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| | O Síntese
de três artigos publicados na Argentina
| | O
Brasil hoje Tratemos
do Brasil em três momentos. Começarei falando das eleições
que levaram Lula à Presidência da República, passarei depois
aos estilos dele e de Fernando Henrique no exercício do poder, para terminar
com um pouco de conjuntura. I As
eleições no Brasil marcaram uma mudança significativa na
relação entre os dois melhores partidos brasileiros, que são
o Partido dos Trabalhadores (PT), que finalmente alcançou a presidência,
e o Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), que a ocupou de 1995 a 2002.
É bom lembrar que após o impeachment de Fernando Collor,
em 1992, muitos simpatizantes e mesmo membros dos dois partidos quiseram uma aliança
entre eles. Por que ela não foi feita, isso pertence em parte à
petite histoire1,
mas o fato é que, de 1994 em diante, a distância entre os dois
partidos aumentou muito. Antes,
ambos pertenciam ao arco mais de esquerda das forças anti-ditatoriais2.
Mas a aliança do PSDB com o Partido da Frente Liberal (PFL), composto pelos
que apoiaram a ditadura até um ano antes de seu fim, bem como a adoção
de uma política econômica vista por muitos como neoliberal, tornou
difíceis as relações entre PT e PSDB. Mesmo assim, o país
se beneficiou de ter, estes anos, como cabeças de chapa dos dois lados
da política, gente dos melhores partidos, os menos fisiológicos,
os mais ideológicos, se podemos usar esse termo no sentido positivo 3.
Costumo
dizer que a boa política de nossos tempos, a que o século XX legou
aos tempos presentes, se dá em torno de quatro linhas-mestras, que são
os temas da república, da democracia, do socialismo e do liberalismo. Esses
ideais são divergentes e às vezes (é o caso dos dois últimos)
até mesmo antagônicos, mas não importa: toda boa política,
hoje, tem de dosar de algum modo os quatro. (Inversamente, a má política
de nossos tempos tem por principais tópicos o totalitarismo e o racismo).
Por
democracia4,
devemos entender a idéia grega de que o poder é do povo. Mas entre
os gregos, tanto os defensores quanto os detratores da democracia compreendiam
por povo hoi polloi, a multidão, isto é, os pobres; e por
isso os inimigos da democracia viam nela o perigo de que os sem-tudo invejassem
os mais ricos. Essa dimensão da democracia – seu apelo à massa que
deseja ter, e ser, mais do que tem e é – foi ignorada no Ocidente quando
se ressuscitou esse regime, no século XVIII, cuidadosamente privado do
alcance social que tinha já entre os gregos. Mas, se considerarmos cada
regime, não tanto em suas instituições, mas no modo como
ele conquista apoio e adesão do povo (isto é, o se vemos não
de cima para baixo, mas de baixo para cima), a democracia atrai na medida em que
aposta no que hoje podemos chamar a afirmação de si, o desejo de
ter e ser. Por isso, a democracia é um regime do desejo, da cidadania como
desejo. Já
por república, devemos entender a idéia romana de dar destaque ao
bem comum, sobre os interesses privados. A defesa da coisa pública prevalece
também sobre os desejos: é um regime da contenção,
da força de vontade. E por isso, se toda política decente hoje é
republicana e democrática, há tensão entre suas duas
identidades, porque a massa só a apóia se ela lhe satisfizer desejos
– e ela só funciona e subsiste se o espírito da coisa pública
levar a uma certa renúncia aos desejos e interesses. Daí, certas
dificuldades da política numa época em que, pelo menos no Ocidente,
a renúncia ao desejo parece algo que não se pode pedir ao povo.
Contrastem o sacrifício de suas vidas que os terroristas de 11 de setembro
fizeram, com a mobilização proposta por Bush dias depois: ele não
só apelava a soldados que não são mais conscritos, porém
profissionais (o recrutamento universal está desaparecendo no Ocidente),
como pedia à população como um todo, pela primeira vez na
história do mundo em tempo de guerra, não que poupasse, mas que
consumisse. O consumo é um dos melhores sinais do desejo de ter. Sustento
que o PT expressa, na política brasileira, a vertente democrática,
e o PSDB, a republicana. Nessa diferença se dá o seu conflito. O
apelo do PT a seus simpatizantes, o que o levou a ser o partido mais votado do
Brasil nas eleições de 2002, provém de legitimar seu anseio
por igualdade – o que em termos práticos quer dizer que a enorme massa
de sem-terra, sem-teto, sem-emprego vê nele as chances de ter mais
bens, e de ser mais respeitada. O problema, aqui, é que numa sociedade
complexa como a moderna não existe mais um demos único, um
povo como aquele com quem sonharam os românticos e os marxistas, mas uma
série de pequenos demoi, de sub-povos. Cada um deles – sem-terra,
feministas, gays, desempregados, funcionários públicos, comunidade
acadêmica – mobiliza-se com uma intensidade e mesmo organicidade comparáveis
às do antigo demos grego, mas o problema é que cada um deles
é uma parte, e nem mesmo sua soma faz algo que possamos chamar o povo.
Já
o discurso do PSDB, nos anos em que esteve no governo, foi o da governabilidade.
Certo dia, quando o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa a funcionários
que reclamavam uma reposição salarial, o presidente Fernando Henrique
teria dito: "Eles não pensam no Brasil". Essa preocupação
com o todo, com a res publica, marcou o discurso tucano. Levou-o, porém,
a dois problemas cruciais. O primeiro: ele passou a sistematicamente desqualificar
a prática democrática realmente existente, isto é, a dos
movimentos sociais, os sub-povos de que falei e entre os quais o PT navega como
peixe n’água. Uma clara ruptura se inscreveu assim entre o PSDB e os movimentos
que são realmente sociais e democráticos, os quais ele denunciou,
o tempo todo, como corporativistas. Não fez então o que podia e
devia ter feito, e que o PT se propôs a fazer, isto é, apostar na
mobilização popular e procurar melhorá-la: só tentou
acabar com ela, desde a greve de petroleiros que iniciou o governo FHC e que este
fez questão de quebrar. Segundo
problema tucano: na ausência de apoio dos movimentos sociais de perfil democrático,
a racionalidade que ele assumiu como discurso republicano foi a do capital. Os
mercados passaram a ser o sujeito mais respeitado nas preocupações
economicistas do governo. Só vale a pena notar que nos últimos meses,
quando a derrota nas eleições presidenciais parecia se consolidar,
até o presidente e o ministro da Fazenda começaram a criticar os
mercados, dizendo-o irracional. Antropomorfizaram-no, chamando-o de nervoso, mas
mesmo assim continuavam considerando legítimo acalmá-lo, ainda que
a alto custo para o país. O
que estou chamando de ponto de vista republicano, à diferença do
democrático, alguns ideólogos tucanos preferiram entender, ou subentender,
segundo uma linguagem hegeliana. O que denomino res publica seria, então,
o universal; já os movimentos sociais se condenariam à particularidade.
Se quiséssemos usar essa terminologia, o que diríamos é que
os tucanos acabaram chamando de universal também uma particularidade, até
menos legítima que a das corporações mobilizadas, que é
a do capital, em especial financeiro. E terá sido essa a causa de seu fracasso.
Ou seja, os temas republicanos ficaram mais no discurso do que na prática.
Enquanto o PT, do lado da oposição e em seus governos locais, de
modo geral apostou numa real prática democrática (mobilizando os
desejantes em torno de seus anseios), o PSDB, nos governos mais poderosos, não
chegou a resgatar a política e a sociedade brasileiras da hipoteca do capital
financeiro. É
essa diferença que explica o antagonismo de nossos melhores partidos. Muitos
de nós lastimamos, desde 1994, que eles ficassem em campos opostos – até
porque, se nas eleições federais o centro (o PSDB) se aliava com
a direita (o PFL que rompeu com a ditadura bem no final, mas também o PPB
– Partido Popular Brasileiro – dos ditatoriais não arrependidos), no segundo
turno das eleições estaduais e municipais houve muitas vezes a tendência
de se repetir o arco de alianças da época da ditadura, isto é,
a direita de um lado, o centro e a esquerda de outro5.
Na
eleição para a presidência, na qual o principal tema é
a economia, o centro e a direita se uniram desde 1994 em torno de uma agenda liberal,
ao passo que nas formas de sociabilidade mais imediatas, visíveis nos planos
estadual e municipal, demarcam-se nitidamente as convicções da direita,
por um lado, e do centro e da esquerda, por outro. Por isso mesmo, muitos acreditavam
que o ideal para a esquerda era ir comendo o mingau pelas bordas – isto é,
eleger mais e mais prefeitos e governadores de Estado, formando uma aliança
on the spot com o centro, treinando administradores e políticas
públicas, para então (em 2006) lançar-se à presidência,
partindo de um patamar mais consolidado. Não foi o que aconteceu. A estratégia
de Lula deu certo, unindo os descontentes por seus desejos. Aliás, a impressão
durante a campanha era que, para tanto, o PT sacrificara seus outros candidatos;
vimos que não foi isso o que aconteceu, porque ele terminou por formar
a maior bancada federal6,
por ser o único partido presente em todas as assembléias estaduais
e por concorrer com chances razoáveis a vários governos importantes
de Estado, embora só tenha vencido em unidades da Federação
bem menores. Após
as eleições, constatou-se que o grande desafio do PT seria totalizar
os desejos dos vários sub-povos em que se divide uma sociedade complexa.
(Foi a incapacidade do partido para conciliar os desejos dos trabalhadores dos
transportes coletivos e os da população que levou o PT a perder
a prefeitura de São Paulo para Maluf, em 1992, iniciando oito anos de péssima
gestão da direita na maior cidade brasileira). Precisaria – e precisou
– postergar a satisfação de desejos, forjando um discurso republicano
que, até então, foi a marca registrada mais do PSDB do que a sua.
Por
outro lado, a direita nostálgica da ditadura sofreu um rude golpe, com
a derrota de Maluf em S. Paulo, que nem chegou a ir para o segundo turno. Líderes
importantes da direita, como ele e o baiano Antonio Carlos Magalhães, desde
algum tempo já não têm dimensão nacional, mas apenas
estadual. A direita nem teve candidato à presidência, em 2002. E
tanto no Brasil quanto em seu Estado mais rico, para não dizer em outros,
a oposição relevante passou a ser entre PT e PSDB (no Rio Grande
do Sul e em Santa Catarina, o PMDB local está mais próximo da seriedade
tucana do que do condomínio de interesses regionais em que o grande partido
da resistência à ditadura se converteu no país afora). É
claro que isso tende a manter afastados nossos dois melhores partidos, mas por
outro lado fez e talvez continue fazendo que os dois lugares principais do espectro
político sejam ocupados por lideranças de melhor qualidade que as
outras. De passagem, cabe notar que em 2000 alguns comentadores incluíam
o PFL entre os partidos de real perfil ideológico e de forte presença
política. Nos dois últimos anos, uma sucessão de trapalhadas
levou, primeiro, seu cacique Antonio Carlos Magalhães a perder a influência
nacional e, depois, sua governadora do Maranhão, Roseana Sarney, a perder
a candidatura à presidência. Mas
estas circunstâncias provavelmente não foram causa, mas sintoma,
de estar o PFL, liderado por oligarquias regionais, perdendo o pé na política
brasileira. Esse
o horizonte, no final de 2002: muita expectativa positiva. "A esperança
venceu o medo", dizia a propaganda de Lula. II Mas
no centésimo dia do governo Lula, em inícios de abril, um leitor
escreveu para a Folha de S. Paulo: "O primeiro mandato de Fernando Henrique
Cardoso foi ruim, o segundo péssimo, e o terceiro [sic] está sendo
uma catástrofe". Tudo, nesta piada, é um enorme exagero – mas pode
soar plausível, dado que as diferenças entre o atual governo e o
anterior, embora sendo de partidos opostos, se mostraram menores do que se esperava.
Manteve-se uma política fiscal austera; aos funcionários públicos,
que mal tiveram aumentos nos últimos oito anos, enquanto o dólar
subia quatro vezes, deu-se apenas um por cento de reajuste; mandou-se ao Congresso
uma proposta de reforma da Previdência Social que penalizará os servidores
do Estado mais do que o PSDB jamais sonhou. Em suma, a agenda parece-se muito
com a de Fernando Henrique. O
contraste é chocante, com as expectativas que a eleição suscitou.
Pela primeira vez, o Brasil tem um presidente de esquerda, eleito em condições
incontestes e aceito pelas classes dominantes e o Império norte-americano.
Numa entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo, em novembro, depois
de responder às perguntas de praxe sobre a moeda, a inflação,
o déficit, Lula reagiu: E da miséria, vocês não falam
nada? A frase marcou uma nova agenda. Os fins sociais passariam a prevalecer sobre
a preocupação com os meios, em especial com o meio circulante, característica
da gestão Pedro Malan na Fazenda, ao longo dos oito anos do governo PSDB.
Por que então o descompasso entre a promessa e a realização? Todo
governante, especialmente num país com um déficit social do tamanho
do brasileiro, precisa legitimar não só o que faz, mas o que deixa
de fazer. Precisa explicar por que falhou no que prometeu. Lula e Fernando Henrique
tiveram de lidar, no poder, com um desconto nos seus ideais. A prática
ficou aquém do discurso. De Cardoso restou uma frase, que ele nega ter
pronunciado, que não teve testemunhas, mas que foi a única mancha,
nos seus anos de Presidência, a colar nele: o provavelmente apócrifo
"Esqueçam tudo o que escrevi". Já Lula, embora pessoalmente continue
popular, tem sido criticado por uma política econômica contrária
ao discurso do PT e pela demora numa política social de esquerda. Nesta
parte não discutirei o que cada um fez, deixou de fazer ou fará.
Analisarei os estilos pelos quais cada um lidou com a defasagem entre o
discurso e a prática, entre a promessa e a ação. Esse descompasso
não é o mesmo nos dois. FHC já tinha feito o luto dos ideais
de esquerda havia muito tempo. Isso não faz esquecer seus recuos em política
social: os cinco dedos da mão, que ele exibia em 1994 para prometer saúde,
educação, emprego, segurança e habitação, não
valeram. Já Lula se defronta com uma distância, não entre
seu passado e presente, mas entre uma fala e uma ação simultâneas.
Então, a questão é: como dar conta desse déficit da
caneta em face das palavras? No
começo de 2003, em férias, estive em Porto Alegre. Ouvi Lula no
Fórum Social Mundial, em 24 de janeiro. O começo do discurso me
soou enfadonho, coisa de político, frases curtas, enormes vazios entre
uma e outra. Não sei por que não vão direto ao assunto. Subestimam
os ouvintes, que só conseguiriam assimilar uma frase por minuto, uma palavra
a cada cinco segundos, idéias nunca. Mas,
vinte minutos passados, ele começou a falar do Fórum Econômico
Mundial de Davos. Notei que era o cerne de sua fala: justificar aos companheiros
de Porto Alegre por que ia meter-se na cova dos leões. Foi brilhante. Ele
é brilhante. Muitos dos presentes não o queriam em Davos. Parte
da imprensa jogava lenha na fogueira, forçando uma fratura entre a base
política do presidente e sua ação de governo. Mas ele não
fugiu do assunto. E
tratou dele contando histórias. Esta é uma forma eficaz de comunicar-se:
compartilhar a experiência com os ouvintes, colocar-se como um ser humano
narrando episódios a outros, mostrando como aprendeu com a vida. Lembrou
quando, numa greve do ABC, o presidente da Fiesp solicitou ao comandante do II
Exército que prendesse Lula e os líderes grevistas. Lula respondeu
pedindo uma audiência ao general Dilermando, que o recebeu por três
horas. E lembrou quando, pensando em criar o PT, amigos lhe diziam para não
se meter num jogo viciado, que era o dos partidos e das instituições.
Moral
da história: mesmo nós, que jogamos um jogo novo, podemos e devemos
usar os tabuleiros existentes. Aplausos. Porto Alegre aceitou, na ágora,
que Lula fosse a Davos. Mas isso não era o principal. O importante era
Davos ouvir que Lula não vinha ao Fórum Econômico furtivamente,
sem apoio de sua base – enfraquecido, pronto para o abate. Precisava saber que
Lula vinha com o endosso dos participantes do Fórum Social. O essencial
era Davos perceber que Lula vinha forte, e não fraco. Foi o que levou Le
Monde, dois dias depois, a chamá-lo de estadista. Esse
é um contraste com FHC. O ex-Presidente falava em ambientes fechados, com
celulares desligados. Lula falou a céu aberto, num ambiente de quermesse.
Mas o que conta é isso: para tratar do seu déficit, Lula buscou
e conseguiu mobilizar a massa. Falou em Davos com seu aval. Fernando Henrique,
em suas negociações, nunca mobilizou o povo atrás de si.
Voltemos
ao uso presidencial das narrativas. Recentemente, a Folha de S. Paulo elencou
várias metáforas utilizadas pelo Presidente, argumentando que –
ao assumir o papel de pai, nas histórias que conta – Lula estaria paternalizando
a sociedade brasileira. Ora, essa é a essência do autoritarismo:
o governante dizer-nos que nos ama mas que não sabemos o que é bom
para nós, o que só ele sabe. Mas essa análise é superficial.
Lula
não põe seus ouvintes no lugar de filhos, mas no de pais. Ele se
mostra pai, falando a pais e mães. Constrói uma empatia em que todos
têm o mesmo papel. É o contrário da análise citada.
Ele compartilha uma identidade. Fala-se muito no "Lulinha paz e amor" e em marketing
político. O que Lula está fazendo é bem mais que isso. É
uma comunhão, construída no plano afetivo, entre ele e os cidadãos.
Daí que se tenha esvaecido o preconceito contra sua suposta ignorância.
Poucos retomam hoje esse topos, que o destroçou durante vinte anos.
Pai e avô, ele reparte conosco sabedoria. Não tem doutorado (isto
é, não tem saber), mas tem sabedoria, ou seja, experiência
de vida. Esse modelo de comunicação funciona muito bem. Mais
uma diferença entre ele e FHC: cada vez que o ex-Presidente aceitava, por
realismo, um sacrifício a seus ideais ou promessas, ele citava a ética
da responsabilidade, de Max Weber. Penso que esse foi o tema mais constante de
seus discursos: o político, dizia, não pode considerar só
a ética dos princípios, dos valores, mas também as necessidades,
a responsabilidade. Ele teorizava, lecionava, explicava. Mas assim o déficit
da ação só se justificava aos ouvidos dos raros ouvintes
que reconhecessem seu saber teórico. Não
há dúvida de que FHC funcionou. Foi eleito e reeleito. Foi popular.
Sua obra de estadista – essa, inegável – foi a calma transição
para Lula. Mas há uma diferença de estilos. O déficit da
prática em relação à fala – que é o nosso tema
– foi sua ferida. Mesmo partidários seus o reconheceram e lamentaram. Foi
o passivo de seu governo. Lula busca fazer disso um ativo. Promete manter-se fiel
aos ideais de sempre, conta histórias, explica que a ação
vai demorar. Em
que consiste esse ativo? Ele parece estar num registro de comunicação
que prioriza o afeto e não a teoria. Sei que o assunto é minado.
A hostilidade à teoria é uma das grandes características
do fascismo. Mas não estou falando em hostilidade a ela e sim em outra
coisa. Uma das questões que mais me tem interessado é a do descompasso
entre a democracia, como registro da razão, e um campo dos afetos ainda
amplamente autoritário. Não é casual que os tucanos sejam
tão cientistas políticos, tão racionais – e que a direita
brasileira, de Maluf a Antônio Carlos Magalhães, aposte na afeição
autoritária. A
questão é, então: como fazer que os afetos deixem de ser
autoritários? Como torná-los democráticos? Porque, se a democracia
se sustentar no labor da razão, será fraca. Se precisarmos, para
respeitar o outro, refrear impulsos de violência o tempo todo, os direitos
humanos continuarão débeis. Precisamos substituir um registro autoritário
e reacionário dos afetos por outro, mais aberto ao outro e à diferença. Por
isso é interessante que um líder construa um discurso do afeto.
Com FHC, o Brasil apostou num Presidente bem aceito porque inteligente, professor,
cosmopolita – em suma, porque diferente da auto-imagem nacional. Com Lula, o País
tem um Presidente sem inglês nem diploma, ainda que escolado pela experiência.
Mas não é o encanador contra Sartre, como disse, infeliz, uma atriz
em 1994. É mais sabedoria que saber, mas não sabedoria contra saber.
É mais prática que teoria, mais experiência que dedução,
mas não uma contra outra. O único contra é o seguinte:
uma certa igualdade, entre o cidadão e o Presidente, substituiu a transcendência
do papel presidencial. Nada
disso é uma avaliação das políticas do Governo. Discordo
de sua política econômica, mas não é isso o que importa
nesta parte da análise. Quis tratar de uma questão fundamental:
nenhum político cumpre tudo o que disse. A globalização é
hoje o grande limite à independência nacional e, portanto, à
atuação dos líderes políticos. Mas como um governante
lida com a frustração que difunde por sua ação e inação,
por seus atos e não-atos? Esta é a questão. Cada vez mais,
na democracia, o modo de lidar com a frustração será decisivo.
Lula, sempre que aceita o déficit das ações, proclama-se
ainda fiel a seus ideais. Isso durará? Não sabemos. O estilo é
o homem, diziam os clássicos. No caso, o estilo é o homem de Estado. III Vamos
agora à conjuntura. Entre os méritos de Lula celebrados nos primeiros
meses, esteve a própria continuidade em relação a Cardoso.
Não assustou os empresários, reduziu a inflação, o
dólar e o risco-país. Esse foi o mérito realista do
novo governo. Houve também um mérito ligado aos ideais do
PT, que foi realçar na agenda pública a questão da miséria.
Essa questão, que era discreta, tornou-se destaque. Afinal, parece que
só perdemos para Botswana em desigualdade e concentração
de renda. Por que a obsessão com os indicadores econômicos? Entendeu-se
então que Lula teria duas prioridades em seu primeiro ano: manter a moeda
estável e avançar na luta contra a fome. Ficaria para um segundo
momento o restante do projeto social do PT. A idéia era muito boa. O meio
seria a austeridade econômica, confiada ao ministro da Fazenda Antonio Palocci,
ex-prefeito (PT) de Ribeirão Preto, importante cidade do que é chamada
a Califórnia brasileira, ou seja, o interior do Estado de São Paulo,
que conheceu enorme desenvolvimento nos últimos vinte anos. O fim
seriam os programas sociais, ressaltando o que lida com os mais necessitados.
E um meio adicional seria a construção de uma base política
sólida, do que se incumbiu o ministro da Casa Civil, José Dirceu,
ex-presidente do PT e operador político hábil e duro. Janeiro
e fevereiro foram meses de lua de mel. Faz parte do presidencialismo brasileiro
que os presidentes tomem posse com simpatia popular superior aos votos que obtiveram.
Foi assim com Collor (1989), com Fernando Henrique em 1994 e agora com Lula. A
dupla prioridade de preservar a moeda e enfrentar a fome mostrava inteligência.
Não se provocava quem tem poder econômico. E se definia um novo fim
para a atividade estatal. Tentava-se manter os meios, mudando-se os fins. Mas
aqui tivemos os primeiros percalços. O programa Fome Zero pareceu ter erros
de concepção. Ele dará aos mais pobres um valor em dinheiro
que tem de ser gasto em certos alimentos. As compras terão de ser comprovadas,
mediante notas fiscais. Em cada município, haverá um comitê
gestor. E não se pede contrapartida dos beneficiados. Todos
estes pontos foram criticados por gente capacitada, inclusive no próprio
PT. O senador Eduardo Suplicy defende, há anos, um programa de renda mínima,
no qual o beneficiário gasta o dinheiro a seu critério. A exigência
de notas fiscais soa a resquício paternalista, no trato com os pobres.
Receia-se que os comitês gestores constituam aparelhos partidários.
E, pior de tudo, os programas sociais mais bem sucedidos têm sido os que
exigem contrapartidas – por exemplo, exigir que os filhos freqüentem a escola
e fiquem fora do mercado de trabalho ou da rua. Com essas críticas, o cabedal
de simpatia do Fome Zero – que ainda mal se vê atuar – despencou. Não
é que se tenha tornado impopular. Antes, recuou para a escuridão.
Seis meses passados da posse, mal se fala desse programa. Já
a preocupação do governo em "acalmar os mercados" levou a possíveis
erros. Em março, ele fez votar uma emenda constitucional que abre caminho
para a autonomia do Banco Central. Ora, o PT sempre foi contra isso, alegando
que assim se privaria o eleitorado da decisão em política financeira,
passando-a para o lobby dos bancos privados. Seja como for, o inquietante é
que a primeira proposta importante do governo no Congresso pertencesse à
agenda da direita, e não à da esquerda. Qual
a sinalização disso? Dei em março uma palestra na Central
Única dos Trabalhadores, a maior do Brasil, a base social do PT. Dos trinta
líderes médios a quem falei, treze tomaram a palavra. Nenhum deles
elogiou o governo. Seis se disseram preocupados com o que ele está fazendo.
E isso foi antes que o ministro da Previdência detalhasse suas propostas
de reforma, ou que o do Trabalho anunciasse que pretende retirar cerca de cem
artigos da legislação trabalhista. A
esquerda está preocupada. A direita, satisfeita, talvez mais do que deveria.
O Brasil é socialmente injusto, e não há como mudar isso
sem alterar a relação de forças dentro da sociedade. Penso
que foi um erro Lula não aproveitar o período inicial de governo,
quando praticamente qualquer projeto seria aprovado no Congresso, para não
sinalizar pelo menos uma medida forte de resgate da dívida social. Os dissabores
do Fome Zero deram a muitos a impressão de ineficiência. Quem discute
o governo nem se lembra, hoje, do ministério de Segurança Alimentar,
conhecido mais popularmente pelo nome de fantasia de "Fome Zero". Isso é
inquietante. E
o presidente tem insistido em que não tem pressa, em que não será
pautado pelo tempo da mídia. Essa fórmula é curiosa. Afinal,
o PT sempre criticou os governos anteriores, dizendo que a dívida social
brasileira é tão grande e perversa que não há como
esperar. As queixas sociais assumiram um sentido de urgência. O PT sempre
foi o partido da urgência. Apostava na impossibilidade de esperar. Hoje,
pede paciência. As metáforas do Presidente Lula, sobre a paternidade,
gravitam em torno da demora – os nove meses para nascer a criança, um ano
para ela andar, dois para falar. Não podemos ter pressa. Seria sensato,
não fosse o fato de que o PT jamais aceitou essa retórica. Além
disso, se o Partido dos Trabalhadores ganhou as eleições, foi porque
ele capilarizou seu discurso. Conseguiu ter projetos de mudança bem explícitos
em praticamente todos os setores. Seus professores, seus auditores fiscais, seus
médicos têm projetos de mudança – que não se esgotam
nos aumentos de salários – para o ensino, o fisco e a saúde. Que
será deles? Nota-se que o capital de simpatia pelo governo está
caindo, mesmo que o presidente continue muito popular. Talvez
seja isso o mais preocupante. Quem estuda História sabe que na Idade Média
os mais diversos povos amavam seus reis, que eram bons – maus, dizia-se, eram
os ministros, os cortesãos. A figura emblemática do Poder, metaforizando
Deus no céu e os pais em casa, era boa. As figuras da ação
imediata, do fazer, as dos ministros e dos nobres, eram más. Tinha-se um
símbolo inativo e uma ação perversa. Diante disso, o povo
se paralisava. Esse recorte é não democrático. Um governante
não pode se isentar ou se distinguir de seu governo. Já tivemos
isso sob a ditadura, mas era o que ela queria. Numa democracia presidencialista,
converter o presidente em puro símbolo não é bom. Foi assim
que terminou o governo de Fernando Henrique Cardoso, com ele pessoalmente popular
e seu governo muito mal visto. Qualquer
previsão será fantasiosa. Mas o tempo urge. NOTAS 1
Uma aliança possível seria, em 1994, Lula para a presidência,
Mário Covas (PSDB) para o governo de São Paulo. Mas, no interior
do PSDB, Fernando Henrique se opôs à candidatura presidencial de
Lula, e José Dirceu, no PT, à estadual de Covas. Na verdade, porém,
os projetos de cada partido para o país já divergiam muito, com
os tucanos querendo modernizar a economia no rumo da globalização.
Muitos, entre os quais eu, não percebemos isso na época. Queríamos
a união dos dois partidos justamente devido às qualidades de ambos,
que se diziam empenhados em combater a corrupção e a miséria.
2 O PSDB foi fundado somente em 1988,
três anos após o fim da ditadura militar, sendo uma dissidência
do PMDB, o partido-ônibus que reunira a oposição ao regime
autoritário. Mas o PSDB – que logo adotou, caso único em nossa história
recente, um animal como seu ícone, o tucano – congregava algumas das principais
e mais consistentes lideranças do antigo PMDB.
3
Para quem tenha uma formação marxista, o uso do adjetivo "ideológico"
como elogio pode soar estranho. Mas, na década de 1970, era praxe distinguir
no então MDB (pai do posterior PMDB) uma ala fisiológica, que busca
estar de bem com o Poder, mesmo que em tese ela fosse da oposição,
e um grupo ideológico, que acreditava mesmo no que dizia.
4
Desenvolvi estas idéias no artigo "Democracia versus república:
a questao do desejo nas lutas sociais", in Bignotto (org.), Pensar a república,
Belo Horizonte: UFMG, 2000, e nos livros A República (São
Paulo: Publifolha, 2001) e A Democracia (São Paulo: Publifolha,
2001).
5 As eleições estaduais
coincidem com as federais, por exemplo, em 2002. Já as municipais se dão
no outro ano par – as últimas foram em 2000. Todos os mandatos no Brasil,
exceto os de senador, são de quatro anos. No segundo turno, é comum
a esquerda apoiar o centro contra a direita (p. ex., votou em Covas contra Maluf,
para o governo do Estado de S. Paulo, em 1998), mas nem sempre houve a recíproca:
se o centro apoiou Marta Suplicy contra Maluf para a prefeitura de S. Paulo, em
2000, ele tinha votado no direitista Pitta contra a petista Erundina, em 1996.
6 A maior bancada, contudo, são
apenas 91 deputados num total de 513. Seguem-se, quase empatados, o PFL, o PMDB
e o PSDB. Tudo indicava que Lula não teria no Congresso a maioria automática
de Fernando Henrique. Contudo, em poucos meses, a atração que o
Executivo Federal exerce sobre os políticos constituiu um bloco parlamentar
de cerca de dois terços dos deputados e senadores em favor do novo governo. | | |