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Primeiro texto
redigido por Renato Janine na qualidade de Diretor de Avaliação
da Capes, como sua contribuição para o debate da
Reforma
Universitária.
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O
sentido democrático da avaliação
A avaliação
das pós-graduações promovida pela Capes é
provavelmente o processo avaliativo de grande envergadura que maior
tradição tem em nosso país, com particular
destaque no conjunto dos países do Terceiro Mundo e até
mesmo entre os desenvolvidos. A década de 1990 fez que outros
modos de avaliação crescessem em nossa sociedade,
desde o ambiente universitário até o dos serviços
prestados por empresas. Assim, quando falamos em avaliação,
estamos confrontando uma experiência histórica bem
sucedida, a da Capes, uma prática mais recente e mais contestada,
que é a da avaliação das graduações,
sobretudo através do conjunto de práticas conhecido
popularmente como o "Provão", e ainda as avaliações
atribuídas às agências reguladoras, num âmbito
que envolve mais propriamente atividades produtivas em regime de
concessão pública e com pouca ou nenhuma concorrência.
O que nos interessa aqui é, sobretudo, pensar o que a Capes
faz com razoável êxito, há trinta anos, e o
que a universidade começou a fazer há menos tempo
e com mais oposição.
Vivemos hoje uma
cultura da avaliação (e por isso mencionei as agências
reguladoras), mas é fato que ela está longe de fazer
a unanimidade. Se a avaliação da Capes é ela
mesma bem avaliada – e isso apesar de descontentamentos pontuais
e de oposições mais amplas –, a generalização
das avaliações nas universidades causou e ainda suscita
maiores críticas. Basicamente, uma grande crítica
consiste em dizer que assim se favorece o "produtivismo",
a maquiagem de estatísticas, o gasto de um tempo enorme preenchendo-se
fichas – em suma, assim se incentivaria mais a representação
da produção do que a própria produção,
porque um dado bem exposto vale mais do que a realidade que ele
supostamente descreve.
Mas a principal dentre
as críticas afirma que a avaliação do ensino
de graduação, tal como foi predominantemente praticada
nos últimos anos, em especial pelo governo passado, expressaria
um espírito empresarial, empenhado em maximizar a rentabilidade
do investimento em educação, perdendo assim de vista
a dimensão própria da educação num ethos
democrático. Ela deixaria de ser direito, para se tornar
mercadoria.
Pretendo discutir
aqui esta questão de um ponto de vista político, mas
não partidário. Tenho sustentado que os principais
valores da boa política, nos últimos cento e poucos
anos, são a democracia, a república, o socialismo
e o liberalismo. Esses valores não são harmônicos
– nem excludentes -, mas de algum modo toda política respeitosa
do ser humano inclui elementos provenientes dos quatro1.
Vou concentrar-me nos dois primeiros.
A república
não é mais, hoje em dia, o contrário da monarquia.
Os regimes monárquicos europeus, por exemplo, respeitam mais
o bem comum, a "coisa pública", do que muitos governos
supostamente republicanos. O que se opõe à república
é antes de mais nada a corrupção e o patrimonialismo,
ou seja, as práticas que efetuam uma apropriação
privada da coisa pública e, assim, negam o bem comum. Toda
política digna de seu nome hoje precisa ser, portanto, republicana:
isso requer que o espaço público, a res publica,
seja respeitado.
Mas isso significa
que a república exige muito dos cidadãos. A mais antiga
república que celebramos, a Romana, que floresceu entre o
século VI e o I a.C., proclamava a necessidade de sacrificar-se
o indivíduo ao bem comum. Os romanos eram educados com histórias
celebrando quem morria pela pátria. Esse ideal favorece uma
certa aristocracia, no sentido literal do termo: em grego, ariston
é o melhor, o excelente. Para que o bem comum seja promovido,
precisar-se-ia então de uma qualidade superior ética,
de uma excelência.
Já a democracia,
como "poder do povo", envolve outra idéia. A palavra
demos significava "povo", na Grécia antiga,
mas também designava a multidão dos pobres. Os pensadores
anti-democratas tinham medo desse povo que, diziam eles, se tomasse
o poder (isto é, se houvesse democracia), confiscaria os
bens dos ricos. Por isso, entre os gregos há a primeira democracia
importante da história – Atenas, no século V a.C.
– mas também há uma tradição anti-democrática,
que engloba pensadores do porte de Platão. Mas o importante
a salientar aqui é que, já na Grécia, está
claro que a democracia não é apenas uma forma de governo,
apenas um conjunto de instituições políticas:
é também uma articulação do desejo.
O povo deseja os bens que os ricos têm. O povo deseja ter
riquezas. O povo deseja ser rico. E é isso o que os ricos
receiam.
Vê-se assim
que há uma certa tensão entre a temática republicana
e a democrática. Na república, quer-se que os melhores
mandem, para o bem comum. E esse bem comum exige o sacrifício
dos desejos de quem manda. A república é o regime
da força de vontade, contendo os desejos. Já na democracia,
os desprovidos de direitos e de bens desejam acesso a esses direitos
e bens 2
- o que significa que as práticas democráticas realmente
existentes sejam, hoje, marcadas pela reivindicação
e pela exigência de pôr fim à desigualdade. E,
na sociedade de hoje, em que a desigualdade se torna visível
e os bens de conforto são constituídos como objetos
de desejo, os que não têm expressam claramente que
desejam ter (bens), desejam ser (cidadãos).
***
O que isso implica
para a avaliação? Avaliar é dar valor e, portanto,
estabelecer desigualdades e mesmo hierarquias. Neste sentido, toda
avaliação indica alguns aristoi, para usarmos
o plural de ariston, ou seja, os de maior qualidade. A aristocracia
é, etimologicamente, o regime no qual os melhores mandam.
Ora, é claro que numa sociedade democrática, como
a nossa em certa medida é e queremos que seja cada vez mais,
mostra-se completamente ilegítimo uma minoria mandar ou deter
o poder. Portanto, a avaliação, se ela deve destacar
os aristoi, os melhores, não pode nem deve conferir
a eles o poder, a cracia, sobre a sociedade.
O que legitima socialmente
a avaliação é o seguinte: selecionamos os melhores
pesquisadores e programas para, assim, gerar o melhor para a sociedade.
A avaliação, no caso da Capes, não constitui
um fim em si, mas é um meio que permite formular políticas
que permitam atender a objetivos que são da sociedade como
um todo. Num regime democrático, esses objetivos se definem
mediante eleições e se decantam pelo permanente debate
público. Isso quer dizer que escolhemos os mais qualificados,
no tocante aos meios, para atender a fins que são decididos
pela maioria, no debate social e político.
Não podemos
confundir os dois planos. Os fins ou valores que empenham o Brasil
devem ser deliberados democraticamente. Isso significa que a maioria
decida, dentro dos parâmetros que envolvem o respeito aos
direitos de todos. Mas os meios para chegar a esses fins precisam
ser os mais eficientes e adequados que for possível.
Esse é o papel
que cabe à avaliação, nas Universidades. A
Capes tem uma longa experiência de avaliação
e dá sua contribuição para que a pós-graduação
melhore no Brasil. Os princípios da avaliação
foram, nos últimos anos, estendidos a outros setores do mundo
universitário. A única filosofia que a legitima, porém,
é a que expusemos acima. A avaliação não
pode gerar privilégios que vão além do estritamente
necessário para ela definir os melhores meios para fins que
são decididos não pelos avaliadores, mas pela sociedade.
Isso traz outras implicações, ainda.
A primeira é
que a avaliação sempre tem que estar ligada a uma
estratégia, ou pelo menos permitir a adoção
de diferentes estratégias. O correto é que ela reúna
os elementos que propiciem uma decisão política em
conhecimento de causa – isto é, que a avaliação
não se dê de forma tão fechada que conduza a
justificar uma única decisão, em detrimento da fundamental
liberdade democrática de deixar abertas diferentes opções.
Esse tem sido um problema nos últimos anos, já que
se tendeu a impor um único formato de decisões à
economia e, por conseguinte, também à educação,
à cultura e a todas as áreas.
A segunda é
que, por isso mesmo, a avaliação – sendo além
do mais custosa – não pode constituir um fim em si mesmo.
Não tem sentido apenas dar notas, nem mesmo dar notas somente
para delinear uma hierarquia de atribuição de recursos.
O objetivo sempre deve ir adiante disso. Por exemplo, no caso da
avaliação dos cursos, a meta tem de ser: como fazer
que os grupos de pesquisadores e de formação de mestres
e doutores socializem o melhor possível tanto o conhecimento
quanto a transmissão do mesmo? O que se espera da sociologia,
da filosofia, das engenharias? Essas escolhas se dão em algum
momento. Elas devem respeitar a liberdade de pesquisa e docência,
a diferença de perspectivas, mas em algum plano são
políticas.
Ainda, é preciso
levar em conta que a avaliação, embora permita o melhor
uso de geralmente escassos recursos públicos, não
deve ser entendida simplesmente como uma maneira de repartir a pobreza.
Não se justifica que, com base nela, despesas necessárias
– que vão desde a limpeza dos banheiros até a contratação
de novos professores – deixem de ser contraídas. A avaliação
é um modo de projetar o futuro, não de justificar
a distribuição da escassez. Infelizmente, ela foi
utilizada várias vezes para isso. Prioridades políticas
equivocadas ou mesmo reais dificuldades orçamentárias
acabaram fazendo que certas áreas carecessem e ainda careçam
do essencial, em especial no ensino de graduação.
Isso, porém, não pode ser confundido com a avaliação.
O objetivo desta não é liquidar setores do pensamento,
mesmo que a pretexto de estarem mal avaliados – mas é melhorar
o sistema, seja este de ensino, pesquisa ou extensão, como
um todo.
***
A documentação
apresentada pelas entidades sobre a avaliação é
bastante convergente. Manifestaram-se apenas a Andes, com um documento
mais longo mas que nas suas críticas ao governo aparenta
ter sido escrito antes da posse do atual Presidente, a Fasubra,
o Concefet, a UNE, o CRUB e a Abruem, única a defender uma
avaliação com responsabilização e externa.
Suas posições convergem, pelo menos as das quatro
primeiras entidades. Propõem uma avaliação
que seja institucional e não pessoal; propugnam uma avaliação
interna, associada à autonomia das universidades públicas
(as privadas, por explorarem atividade que é caracterizada
nos documentos como sendo concessão pública, seriam
mais controladas do que as IES públicas), e uma externa,
envolvendo a comunidade; fazem a avaliação depender
de projetos acadêmicos e institucionais elaborados pelas universidades,
aparentemente em condições de grande ou mesmo plena
autonomia, ainda que pautadas por uma agenda de democratização
da universidade em termos de acesso, gestão e papel; repudiam
sanções e punições, entendendo a avaliação
como aprimoramento (a Fasubra diz que os profissionais do ensino
devem ser remanejados, se for o caso, para funções
que se casem melhor com suas capacidades; nas propostas há
a explícita ou implícita negação de
demissões e quaisquer outras sanções, ainda
que em caso de desempenho manifestamente negativo).
Para alimentar o
debate, opino que:
1) as reivindicações
das entidades são bastante corretas, no seu eixo principal,
ao negarem que a avaliação deva servir para administrar
a miséria. O mesmo espírito, aliás, se manifesta
na importante "Proposta para a revitalização
da rede pública das universidades brasileiras", coordenada
por Marilena Chauí e Sergio Cardoso3.
Sem atacar a avaliação, a convicção
que anima esse texto é que os recursos de que a universidade
pública necessita para sua sobrevivência e bom desempenho
não podem estar subordinados a indicadores que são
bons – aqui, acrescento eu – para distribuir o a-mais, o adicional,
não para cortar na carne e mesmo no osso. Este é um
ponto com o qual podemos todos concordar, embora deva ficar claro
que requer aportes substanciais de verbas para o orçamento
das universidades, o que nem a "Proposta" nem os documentos
das entidades mostram de onde virão;
2) contudo, é
duvidoso que uma avaliação surta efeito se não
responsabilizar o avaliado, o que implica, em primeiro lugar,
algum nível de sanções (que não
é o caso de chamar "castigo", porque o seu pressuposto
é justamente a responsabilidade do agente e, portanto, sua
capacidade de arcar com as conseqüências de seus atos
ou de sua inação4),
e, portanto, em segundo lugar, algum nível de individualização
do que ele fez ou deixou de fazer;
3) além disso,
uma agência como a Capes tem forte experiência de avaliação,
e uma das lições que se extrai de trinta anos de prática
é que essa atividade deve se desenvolver de algum modo externamente
aos avaliados, para lhe garantir uma certa objetividade.
O problema nos documentos
é, talvez, eles radicalizarem numa direção,
para compensar um radicalismo do governo passado – ou seja, dado
que a avaliação acabou servindo para evitar que os
programas mais bem avaliados sofressem os efeitos mais danosos da
escassez de verbas para a educação, confundiu-se a
avaliação com uma repartição entre miséria
e não-miséria. Recursos necessários para salas
de aula de graduação, para contratação
de professores, até mesmo para a limpeza de prédios
não podem depender da avaliação – a não
ser, claro, em casos extremos, quando um departamento, por exemplo,
se mostre irrecuperável.
Tentemos, antes de
concluir, desagregar um pouco a questão da avaliação.
Ela se faz bem no tocante à pesquisa; Capes, CNPq
e as FAPs conseguem distinguir bastante bem a pesquisa melhor e
a pior. Quanto ao ensino de pós-graduação,
objeto principal de avaliação da Capes, a análise
também é bem conduzida. Os problemas se referem ao
ensino de graduação, para o qual os instrumentos
ainda são bastante insuficientes, malgrado os avanços
introduzidos com o ENEM e agora com o SINAES. A própria dimensão
enorme da graduação já dificulta a avaliação.
E, finalmente, também é difícil avaliar a extensão.
O que podemos sugerir é que a extensão não
seja vista desagregada do restante, isto é, que em vez de
assumir o perfil de uma série de cursos de difusão
ou divulgação ela seja pensada, de maneira mais sistemática,
como a forma pela qual (1) a universidade fixa agendas de transferência
de seu conhecimento qualificado para as práticas sociais,
(2) e em especial como o modo pelo qual ela ajuda a qualificar melhor
o pessoal docente dos níveis anteriores ao universitário.
Resumindo, a avaliação
deve sempre ser entendida como uma ponte para o futuro, não
como uma ferramenta punitiva ou como mera descrição.
Ela deve levar em conta os compromissos da Universidade como um
todo, salientando a importância da pesquisa na medida
em que esta fecunda o conjunto das atividades acadêmicas,
inclusive as de extensão, e também deve permitir
identificar responsabilidades, chegando até mesmo ao nível
individual. Ela não deve ter um sentido punitivo em seu cerne,
mas deve trazer resultados que se expressem em termos de incentivos
e de advertências, cuja natureza depende do caso. Ela
não visa ao lucro, mas seu sentido democrático é
o de abrir a Universidade à sociedade como um todo, mostrando
o que ela faz e em que medida ela contribui, pela sua qualificação,
para a "res publica".
NOTAS
1
Em contrapartida, a má política tem como principais
produtos o totalitarismo e o preconceito.
2
Para desenvolvimento deste tema, ver meus livros A República
(Publifolha: 2001) e A Democracia (Publifolha: 2001),
bem como meus artigos "Democracia versus república:
a questão do desejo nas lutas sociais" (Pensar a
República, UFGM: 2000, disponível em http://www.renatojanine.pro.br/FiloPol/versus.html)
e "Democracia petista, republicanismo tucano" (Cadernos
de nosso tempo, Ministério da Cultura, n. 5, 2002, disponível
em http://www.renatojanine.pro.br/Brasil/democraciapetista.html.
3
In revista Teoria e debate, n. 57, março/abril 2004,
p. 20-27
4
O termo "castigo" tem algo de paternalista, implicando
que o agente é infantil e precisa ser disciplinado de cima
para baixo. A idéia de "responsabilidade" é
a recusa do paternalismo, porque assume que o agente responde por
seus atos.
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