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Artigo
publicado em Portugal, revista O Mundo em Português, número
44, de maio de 2003. Ver o site www.ieei.pt.
| | Cem
dias de Lula No
centésimo dia do governo Lula, em inícios de abril, um leitor escreveu
para a Folha de S. Paulo: "O primeiro mandato de Fernando Henrique
Cardoso foi ruim, o segundo péssimo, e o terceiro [sic] está sendo
uma catástrofe". Tudo, nesta piada, é um enorme exagero – mas
soa plausível, dado que as diferenças entre o atual governo e o
anterior, embora sendo de partidos opostos, estão sendo menores do que
se esperava. Manteve-se uma política fiscal austera; aos funcionários
públicos, que mal tiveram aumentos nos últimos oito anos, enquanto
o dólar subia quatro vezes, deu-se apenas um por cento de reajuste; a Previdência
Social está para sofrer uma reforma que penalizará os servidores
do Estado mais do que o PSDB jamais sonhou. Em suma, a agenda parece-se muito
com a de Fernando Henrique. O
contraste é chocante, com as expectativas que a eleição de
Lula suscitou. Pela primeira vez, o Brasil tem um presidente de esquerda, eleito
em condições incontestes e aceito pelas classes dominantes e o Império
norte-americano. Numa entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo, em
novembro, depois de responder às perguntas de praxe sobre a moeda, a inflação,
o déficit, Lula reagiu: E da miséria, vocês não falam
nada? A frase marcou uma nova agenda. Os fins sociais passariam a prevalecer sobre
a preocupação com os meios, em especial com o meio circulante, característica
da gestão Pedro Malan na Fazenda, ao longo dos oito anos do governo PSDB. Três
semanas depois de sua posse, logo antes de ir a Davos, Lula foi falar no Fórum
Social Mundial, em Porto Alegre. Assisti a seu discurso. Foi seu momento mais
alto. Seu modo de expressar-se é quase oposto ao de Cardoso. Lula conta
histórias. Cardoso falava dentro de quatro paredes, com celulares desligados;
Lula falou ao ar livre, num ambiente que parecia quermesse. O ex-presidente tinha
um discurso racional, de cientista político, e adorava comentar a ética
weberiana da responsabilidade, com os limites que ela coloca às boas intenções.
Já
o novo presidente tem um modo de falar que faz a razão emanar do afeto.
Contou que vinte anos atrás a liderança empresarial paulista pediu
ao comandante militar do Sudeste que o prendesse, e que sua reação
foi procurar o general, conversando com ele três horas. Explicou que sempre
foi adepto de conversar com o outro lado – hoje, Davos – e prometeu que não
diria coisas diferentes nas duas cidades, o que de fato fez, ganhando do Le
Monde o epíteto de estadista. Como se tivesse lido "O Narrador",
de Walter Benjamin, extraía suas idéias de histórias exemplares
de sua vida. Compreende-se que conseguisse o aval da maior reunião anti-neoliberal
do mundo a seu encontro com os líderes das finanças globais. Uma
façanha. Para
completar o bom começo de Lula: entre seus méritos, está
a própria continuidade em relação a Cardoso. Não assustou
os empresários, reduziu a inflação, o dólar e o risco-país.
Esse é o mérito realista do novo governo. Há também
um mérito ligado aos ideais do PT, que foi realçar na agenda
pública a questão da miséria. Essa questão, que era
discreta, tornou-se destaque. Afinal, parece que só perdemos para Botswana
em desigualdade e concentração de renda. Por que a obsessão
com os indicadores econômicos? Entendeu-se
então que Lula teria duas prioridades em seu primeiro ano: manter a moeda
estável e avançar na luta contra a fome. Ficaria para um segundo
momento o restante do projeto social do PT. A idéia era muito boa. O meio
seria a austeridade econômica, confiada ao ministro da Fazenda Antonio Palocci,
ex-prefeito (PT) de Ribeirão Preto, importante cidade do que é chamada
a Califórnia brasileira, ou seja, o interior do Estado de São Paulo,
que conheceu enorme desenvolvimento nos últimos vinte anos. O fim
seriam os programas sociais, ressaltando o que lida com os mais necessitados.
E um meio adicional seria a construção de uma base política
sólida, do que se incumbiu o ministro da Casa Civil, José Dirceu,
ex-presidente do PT e operador político hábil e duro. Janeiro
e fevereiro foram meses de lua de mel. Faz parte do presidencialismo brasileiro
que os presidentes tomem posse com simpatia popular superior aos votos que obtiveram.
Foi assim com Collor (1989), com Fernando Henrique em 1994 e agora com Lula. A
dupla prioridade de preservar a moeda e enfrentar a fome mostrava inteligência.
Não se provocava quem tem poder econômico. E se definia um novo fim
para a atividade estatal. Tentava-se manter os meios, mudando-se os fins. Mas
aqui tivemos os primeiros percalços. O programa Fome Zero parece ter erros
de concepção. Ele dará aos mais pobres um valor em dinheiro
que tem de ser gasto em certos alimentos. As compras terão de ser comprovadas,
mediante notas fiscais. Em cada município, haverá um comitê
gestor. E não se pede contrapartida dos beneficiados. Todos
estes pontos foram criticados por gente capacitada, inclusive no próprio
PT. O senador Eduardo Suplicy defende, há anos, um programa de renda mínima,
no qual o beneficiário gasta o dinheiro a seu critério. A exigência
de notas fiscais soa a resquício paternalista, no trato com os pobres.
Receia-se que os comitês gestores constituam aparelhos partidários.
E, pior de tudo, os programas sociais mais bem sucedidos têm sido os que
exigem contrapartidas – por exemplo, a criança na escola e fora do mercado
de trabalho ou da rua. Com essas críticas, o cabedal de simpatia do Fome
Zero – que ainda não se vê atuar – despencou. Não é
que se tenha tornado impopular. Antes, recuou para a escuridão. Já
a preocupação do governo em "acalmar os mercados" levou
a possíveis erros. Em março, ele fez votar uma emenda constitucional
que abre caminho para a autonomia do Banco Central. Ora, o PT sempre foi contra
isso, alegando que assim se privaria o eleitorado da decisão em política
financeira, passando-a para o lobby dos bancos privados. Seja como for, o inquietante
é que a primeira proposta importante do governo no Congresso pertencesse
à agenda da direita, e não à da esquerda. Qual
a sinalização disso? Dei em março uma palestra na Central
Única dos Trabalhadores, a maior do Brasil, a base social do PT. Dos trinta
líderes médios a quem falei, treze tomaram a palavra. Nenhum deles
elogiou o governo. Seis se disseram preocupados com o que ele está fazendo.
E isso foi antes que o ministro da Previdência detalhasse suas propostas
de reforma, ou que o do Trabalho anunciasse que pretende retirar cerca de cem
artigos da legislação trabalhista. A
esquerda está preocupada. A direita, satisfeita, talvez mais do que deveria.
O Brasil é socialmente injusto, e não há como mudar isso
sem alterar a relação de forças dentro da sociedade. Penso
que foi um erro Lula não aproveitar o período inicial de governo,
quando praticamente qualquer projeto seria aprovado no Congresso, para não
sinalizar pelo menos uma medida forte de resgate da dívida social. Os dissabores
do Fome Zero deram a muitos a impressão de ineficiência. E o presidente
tem insistido em que não tem pressa, que não será pautado
pelo tempo da mídia. Essa fórmula é curiosa. Afinal, o PT
sempre criticou os governos anteriores, dizendo que a dívida social brasileira
é tão grande e perversa que não há como esperar. As
queixas sociais assumiram um sentido de urgência. Além disso, se
o Partido dos Trabalhadores ganhou as eleições, foi porque ele capilarizou
seu discurso. Conseguiu ter projetos de mudança bem explícitos em
praticamente todos os setores. Seus professores, seus auditores fiscais, seus
médicos têm projetos de mudança – que não se esgotam
nos aumentos de salários – para o ensino, o fisco e a saúde. Que
será deles? Espero estar errado, mas parece-me que o capital de simpatia
pelo governo está caindo, mesmo que o presidente continue muito popular.
Há o receio, na esquerda, de que não só as propostas de reforma
social não se realizem, como de que ela passe a imagem de inepta no exercício
do Poder. Enfim, até o momento o governo mais se preocupou em acalmar quem
não votou nele do que em atender a seus eleitores. Precisará mudar,
e logo. | | |