatos.
Mas, mesmo que uma pesquisa ou outra fracasse, o conjunto das pesquisas traz resultados
bastante importantes e positivos. A qualidade, além disso, tem um sentido
ético. Significa que em nossa área certos valores devem prevalecer.
Venho de uma disciplina que tem, no nome, a amizade. Filosofia é amizade
do saber. O filósofo não era um sábio, era um amigo do saber.
É essa amizade do saber, esse amor pela verdade que devem constituir nosso
norte ético. Evitar
o stress da SBPC Há
um ponto mais interna corporis da nossa Sociedade que acho importante assinalar.
A Sociedade finalmente conseguiu equilibrar suas contas. Foram necessários
vários anos para trazer resultados administrativos que nos dêem fôlego
e nos capacitem a defender a ciência brasileira sem estarmos estressados
com as dívidas da SBPC, inclusive fiscais. Considero
importante manter essa conquista. Uma administração boa é
imprescindível. É uma questão interna, como eu disse, que
não basta para termos uma SBPC forte e politicamente responsável
mas que ajuda muito nesta direção. Finalmente São
estes os pontos que me levam a propor uma SBPC atuante, com maior interlocução
social. Sabemos todos é mais que notório que o avanço
das sociedades científicas reduziu o lugar da SBPC como fórum de
"alta ciência", e que a democratização do país
diminuiu o seu papel como voz da sociedade. Consideramos também que é
muito boa essa proliferação de vozes. Só lamentamos que com
isso o ponto de encontro entre a inteligência e a política, entre
a ciência e a democracia, que as reuniões anuais dos anos 70 e 80
proporcionaram, se tenha esvaziado. Não adianta querer reconstruir o tempo
passado. Mas é possível ampliar nossa voz. Isto se fará,
como se expôs acima, construindo uma interlocução constante
não só com a ciência e a tecnologia, mas também com
a educação e a cultura, e sobretudo com a sociedade. Precisamos,
os cientistas de todas as áreas, nos perguntar mais o que queremos dizer
à sociedade. Não podemos ficar à espera de que a mídia
e o Governo nos procurem e nos perguntem. Temos que nos indagar o que queremos
dizer à sociedade, por meio dela. E podemos transformar as carências
e necessidades de nosso país, que nos envergonham, numa oportunidade: a
chance de que a ciência ocupe, na construção de uma sociedade
justa e sem miséria, democrática, um lugar mais amplo do que teve
em outros países ou do que desempenhou entre nós até hoje.
Isso implica, aliás, dar força às secretarias regionais,
bem como às iniciativas que procurem reduzir desigualdades no Brasil. E
devemos ser o grande foro de discussão de ciência no Brasil. Estou
convencido de que a implementação da proposta que iremos construir
juntos na direção de uma maior interlocução social
é uma condição para o fortalecimento da nossa SBPC. Este
artigo, que foi minha plataforma, conheceu algumas diferentes versões.
Foi bastante resumido, para aparecer na Folha de S. Paulo, que abriu sua
página 3, já avançada a campanha, para que os três
candidatos à Presidência expusessem suas idéias (aliás,
cada um de nós foi convidado também a um almoço com o publisher
do jornal, sr. Octavio Frias, e alguns jornalistas da casa). Quando começou
a campanha pelo JCE, eu o dividi em quatro partes, e ainda cortei algumas passagens,
para que coubesse nas sessenta linhas diárias que cada um de nós
podia ter. Também saiu no Jornal da Ciência impresso. Mas
esta é a versão primeira, a que entrou no site, a mais completa. | | |